Como era de se prever, o semblante de Benedito escureceu após ouvir a enxurrada de perguntas.
— Natália, ser curiosa é um traço positivo. Mas fuçar naquilo que não lhe diz respeito não é algo aceitável. Está me entendendo?
Era a primeira vez que Natália o via daquele jeito consigo, o que a assustou de verdade.
Seu rosto perdeu a cor, e ela assentiu repetidas vezes.
— Mil desculpas, tio, eu me equivoquei, prometo nunca mais fazer perguntas sobre isso.
Ao perceber o terror no rosto pálido de Natália, as feições de Benedito relaxaram e o seu tom de voz voltou a ser mais brando.
— Natália, guarde isto na memória: o seu único papel é focar em evoluir profissionalmente. O seu tio providenciará absolutamente tudo para alavancar a sua carreira. O que não disser respeito a você não deve ser objeto da sua curiosidade. Fui claro?
Com os olhos vermelhos, Natália concordou mansamente.
— Sim, eu entendi.
— Muito bem, não chore. Moças perdem a beleza quando choram. — Benedito tentou consolá-la do seu jeito meio desajeitado.
Limpando as lágrimas, Natália ficou com a ponta do nariz rosada, parecendo um adorável cervo assustado.
Valendo-se do momento de compaixão de Benedito, ela manobrou a conversa habilmente.
— Tio, por que o senhor me trata tão bem?
Afinal de contas, por mais que fosse a herdeira verdadeira, ela pertencia à linhagem secundária da família. Não era a filha legítima de Benedito; contudo, tudo o que ela almejava o tio lhe entregava de bandeja.
Benedito a encarou, como se buscasse nos traços dela os reflexos de alguém do passado.
— Você tem conhecimento de que um dia eu tive uma filha, certo?
Ela fez que sim com a cabeça. Já sabia da história da filha morta do tio.
E, de fato, não era lá um grande tabu na Família Santos.
O tom dele se manteve gentil, mas os cantos dos seus olhos avermelharam levemente.



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