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Nosso Filho, Meu Segredo: O Contrato Proibido romance Capítulo 183

O silêncio após a última frase de Vitório parecia vivo, pulsante, quase tangível.

O som distante da chuva batendo nas janelas se misturava ao zumbido do ar-condicionado, o único ruído entre os três homens que tentavam processar o que haviam acabado de ouvir.

Ian piscou lentamente, como se o próprio cérebro se recusasse a decifrar as palavras.

Então ele se inclinou para frente, a voz rouca e cortante:

— Você sabe que eu não tenho filhos, Vitório.

O advogado não desviou o olhar.

Seu rosto estava sereno, mas havia algo por trás; uma hesitação quase imperceptível, como se equilibrasse um segredo sobre a ponta da língua.

— Estou apenas lendo o que Nicolau escreveu — respondeu, em tom neutro. — Ele foi muito claro sobre isso.

Ian riu; um som sem humor, amargo.

— Claro. Nicolau sempre foi claro. O problema é que ele falava em enigmas, como se a vida fosse um tabuleiro e nós, suas peças.

Ele se levantou abruptamente, circulando a sala como uma fera presa em jaula.

— O que isso significa, então? Que ele deixou a herança para uma criança que ainda vai nascer? Ou talvez para alguém que nunca virá ao mundo? — ele girou o corpo e encarou Vitório. — Me diga, devo esperar o resto da vida para ter acesso ao que é meu por direito?

Vitório limpou a garganta, desconfortável.

— Eu só posso lhe dizer o que o testamento traz, Ian. As palavras exatas do seu avô foram:

“Meu legado pertence àquele que carrega o sangue do meu primeiro neto, e que herdará não apenas o nome Moretti, mas o coração que faltou a todos nós.”

Ian riu de novo, dessa vez com raiva.

— Poético. Um epitáfio digno de Nicolau.

Mas enquanto falava, algo no olhar de Vitório o fez parar.

Havia um brilho ali. Um saber contido.

Ian estreitou os olhos.

— Você sabe de algo, não sabe?

Vitório hesitou, os dedos entrelaçados tremendo ligeiramente.

— Ian... eu só estou cumprindo o que me foi pedido.

— Maldição! — Ian bateu com a mão na mesa, o som reverberando pelas paredes. — Até morto, ele ainda me manipula!

Benjamin, até então em silêncio, deu um passo à frente.

— Não é justo! — explodiu, a voz carregada de indignação. — Durante a minha vida inteira, fui renegado por essa família, tentei fazer tudo que aquele velho exigiu! E agora vem me dizer que nada é meu? Que toda a herança vai para um bebê que nem existe?

Ian virou-se para ele, exasperado.

— Acredite, Benjamin, eu também estou tentando entender isso.

— É fácil pra você falar! — o sobrinho avançou um passo, os olhos faiscando. — Você sempre teve o favoritismo dele! Sempre foi o “grande Moretti”, o neto perfeito! Agora vai herdar tudo de novo, até o que nem existe!

— Está me chamando de quê? — Ian o encarou, os músculos da mandíbula se contraindo. — Um ladrão de fantasmas?

— Estou te chamando de cego! — Benjamin retrucou. — Ele te usou, Ian! Usou todos nós! E você ainda o defende!

— Chega! — Ian rugiu, o som saindo de dentro do peito. — Não vou discutir com você sobre quem ele amava mais. Ele está morto, Benjamin!

O silêncio caiu como uma lâmina.

Benjamin desviou o olhar, murmurando algo inaudível antes de sair, batendo a porta com força.

Ian ficou ali por alguns segundos, imóvel, respirando fundo.

O som da chuva aumentava, misturando-se ao pulsar frenético do seu próprio coração.

Mas antes que pudesse abrir a boca, ele desabou.

— Eu odeio aquele velho! — Ian gritou, os olhos marejados. — Odeio como ele me controlou até o último suspiro... como ainda dita minha vida, mesmo morto!

As lágrimas finalmente escaparam, silenciosas, teimosas.

Ele esfregou o rosto com as mãos, mas a voz falhou.

— Mas eu também... — ele respirou fundo, a dor quebrando cada palavra — já sinto falta dele.

Olívia deu um passo à frente, e então outro.

Não disse nada.

Apenas o abraçou.

Ian encostou o rosto em seu ombro, permitindo que o peso finalmente o esmagasse.

E ela chorou junto; não apenas por Nicolau, mas por tudo: pelo amor, pelo medo, pelo segredo que ainda ardia em sua garganta.

Enquanto ele a apertava contra si, ela fez uma promessa silenciosa.

Depois do velório, ela contaria tudo.

Sobre o passado.

Sobre Léo.

Sobre o que Nicolau realmente quis dizer com “herdeiro”.

Porque agora, mais do que nunca, Ian precisava da verdade.

Mesmo que ela o destruísse.

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