A chuva havia cessado, mas a terra do cemitério ainda exalava um vapor fantasmagórico, como se o solo guardasse o último suspiro de Nicolau. Ian permanecia imóvel no centro daquele silêncio fúnebre, os dedos contraídos em torno do pergaminho. A caligrafia do avô dançava diante de seus olhos, cada letra uma facada.
Léo Belmonte Moretti.
Filho de Ian Moretti.
Ele fechou os olhos, esperando que quando os abrisse o pesadelo tivesse passado. Mas a realidade permanecia, cruel e inegável, gravada no papel que ameaçava queimar sua pele.
— Isto é... uma farsa — sua voz saiu rouca, despedaçada. — Uma manipulação desesperada.
Quando levantou a cabeça, encontrou Alexander observando-o a poucos passos, com uma serenidade que só os verdadeiramente vingativos conseguem ostentar.
— Você — Ian cuspiu a palavra, avançando. — O que arquitetou? Quem pagou para forjar esta mentira?
— Eu? — Alexander riu baixo, um som seco e oco. — Apenas desempenhei meu papel de mensageiro. A verdade... bem, essa foi o presente de despedida do nosso amado patriarca.
— Mentira! — o grito de Ian ecoou entre os túmulos, carregado de uma dor visceral. — Nicolau nunca faria isso!
Os olhos de Alexander brilharam com perversa satisfação.
—Curioso. Pensei exatamente o mesmo quando descobri o que ele fez com minha mãe.
Ian sentiu o chão ceder sob seus pés.
—O que está insinuando? — sibilou, cada palavra um veneno.
— A verdade, Ian! Sempre a verdade! — Alexander deu um passo à frente, sua voz baixa mas cortante. — Você quer um vilão? Não sou eu. Nunca fui.
Seu dedo apontou para o peito de Ian como uma arma.
—O que eu odeio, irmão, não é você. É o que sua família fez com a minha. Mas com o tempo percebi... Você é tão vítima deles quanto eu. Aí está a prova.
A palavra "irmão" ecoou como um tiro. Ian sentiu algo se romper dentro de si.
— Não se atreva a me chamar assim! — ele avançou, agarrando Alexander pela gravata e esmagando-o contra um carvalho centenário. — Está brincando com fogo, Alexander! O que quer conseguir com isso? Destruir-me? Levar-me à loucura?
Alexander nem pestanejou. Seu olhar permaneceu gelado, transparente.
—Você realmente acha que preciso inventar mentiras? Está tudo ali — disse, com um movimento sutil da cabeça em direção ao pergaminho. — É a prova definitiva de que o império Moretti sempre foi construído sobre alicerces podres. O sangue deles corre em mim tanto quanto em você. E agora, aparentemente, também corre nas veias do menino que carrega seu nome sem que você soubesse.
O estômago de Ian revirou-se. Uma onda de náusea subiu por sua garganta, amarga e sufocante.
Não.
Era impossível.
Olívia.
A mulher que fizera seu coração,endurecido por anos de batalhas, voltar a bater com esperança.
A mulher que lhe fizera acreditar que podia existir pureza em meio à escuridão de seu mundo.
Ela o traíra?
Desde o início?
Como um furacão, as memórias começaram a se reorganizar em sua mente: o toque hesitante das mãos dela, as conversas interrompidas, a forma protetora como ela sempre mantinha Léo por perto, os olhares que ele interpretara como timidez, mas que talvez fossem culpa.
De repente,tudo fazia um sentido terrível.
Ele exigia respostas.
E ela iria fornecê-las.
Quando o carro parou diante da mansão, o motor ainda rugia quando ele saltou para a calçada. O vento noturno arrancava os últimos vestígios de racionalidade de sua mente.
Dentro dele, duas forças travavam uma batalha épica; o amor teimoso que ainda queimava em seu peito e a fúria devastadora que ameaçava consumir sua alma.
Ele sabia apenas uma coisa:
Olívia não escaparia.
Não desta vez.
Porque o homem que subia os degraus da escadaria não era mais o amante que a beijara na noite anterior.
Era um Moretti.
Ferido,traído, e pronto para exigir a verdade com a mesma frieza com que aprendera a aniquilar inimigos.
A porta da mansão abriu-se antes que ele a alcançasse. Olívia estava lá, pálida como a morte, seus olhos vermelhos e inchados testemunhando horas de choro.
— Ian — ela sussurrou, sua voz um frágil fio de esperança.
Ele ergueu o pergaminho amassado, seu rosto uma máscara de granito.
—Explique-se. Agora.
E em seus olhos, Olívia viu não apenas a fúria do homem traído, mas a escuridão do Moretti que despertara; e sabia que nada em suas vidas seria o mesmo novamente.

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