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Nosso Filho, Meu Segredo: O Contrato Proibido romance Capítulo 184

O dia amanheceu com o céu de chumbo. Nenhum raio de sol ousava romper as nuvens espessas que cobriam a cidade.

Era como se o próprio mundo tivesse vestido luto.

Ian se olhou no espelho: o terno preto ajustado com perfeição, o colarinho da camisa branca imaculado. O rosto, pálido. Os olhos, fundos, vermelhos, mas secos.

Havia aprendido, desde pequeno, que homens da família Moretti não choravam em público.

Hoje, porém, até ele duvidava se conseguiria sustentar essa regra.

Do lado de fora da mansão, flashes de câmeras e vozes frenéticas da imprensa esperavam qualquer movimento.

“Moretti morre e deixa império em disputa.”

“Segredos e herdeiros: o último mistério de Nicolau Moretti.”

As manchetes ecoavam em todas as telas, os repórteres se empurravam para captar qualquer reação, qualquer detalhe.

Matheus tentou abrir caminho entre os jornalistas, mas Ian o deteve com um gesto.

— Deixa. Eles vão ter o que quiserem, como sempre — murmurou. — Só não vão ter o que mais importa.

Quando Olívia apareceu no topo da escadaria, o mundo pareceu parar por um instante.

Seu vestido preto caía com elegância discreta, o véu leve sobre os cabelos, e os olhos marejados mostravam não apenas luto, mas um carinho silencioso.

Ian a observou por alguns segundos, sem dizer nada, apenas oferecendo o braço.

— Pronta? — ele perguntou, a voz baixa.

— Tentarei estar — ela respondeu, aceitando o toque.

O caminho até o cemitério foi feito em silêncio. Apenas o som do motor, do vento e, por vezes, o suspiro contido de Olívia.

Quando chegaram, a multidão já se amontoava entre flores e guarda-chuvas pretos.

O velório de Nicolau Moretti era um espetáculo digno de um homem que viveu para o poder.

Coronéis, juízes, empresários, políticos, até alguns rostos da mídia; todos ali, cada um representando uma parte da influência que o patriarca deixou espalhada pelo país.

O caixão repousava ao centro, rodeado por coroas imponentes.

O brasão dourado dos Moretti brilhava sobre a madeira escura.

Ian permaneceu de pé a maior parte do tempo, ao lado de Olívia.

Famíliares distantes se aproximavam, com palavras vazias e apertos de mão que não significavam nada.

Alguns, mais atrevidos, cochichavam sobre o testamento, o império e o futuro do nome Moretti.

Olívia via tudo.

Via o cansaço nos ombros de Ian, a maneira como ele respondia educadamente, mas sem ouvir nada.

Ela o tocou de leve, um gesto silencioso de força.

— Ele estaria orgulhoso de você — sussurrou.

Ele assentiu, mas o olhar permaneceu fixo no caixão.

— Eu só espero que, onde quer que esteja, ele finalmente esteja em paz...

Mas a paz durou pouco.

O burburinho começou aos poucos, um murmúrio que atravessou a multidão.

Jornalistas se agitaram, câmeras se voltaram para a entrada.

E então, entre o preto e o cinza das roupas de luto, surgiu uma figura inconfundível.

Alexander.

Vestido também de preto, o terno impecável, o olhar frio, o sorriso quase respeitoso — quase.

O silêncio foi imediato.

Os repórteres quase se atropelaram tentando registrar o momento.

— Ele não... — Ian começou, a voz endurecendo. — Ele não vai fazer isso.

Mas Alexander fez.

Avançou pelo corredor central como quem atravessa um palco.

Os olhos fixos em Ian, sem pressa, sem medo.

— Não aqui — Olívia sussurrou, segurando o braço de Ian. — Por favor, não hoje.

— Ele não tem o direito... — Ian rosnou entre os dentes, mas parou quando ela apertou sua mão.

— Você devia ir embora.

— E perder o melhor momento? — Alexander deu um passo à frente, os sapatos afundando levemente na terra molhada. — Eu só queria compartilhar uma curiosidade.

— Não quero ouvir suas provocações — Ian retrucou. — E se for inteligente, vai sair daqui antes que eu esqueça que estamos em um cemitério.

Mas Alexander ignorou o aviso.

— Estive pensando sobre aquele testamento... sobre o que Nicolau planejou. E sabe o que descobri? O outro pergaminho, aquele que você achou que valia alguma coisa... era uma cópia inútil.

Olívia empalideceu.

— Ian, vamos embora — sussurrou. — Por favor.

— Fala logo, Alexander — Ian avançou um passo, firme. — O que você sabe?

Alexander inclinou a cabeça, o sorriso desaparecendo.

— O que eu sei, irmão, é o que estava escrito no original. O nome do verdadeiro herdeiro.

— E quem seria esse herdeiro? — Ian cuspiu, a raiva contida em cada palavra.

Alexander segurou o olhar dele, e o silêncio que se formou pareceu durar uma eternidade.

Então, com uma calma glacial, ele disse:

— Leonardo Belmonte.

O coração de Olívia parou.

O vento pareceu cessar.

Ian piscou, como se não tivesse ouvido direito.

— O quê?

Alexander sorriu, satisfeito com o efeito.

— O nome do herdeiro, Ian. Aquele que carrega o sangue do seu sangue.

Os olhos de Ian se arregalaram. Ele olhou para Olívia — e viu o pavor absoluto estampado no rosto dela.

E naquele instante, o mundo desabou em silêncio.

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