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Não Quero Mais Ser A Sra. Cavalcanti! romance Capítulo 156

A pergunta feita pelo repórter da Gazeta de Alvorada deflagrou uma série de murmúrios na plateia.

Embora todos ali fossem profissionais voltados à tecnologia e às ciências, a fofoca e a curiosidade são vícios intrínsecos à condição humana — a única variação reside na intensidade e no alvo do falatório.

— Essa questão desvia do escopo de hoje, portanto a consideraremos inválida. Próxima pergunta... — o mestre de cerimônias agiu rápido para neutralizar o repórter com sutileza.

Mas era evidente que o repórter não arredaria pé. Recusando-se a largar o microfone e ignorando abertamente os olhares fulminantes de aviso emitidos pelo mestre de cerimônias e por Samuel, ele ergueu o queixo e tornou a pressionar:

— Existe algum segredo constrangedor que justifique essa evasiva?

Ele fitou Alice, as íris repletas de um interrogatório impiedoso e a clara intenção de montar um espetáculo em cima da honra dela.

— Diretora Almeida, não resta dúvida de que os presentes querem entender: como é possível que um talento da sua envergadura desfrute de um vácuo de sete anos sem atividade alguma? Uma janela de sete anos, minha senhora, não é exatamente um fim de semana!

Assim que ele soltou aquela farpa, o rebuliço no salão intensificou-se.

De fato, sete anos eram uma eternidade!

Considerando Alice como fundadora do Laboratório de Osciladores Quânticos e desenvolvedora do Giroscópio de Cristal Quântico, sua genialidade era irrefutável. Se esse hiato de sete anos jamais houvesse existido, quem sabe seu status na pesquisa científica não seria ainda maior do que o posto de Diretora do Centro de Pesquisa?

A investida insolente do repórter e o turbilhão de especulações do público fizeram o rosto do Sr. Alberto fechar-se numa carranca tempestuosa.

— E então, Alberto? O que sua pupila de ouro andou aprontando naqueles sete anos? — provocou um dos anciãos ao lado de Alberto.

O Sr. Alberto limitou-se a fuzilar o velho cientista com um olhar.

— Hmph! A idade avançou, mas a sua curiosidade não envelheceu nada.

Em vez de dar uma resposta direta ao colega, o Sr. Alberto voltou seu olhar irritado para Samuel.

Sebastião uniu as mãos, os olhos levemente semicerrados registrando cada mínimo traço do rosto do repórter, gravando-o em sua memória.

Samuel já estava explodindo de fúria e preparava-se para intervir. No entanto, a voz de Alice flutuou do palco, mansa e firme.

— Está tudo bem, eu posso responder.

O auditório engoliu as próprias palavras e silenciou instantaneamente, enquanto o repórter estampava um sorriso petulante, seguro de sua vitória.

Samuel cravou os olhos em Alice, sem conseguir disfarçar a insegurança. Uma investida daquelas não só reabria uma ferida antiga, como exigia que ela esfolasse as próprias chagas para aplacar os sussurros de um salão inteiro.

Naquele instante, Sebastião teve o próprio rosto despojado de toda a expressão. Assim como um leopardo encobrindo o próprio bote entre os matagais, sua calmaria abafava um instinto afiado de assassino.

Do lado oposto, porém, nas sombras das últimas fileiras, o interior de Jorge rugia feito uma tempestade furiosa.

Seus olhos trancados na figura de Alice sentiam que era inútil abafar o terremoto que castigava a sua mente.

Alice abdicou da pesquisa apenas por ele e pela família que eles tinham?

Um enxame escuro de culpa e amargura rasgou as entranhas de Jorge de dentro para fora. Jamais, em hipótese alguma, ele tinha desconfiado que ela sacrificara coisas tão profundas por sua causa.

E como foi que ele agiu...

Observando os punhos violentamente fechados e as omoplatas trêmulas de Jorge, a respiração de Sabrina escapuliu num compasso de agonia brutal.

A plateia encontrava-se cravada sob as expectativas em torno da próxima cartada da Diretora.

Assim que o repórter acreditou ter cravado as garras na grande vulnerabilidade que ela lutava para esconder, convicto de que ela não saberia responder...

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