Alice Almeida permaneceu no sanatório fazendo companhia ao Sr. Alberto até o meio-dia. Almoçaram juntos, e depois ela ainda ajudou o cuidador a dar os medicamentos da tarde. Só então foi escorraçada com impaciência pelo velhinho.
— Vá, vá, vá logo! Você parece uma mosca, zumbindo sem parar no meu ouvido! Pode ir! — O Sr. Alberto esbravejou tentando espantar Alice, os cantos da boca ainda levemente úmidos da água que bebera para engolir as pílulas.
Alice não se ofendeu; sabia que o professor estava com birra de criança. Após dar algumas recomendações ao cuidador, ela deixou o sanatório.
Como não tinha certeza se Benedito Santos ainda estava internado no Hospital Central de Alvorada, e para evitar um encontro indesejado com Natália Santos ou qualquer outro membro da família como na última vez, Alice decidiu não usar o corredor de interligação. Preferiu sair diretamente pela porta da frente do sanatório, dando a volta para chegar à rua e pegar um táxi.
Enquanto caminhava, ponderava que deveria comprar um carro. Assim as coisas ficariam mais fáceis no futuro.
O veículo que ela dirigia antes estava no nome de Jorge Cavalcanti. Ao se mudar daquela casa, era óbvio que o deixaria para trás.
Ainda imersa na ideia de quando iria ver alguns carros, Alice chegou ao lado de fora sem perceber.
Passando abruptamente da relativa penumbra do interior para o sol escaldante, a visão de Alice embaçou por um instante. Bem ali havia um degrau. Em fração de segundos, ela perdeu o equilíbrio e seu corpo inclinou-se perigosamente para baixo.
Bem quando já aguardava o contato doloroso com o concreto, um braço forte envolveu sua cintura e a amparou com firmeza.
— Obri... — O agradecimento de Alice morreu na garganta ao inspirar uma fragrância inconfundível. Sob a luz intensa do sol, deparou-se com um rosto conhecido.
Embora o homem usasse óculos escuros, ela sentiu como se pudesse ver, por trás das lentes negras, o escárnio faiscando naquelas pupilas.
Como se tivesse levado um choque, Alice rapidamente se desvencilhou do abraço dele, endireitou o corpo e tentou contorná-lo para ir embora, sem lhe dirigir mais um único olhar.
Uma sensação avassaladora de repulsa começou a se alastrar de seu peito.
Foi então que uma voz arrogante soou vinda de cima:
— O que foi? Fingindo que não me conhece?
Por trás dos óculos, as sobrancelhas espessas e afiadas do homem se uniram. Em seguida, ele deu um passo à frente com suas pernas longas, encurtando a distância entre os dois.
A sua estatura imponente pairou sobre Alice como um muro maciço. Num instante, ela se viu envolvida por aquela sombra imensa e recuou instintivamente, buscando espaço.



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