Vitória ergueu uma sobrancelha.
Ela não podia estar ali?
Lendo a dúvida no olhar dela, Fernando pigarreou.
Ele se aproximou, num tom que beirava a justificativa:
— A sua assistente se machucou, não foi?
Vitória assentiu com a cabeça.
— Pedi para a levarem ao hospital. O laudo de corpo de delito deve chegar logo.
— E como estão as coisas lá dentro?
Fernando fez um gesto para que conversassem lá fora.
Vitória o acompanhou até o corredor e os dois pararam no final do trajeto.
— Quer água?
Fernando tirou uma garrafinha de água mineral do bolso, como num passe de mágica.
Vitória hesitou por um segundo antes de aceitar.
— Obrigada.
Fernando pareceu sorrir, embora Vitória não tenha conseguido decifrar o olhar dele.
— A namorada do Antônio Loureiro foi até a casa da família Loureiro hoje.
— Foi ela quem plantou na cabeça deles que o Antônio jamais cometeria suicídio.
— Ela mostrou as mensagens trocadas entre os dois. Disse à família que ele estava feliz no relacionamento e que não faria sentido se matar do nada. Garantiu que tinha algo podre nessa história.
— A família Loureiro engoliu a isca na hora. Convenceram-se de que a perícia errou, de que Antônio foi assassinado, e vieram fazer esse barraco aqui.
O corpo de Antônio ainda estava no necrotério. Ninguém suspeitou das intenções da família quando chegaram.
Foi assim que se aproveitaram da brecha e causaram todo aquele caos no laboratório.
— Eles não leram a carta de despedida do Antônio?
— Leram. Mas não acreditam que foi ele quem escreveu.
Fernando apalpou os bolsos por instinto.
Não encontrou o que queria, estalou a língua irritado e tirou a mão vazia.
Vitória deduziu que ele procurava um cigarro.
Era comum na área. Muitos detetives fumavam para lidar com a pressão brutal da profissão.
Vitória pensou um pouco, tirou algumas balas do bolso e estendeu a mão.
— É melhor comer um doce. Fumar faz mal.

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