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Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei romance Capítulo 93

PERSPECTIVA DA SERAPHINA

Depois daquele dia, um tipo de trégua silenciosa parecia ter se instaurado entre o Kieran e eu, com ambos silenciosamente concordando em uma coisa: manter a distância.

Fomos cautelosos um com o outro, cuidadosos, como soldados rivais que por acaso se aproximaram demais no campo de batalha e deviam recuar para as suas linhas com as armas abaixadas, mas ainda com as mãos tensas nos gatilhos.

Entramos em um ritmo estranho, não daquele tipo confortável que acalma, mas um ritmo tenso, como uma corda de arco esticada demais.

Ele não pairava mais ao meu redor, não me encurralava contra paredes e balcões e não permanecia atrás de mim com aquele silêncio carregado que fazia o ar parecer pesado.

E eu não sentia mais o ardor do seu olhar quando ele achava que eu não estava vendo. Pelo menos, dizia a mim mesma que não sentia.

Na verdade, eu tanto me agarrei a essa distância quanto a detestava. Porque era mais seguro. Para mim. Para ele. Para o meu menininho, que só queria que a mãe fosse feliz.

A picada de cobra se curou rapidamente e logo voltei às minhas atividades.

Falando em curar... Os hematomas e marcas que o Kieran deixou por todo o meu corpo, como sinais ilícitos e provas do meu descuido e do momento de falta de bom senso, também desapareceram.

E eu pude fingir que tudo não passava de um sonho muito vívido, muito lúcido.

Passei a maior parte dos dias com o Daniel, com destaque para as caminhadas matinais na praia (mantendo distância dos arbustos e do oceano). Eu observava a uma distância segura enquanto o Kieran ensinava o Daniel a surfar e ficava por perto durante as aulas com o tutor.

Então, uma semana depois, durante o café da manhã, o Daniel disse, com a boca lambuzada de manga: "Mãe, agora que você tá melhor, podemos fazer uma aventura em família?"

Os olhos dele brilhavam, grandes e esperançosos, aquele tipo de olhar que me fazia sentir que eu poderia construir um mundo inteiro com minhas próprias mãos se isso fosse fazê-lo sorrir.

"Uma aventura em família?" Repeti, colocando o garfo na mesa.

Ele assentiu, os cachos balançando: "Eu posso planejar tudo. Podemos explorar os recifes, ou pescar, ou velejar até outra ilha, ou fazer uma trilha, ou acender uma fogueira na praia e dormir sob as estrelas, ou..."

"Calma aí!" Eu ri. A alegria dele era contagiante e aqueceu mais o ar da manhã do que o sol do Caribe entrando pelas janelas.

Por um momento, a tensão que dominava a villa pareceu distante, afastada pela simples e genuína alegria do meu filho.

Kieran, que estava em silêncio do outro lado da mesa tomando o seu café, deu uma risadinha, mas não disse nada. Era sempre assim quando estávamos os três juntos: ele só falava se alguém puxasse assunto, mas parecia estar sempre observando as nossas interações de fora, como se estivesse olhando através de uma janela.

"Papai, o que você acha?" Daniel perguntou, se mexendo na cadeira, animado. "Você vai com a gente, né?"

Antes que o Kieran pudesse responder, seu celular vibrou sobre a madeira polida da mesa.

Senti uma pontada de irritação por ele estar com o aparelho quando eu não podia, mas logo essa sensação foi substituída pela curiosidade resultante da expressão endurecida dele ao olhar para a tela.

Ele se levantou e se afastou alguns passos antes de atender. Sua voz ficou baixa, incisiva: "Oi, ainda é cedo. O que houve?"

Tentei não olhar para ele... e falhei. Observei como os músculos dos seus ombros se contraíam, como ele apertava o telefone e como a mandíbula se movia enquanto ele assentia e murmurava rapidamente.

Então, ele se virou.

Meu coração deu um salto e não consegui desviar o olhar a tempo.

Levantei a sobrancelha quando vi que ele estava vindo na minha direção.

Ele me entregou o celular com uma expressão indecifrável.

"Sera," ele disse, com a voz tensa. "É a Celeste. Ela quer falar com você."

Meu estômago revirou. "A Celeste?"

Eu não sabia o que me surpreendia mais, o fato de ser a Celeste na linha e ele parecer tão... desconfortável, ou o fato da minha irmã querer falar comigo.

Os dedos dele tocaram os meus quando peguei o telefone e, por um breve instante, pensei ter visto uma tempestade se formando novamente nos seus olhos.

Mas, então, ele recuou, cruzando os braços no peito como se estivesse se protegendo do que estava por vir.

Olhei para o celular na minha mão, me preparando para... O quê? Eu não sabia.

Encostei o telefone no ouvido. "Celeste?"

A voz dela veio suave, quase doce, o que por si só me deixou inquieta. "Sera. Achei melhor ligar pro Kieran, já que sabia que você não levou o seu celular pra ilha."

Meu peito apertou. "O que você quer?"

Ela suspirou profundamente. "É a Mamãe. Ela foi internada. Os médicos dizem que é grave. Você deveria vir pra cá."

Minha mão afrouxou ao redor do telefone. "Internada?"

"Sim." O tom da Celeste ficou mais afiado, embora ela rapidamente o cobrisse com o que parecia ser uma simpatia fingida. "Eu não ligaria por outro motivo. Achei que, apesar de tudo, você ia gostar de saber. Ela ainda é sua mãe, afinal."

Emoções conflitantes me rasgaram ao mesmo tempo.

Raiva, ainda fervendo, porque, mais do que a minha mãe, Margaret Lockwood era a mulher que virou as costas para mim, que ficou de braços cruzados enquanto eu era tratada como um nada, que escolheu a conveniência e as aparências em vez da própria filha;

E tristeza não dita e não reconhecida, porque não importa quantas vezes ela tenha errado comigo, ela ainda era a minha mãe. Eu já tinha perdido o meu pai sem conseguir me reconciliar com ele, sem poder dizer adeus.

Capítulo 93 1

Capítulo 93 2

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