O mundo parou. O som monótono do monitor cardíaco, o zumbido distante do hospital, até mesmo a própria respiração de Olívia; tudo cessou quando as palavras de Ian ecoaram no quarto silencioso.
"Eu te amo."
Três sílabas que ela tanto desejara ouvir, e que agora soavam como uma sentença final. Havia uma beleza cruel na forma como ele as proferira, não como uma declaração romântica, mas como uma confissão de derrota.
— Eu te amo de uma maneira que não entendo, que não posso controlar, que me assombra todas as noites — ele continuou, sua voz quebrada carregando o peso de uma batalha interna que ela apenas agora compreendia em sua totalidade. — E é exatamente por isso que estou te deixando ir. Porque tudo que essa família toca apodrece. E eu preferiria morrer do que ver você destruída pelo veneno que corre em nossas veias.
As lágrimas que Olívia vinha contendo finalmente transbordaram, rolando silenciosamente por sua face enquanto estudava o homem diante dela. O mesmo homem que a arrastara para um mundo de aparências e manipulação, que a marcara com suas sombras, mas que também revelara lampejos inegáveis de humanidade sob todas as camadas de poder e controle.
— Ian... — ela sussurrou, sua mão estendendo-se instintivamente em direção à dele, num gesto que era tanto de consolo quanto de conexão.
Mas antes que seus dedos pudessem se encontrar, a realidade irrompeu no quarto. A porta se abriu abruptamente e Matheus apareceu, seu rosto pálido, os olhos abertos com urgência.
— Ian — ele disse, a voz tensa. E não precisou falar mais nada para que Ian pressentisse o que viria.
Ian virou-se lentamente para olhar para Olívia, seus olhos agora carregados de uma resignação sombria que a fez estremecer.
— Você vê? — ele sussurrou, sua voz um fio de som amargo. — O veneno já está se espalhando.
Enquanto as palavras dele ecoavam no quarto, Olívia sentiu uma compreensão dolorosa se formar em sua mente: a liberdade que ele lhe oferecia era uma ilusão. Não importava quantos documentos assinasse, seus destinos estavam inextricavelmente ligados, pelo amor que ele finalmente admitira, pela dor que compartilharam, e por uma guerra familiar que estava apenas começando.
Quando Ian se moveu para sair, o monitor cardíaco apitou brevemente, não por qualquer crise médica, mas porque a mão de Olívia tocou inconscientemente o local da marca queimada em seu braço, como se a simples memória do ferimento fosse suficiente para perturbar sua calma superficial.
— A marca... — ela murmurou, seus dedos pressionando levemente a pele sensível através do curativo. — Ela ainda arde.
Ian parou na soleira da porta, seu corpo tensionado. Sem se virar, sua resposta veio baixa, mas carregada de uma promessa sinistra:
— Vai arder até eu arrancar cada um dos fantasmas que a colocaram aí.
Mas Olívia não estava pronta para deixá-lo ir. Não assim. Não depois de tudo.
— E se eu não quiser ir? — ela sussurrou, sua voz assumindo uma vulnerabilidade quase infantil que raramente permitia mostrar. — E se eu quiser ficar, mesmo sabendo o inferno que isso significa?
Ele se virou lentamente, seus olhos se encontrando com os dela. Quando ele se inclinou, sua respiração era quente contra seu rosto, seu olhar intenso e implacável.
— Então eu seria tudo aquilo de que você tentou escapar — respondeu, sua voz baixa, mas incrivelmente clara. — E eu prefiro morrer do que te ver presa de novo. Mesmo que seja por mim.
As lágrimas de Olívia fluíam livremente agora, silenciosas mas implacáveis. Ela tentou formar palavras, mas apenas um soluço abafado escapou de seus lábios.
Ian ergueu a mão e, com uma ternura que contrastava brutalmente com a frieza de suas palavras, limpou uma lágrima com a ponta do polegar. O toque foi leve, quase reverente, como quem toca algo precioso que sabe estar prestes a perder.
Depois, ele soltou um suspiro longo e profundo que soou como um gemido de dor contida, e se afastou.
— Assina quando estiver pronta — ele disse, pegando outro paletó da cadeira onde o havia deixado. — Eu não vou forçar mais nada. Nem a sua liberdade.
Ele se virou e foi em direção à porta, cada passo ecoando no silêncio do quarto como um martelo batendo em um caixão. A cada movimento que o afastava dela, Olívia sentia o ar rarear ao seu redor, como se a própria ausência dele estivesse sugando o oxigênio da sala.
— Ian... — ela chamou, sua voz um fio de som no quarto silencioso.
Ian respirou fundo, o ar saindo de seus pulmões em um suspiro controlado.
— Ainda não. Primeiro, quero que Olívia e Léo estejam seguros, longe daqui. — Seus olhos se encontraram com os de Matheus. — Depois... eu acabo com isso de uma vez por todas.
Matheus estudou-o por um instante, seu rosto uma mistura de preocupação e admiração. Seu olhar então desviou-se para o outro lado do saguão envidraçado, onde Carla estava sentada na sala de espera, absorta em seu celular. Um sorriso involuntário cruzou seus lábios.
Ian seguiu seu olhar e soltou um riso seco e cínico.
— Você devia saber que se envolver com alguém no meio do caos é suicídio emocional, Matheus.
Matheus encarou-o, seu meio sorriso se transformando em algo mais sério.
— E você devia saber que fugir do que sente não te torna mais forte, Ian — ele respondeu, sua voz suave, mas firme. — Só te torna mais sozinho.
Ian não respondeu. Em vez disso, abriu a pasta e olhou para o selo do brasão dourado estampado em um dos documentos. O mesmo brasão que agora estava queimado na pele de Olívia. O símbolo do império que ele jurara proteger, mas que agora estava disposto a destruir para salvá-la.
Do lado de fora, o som distante de sirenes cortou o ar da manhã. Matheus recebeu uma notificação em seu rádio e empalideceu visivelmente.
— Ian... — ele disse, sua voz repentinamente grave. — As docas. Estão pegando fogo. Desta vez é grande.
Ian ergueu o olhar, seu rosto se transformando naquela máscara impenetrável de determinação mortal que Matheus conhecia tão bem.
— Então acabou a trégua — Ian declarou, fechando a pasta com um estalo seco que ecoou no saguão silencioso.

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