Não muito tempo atrás, Jorge Cavalcanti havia dito exatamente o mesmo dela.
À medida que os comentários depreciativos de Jonas Farias ecoavam, os outros homens da mesa soltavam fungadas debochadas ou risos abafados; alguns a observavam com um olhar carregado de malícia indisfarçável.
E Jorge, apenas acompanhando as humilhações de camarote, não fez nenhum movimento para acalmar os ânimos de ninguém ou protegê-la.
Muito pelo contrário, com a maior indiferença do mundo, lançou a chave do seu carro na direção de Alice:
— O carro está lá fora. Vá esperar por mim lá.
Lutando contra o nó entalado na garganta e o mal-estar que esmagava o coração, Alice devolveu a chave bruscamente para Jorge, atirando a peça de volta:
— Já disse, não vim buscar você.
Ela não tinha tempo para ficar ali se desgastando com Jorge; a prioridade era encontrar Sara Lima.
Ela temia pensar no tamanho do golpe que Samuel Lima sofreria caso algo de mal acontecesse a Sara.
O problema é que aquela teimosa continuava sem atender o celular. No meio da imensidão daquele bar, Alice circulava perdida feito uma barata tonta.
O rosto de Jorge escureceu enquanto acompanhava a fuga rápida dela; ao ver a chave cair no seu colo de novo, sua testa se fechou em vincos severos.
A atitude causou certo espanto a Jonas.
— Ela não veio mesmo por você?
Jorge calou-se. Com os olhos cerrados, focou em Alice enquanto ela sumia em direção aos banheiros do lugar.
Depois de ter dado voltas sem nenhum sinal pelo recinto inteiro, Alice ponderou que a menina pudesse estar escondida pelo corredor de toaletes.
Logo que a porta do banheiro abriu, um pranto feminino sufocado rompeu o espaço vazio do cômodo.
— Sara, é você que está aí dentro? — Alice chamou num tom sutil.
O choro foi interrompido instantaneamente dentro da cabine trancada, contudo sem resposta alguma.
Alice continuou a adentrar o local.
— Eu sou a Alice Almeida, você se lembra de mim? Sou colega do seu pai, a gente se conheceu quando você era menorzinha.
A portinha se entreabriu minimamente. Revelando um rosto coberto por lágrimas que haviam borrado a maquiagem da menina.
Ao certificar-se de que realmente tratava-se de Alice, os nervos de Sara desabaram e o soluço escapou estridente:
— Onde está o meu pai? Por que ele não veio?
No segundo subsequente, pancadas atordoantes ressoaram na porta desprotegida.
— Vagabunda cretina, abre logo a porta! Não vai dar para você se enconder!
— Abre logo a cabine, queridinha, nós somos bem maneiros. É só dar uma espiadinha.
Dobrada sobre o assento da privada, Sara tremia sem parar.
Com o contexto se formando de supetão na sua mente, Alice capturou as minúcias. Contudo, em meio a essa novidade aterrorizante, sussurrou interiormente repetidas vezes que não deveria perder o controle emocional da situação.
— Estamos vivendo em uma sociedade repleta de leis, o que vocês estão tramando é crime. O tanto que ela bebeu à sua custa, pode me passar o valor. Faço a transferência pra sua conta.
O cálculo de Alice sugeria que um papo de gente grande inibiria os vagabundos no corredor ou que as moedas seriam suficientes para estancar o drama.
Contra todos os prognósticos, ao reconhecer a nova entonação de voz, a turba do outro lado enxergou muito mais malícia do que recato; empolgando-se instantaneamente.
— Caramba, tem duas vadias aí.
— Pode crer, vi um mulherão perfeito deslizando aí pra dentro; e a safadinha se embrenhou na mesma porta.
— Que delícia, vai ser gostoso de brincar.

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