Antes, ela acreditava que fazer toda a família feliz justificava sua existência.
Mas após o choque de realidade dos últimos tempos, ela começou a perceber que sua existência já tinha valor por si mesma. Não precisava provar seu valor aos outros; bastava que ela mesma se visse.
Pena que levou quase 28 anos para entender isso.
Na manhã de sábado, Alice Almeida acordou, preparou dois ovos cozidos e um café para o café da manhã. Levou a comida para o escritório e retomou a organização de seus manuscritos.
Quando Yara Inácio ligou, ela acabara de descascar um dos ovos.
Ao ver a palavra "Sogra" brilhando na tela do celular, Alice franziu a testa, mas atendeu a chamada.
Assim que a linha foi conectada, as reprimendas de Yara ecoaram feito pedras:
— Ouvi o Júlio dizer que você não volta para casa há uma semana.
— Sim. — Alice admitiu tranquilamente e rebateu num tom brando: — Algum problema?
Yara obviamente não esperava que Alice admitisse isso de forma tão imperturbável, sem uma única palavra de justificativa, e ainda por cima retrucasse perguntando se havia algum problema.
— Algum problema?! — A sempre elegante senhora elevou a voz no telefone, algo inédito. — Alice, como a nora mais velha da família Cavalcanti, você não sabe manter as aparências nem se portar em sociedade. Mas aceitamos você porque deu um filho para os Cavalcanti e porque parecia ser recatada e conhecer o seu lugar. Nunca esperamos que trouxesse nenhum benefício para a família, mas cuidar bem da rotina do marido e do filho, no mínimo, não é a sua obrigação como dona de casa?
Ouvindo as queixas de Yara, Alice inspirou fundo. Embora os papéis do divórcio já estivessem em trâmite, legalmente Yara ainda era sua sogra, e a família Cavalcanti, a família de seu marido.
Havia certas coisas que, se precisassem ser ditas, deveriam ser ditas por Jorge.
Mas, a julgar pela situação, ficava evidente que Jorge não comunicara nada à família. Ou melhor, ele simplesmente não se dava ao trabalho de mencionar aquele tipo de coisa.
O casamento deles importava pouquíssimo para Jorge. Exatamente como ela mesma não ocupava nenhum espaço no coração dele.
— Eu não moro mais aí. — Respondeu Alice de forma direta.
— O que quer dizer com isso? — A voz de Yara endureceu ainda mais.
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