O motor rugia na madrugada.
O carro cortava a estrada costeira como uma lâmina prateada sob a lua. O mar à esquerda era um deserto líquido e negro, o vento trazia o cheiro frio do sal e algo mais; algo metálico, como sangue fresco.
Dentro do carro, ninguém falava. Apenas o chiado do rádio preenchia o silêncio.
— Coordenadas confirmadas. Repetindo: ela está viva.”
As palavras estalaram no ar, mas soaram quase irreais.
Viva.
Ian segurou o volante com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. No banco ao lado, Matheus observava o rosto do chefe e viu o que ninguém mais veria, a rachadura sob o controle.
— Como a encontraram? — Ian perguntou, a voz rouca, sem emoção.
— Pescadores locais, que fazem a segurança da casa litorânea dos Moretti. — respondeu Matheus. — Viram movimento perto das pedras antigas, na enseada. Disseram que a maré estava agitada. Quando chegaram, viram luzes acesas na casa e faróis de carro.
Ian não respondeu. Apenas encarou a escuridão além do para-brisa. O farol varria o vazio como um olho em busca de um corpo perdido.
Dentro do bolso interno do paletó, ele apertava o pedaço rasgado do vestido. O tecido estava úmido, amassado, manchado de terra e sangue seco. Tornara-se seu talismã e sua condenação.
Não era medo do que iria encontrar. Era medo do que ela vai ver em nele quando abrir os olhos.
O rádio voltou a chiar.
Mais vozes, urgentes, truncadas.
— ...casa localizada... nenhum sinal visual... estamos entrando...
O carro freou em uma curva fechada. O farol iluminou uma colina rochosa e, no topo, a silhueta de uma antiga construção de pedra, meio engolida pela neblina. As luzes vermelhas dos outros carros de segurança piscavam como feridas abertas contra a escuridão.
Ian saiu sem esperar o veículo parar por completo. O vento bateu no rosto como um golpe, mas ele não hesitou.
Matheus e dois seguranças seguiram logo atrás.
O portão de ferro estava semiaberto, rangendo. O jardim era apenas terra e sal. No ar, o som constante do mar batendo contra as rochas, grave, rítmico, como uma respiração subterrânea.
— Chegamos tarde demais — murmurou um dos seguranças. — As pegadas... terminam aqui.
Ian subiu os degraus da varanda, o olhar afiado, como se pudesse rasgar as sombras. A porta principal estava entreaberta. Ele empurrou com força, o som ecoou pelos corredores vazios.
Lá dentro, só silêncio.
E um perfume; leve, familiar. O perfume de Olívia.
Ele parou. Por um instante, o ar pareceu sumir do ambiente.
— Ela esteve aqui. — Sua voz era apenas um sopro.
Matheus acendeu a lanterna e apontou para o chão. Pegadas finas, descalças, e o arrasto de um tecido.
— Senhor... — chamou um segurança, de repente. — Precisa ver isso.
Conduziu-o até o fundo da casa, descendo uma escada estreita, úmida, que levava a um porão. O cheiro ali embaixo era pior: ferrugem, mofo e algo queimado.
A luz da lanterna revelou o resto.
Símbolos riscados nas paredes. O brasão dos Moretti, o leão e a águia, mas invertido, profanado. A tinta parecia carvão misturado com sangue seco. E, no canto, caixas antigas cobertas de poeira, carimbadas com as iniciais:
N. MORETTI
Ian se abaixou, tocando uma das caixas. O selo era autêntico, o mesmo usado pelo avô décadas atrás.
“Não era um sequestro,” pensou. “Era uma mensagem.”
— Nicolau sabia — ele murmurou, o olhar fixo no brasão invertido. — Esse cara voltou por ele.
Antes que Matheus pudesse responder, um som, passos lentos, ecoou no corredor.
Ian largou o homem e correu, o som dos próprios passos ecoando nas paredes como tiros. Subiu a escada, cruzou o corredor e saiu pela porta principal, ignorando os gritos de Matheus atrás dele.
Do topo do penhasco, o mundo era uma imensidão negra e furiosa. O vento rugia, o mar se debatia contra as rochas.
— Ian! — Matheus apareceu, ofegante. — Vamos chamar os mergulhadores! A maré tá subindo!
Mas Ian não o ouviu.
Ele olhou para baixo e viu apenas o abismo; o mar revolto, as ondas brilhando sob a lua.
Sem dizer nada, tirou o terno e o jogou no chão.
O vento o levou, fazendo o tecido rodopiar antes de pousar aos pés do irmão, que observava da varanda.
Ian fechou os olhos. Por um segundo, o rosto de Olívia surgiu em sua mente; não o da noiva, mas o da mulher que o desafiava, que sangrava, que sobrevivia.
E então pulou.
O corpo desapareceu na noite, engolido pelo mar.
Matheus gritou o nome dele, mas a voz se perdeu no vento.
Lá em cima, o irmão caminhou até o penhasco, observando o ponto onde Ian sumira. Depois, lentamente, abaixou-se e pegou o terno caído.
De dentro do bolso interno, retirou o que realmente procurava: um pergaminho antigo, selado com cera vermelha e o brasão Moretti.
O sorriso que surgiu em seus lábios era frio, satisfeito.
— Finalmente — murmurou, dobrando o documento com cuidado. — O que é dos mortos, volta aos mortos.
O vento soprou forte, apagando as últimas luzes da casa.
E o mar rugiu, como se reclamasse o preço que os Moretti deviam ao próprio sangue.

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