Entrar Via

Nosso Filho, Meu Segredo: O Contrato Proibido romance Capítulo 157

O relógio de parede daquele quarto de hospital anunciava o lembrete do tempo que continuava a passar, indiferente ao caos que reinava na vida de Olívia.

A porta rangeu suavemente quando Carla entrou novamente. Ela parou por um momento, observando a cena diante de si.

Olívia estava sentada na cama, seus dedos entrelaçados sobre o lençol imaculado, o olhar perdido na paisagem urbana que se estendia além da janela. Havia algo diferente nela, uma serenidade que não era paz, mas sim a calma estranha que segue após uma tempestade devastadora.

— Pensei que voltaria a dormir. — Carla disse, sua voz um sussurro cuidadoso que parecia respeitar a fragilidade do momento.

Olívia virou o rosto lentamente, e Carla sentiu um frio percorrer sua espinha. A mulher que encarava não era a mesma que ela deixara na noite anterior. Os traços eram os mesmos, mas nos olhos havia uma profundidade nova, uma escuridão conquistada a duras penas.

— O sono não vem — Olívia respondeu, sua voz rouca. — Quando fecho os olhos, ainda estou caindo. A água é tão fria... — Ela estremeceu, envolvendo os braços nela mesma.

Carla se aproximou, sentando-se na borda da cama com movimentos deliberadamente lentos, como se se aproximasse de um animal ferido.

— Depois do que você passou, é milagre que consiga manter os olhos abertos — ela murmurou, estudando o rosto pálido da amiga. — Como está se sentindo, Liv? De verdade?

Olívia deixou escapar um suspiro que parecia vir das profundezas de sua alma. Seus dedos traçaram padrões invisíveis no tecido do lençol.

— Sinto-me... vazia. Como se alguém tivesse retirado tudo de dentro de mim e deixado apenas o casulo. — Ela fez uma pausa, buscando as palavras certas. — Mas também me sinto leve. Pela primeira vez em muito, muito tempo.

Carla não conseguiu conter um riso amargo.

— Leve? — ela repetiu, a incredulidade tingindo sua voz. — Você foi sequestrada, marcada como gado, jogada de um penhasco... e agora se sente leve?

Os olhos de Olívia encontraram os de Carla, e neles havia uma clareza perturbadora.

— Sim — ela respondeu, sem hesitação. — Porque agora eu sei o que significa estar verdadeiramente presa. E sei o que significa ser livre. A diferença é mais nítida do que você imagina.

O silêncio que se seguiu era pesado, carregado de tudo que não estava sendo dito. Carla observou as mãos de Olívia, as mesmas mãos que seguravam Léo com tanta ternura, que haviam lutado contra as ondas, que agora repousavam inertes sobre o colo.

— E Ian? — Carla finalmente perguntou, o nome saindo como um desafio. — O que aconteceu entre vocês aqui, antes de ele sair?

Um sorriso trêmulo brincou nos lábios de Olívia, tão fugaz que Carla quase o perdeu.

— Ele me deu a chave da minha própria cela — ela sussurrou, seus olhos se perdendo novamente na janela. — Anulou o contrato. Dissolveu o casamento. Devolveu-me tudo; minha vida, minhas escolhas, meu futuro.

Carla sentiu uma pontada de irritação misturada com preocupação.

— E isso te deixou... o quê? Grata? Triste? — ela questionou, incapaz de disfarçar o ceticismo.

— Isso me deixou viva — Olívia respondeu, sua voz ganhando uma intensidade súbita. — E depois de tudo, isso já é mais do que eu esperava. Mais do que eu achava que merecia.

Carla balançou a cabeça, cruzando os braços sobre o peito em um gesto defensivo.

— Você se apaixonou por ele, não foi? — não era uma pergunta, mas uma constatação dolorosa. — Depois de tudo que ele fez, de tudo que sua família representa...

Olívia não respondeu, mas o silêncio era mais eloquente que qualquer confissão. Seus olhos contavam uma história que suas palavras se recusavam a vocalizar.

— Ele é perigoso, Liv — Carla insistiu, sua voz carregada de uma urgência quase desesperada. — Homens como Ian Moretti não soltam o que é deles. Eles apenas rearranjam as correntes, tornam-nas mais confortáveis, até que você esqueça que está usando algemas.

— Conhecer? — sua risada era um som áspero e sem humor. — Eu sei exatamente do que esse homem é capaz. E se ele der mais um passo na minha direção...

— Carla, por favor — o médico estendeu a mão em um gesto supostamente pacificador, mas seus olhos continham uma centelha que ela reconhecia muito bem. — Deixe-me explicar...

— Explicar? — ela o interrompeu, sua voz subindo para um tom que fez Léo se encolher contra Olívia. — Você quer explicar o que? Como destruiu minha vida uma vez e agora apareceu do nada para terminar o trabalho?

O ar no quarto pareceu ficar pesado, carregado com a eletricidade do confronto. Helena tentou se interpor, colocando-se entre eles.

— Carla, talvez seja melhor... — ela começou, mas Carla já estava se movendo em direção à porta.

— Mantenha-se longe de mim! — Carla gritou, suas palavras ecoando no quarto silencioso antes que ela desaparecesse pelo corredor, o som de seus saltos ecoando como tiros na quietude do hospital.

O médico hesitou por um momento, seu olhar encontrando o de Olívia brevemente antes que ele se virasse e seguisse Carla, chamando seu nome em um tom que era supostamente calmante, mas que soava como uma ameaça no ouvido treinado de Olívia.

Quando a porta se fechou, o silêncio que se instalou era diferente, pesado, carregado, perigoso. Olívia puxou Léo mais perto, seus olhos encontrando os de Helena sobre a cabeça do menino.

— Quem era aquele homem? — Olívia perguntou, sua voz um sussurro carregado de apreensão.

Helena mordeu o lábio inferior, sua expressão sombria.

— Pelo que minha intuição me diz — ela respondeu, sua voz igualmente baixa — alguém que Carla passou os últimos anos tentando enterrar no passado.

Lá fora, no corredor frio e estéril, os passos apressados de Carla e os mais medidos do médico ecoavam, um dueto caótico de duas histórias antigas prestes a colidir e arrastar todos em seu caminho para baixo com elas.

Histórico de leitura

No history.

Comentários

Os comentários dos leitores sobre o romance: Nosso Filho, Meu Segredo: O Contrato Proibido