Seis anos atrás (conclusão)
A luz do amanhecer filtrou-se pelas frestas das persianas, pintando listras pálidas sobre os corpos entrelaçados. Ian despertou primeiro, a cabeça latejante da ressaca moral e física. Por um momento, ficou desorientado, até que a memória da noite anterior voltou em flashes sensoriais: o sabor da pele dela, o som de seus gemidos, a desesperança compartilhada que os unira.
Ele se apoiou no cotovelo, observando Olívia dormir. Na luz suave da manhã, ela parecia mais jovem, vulnerável. Seus cabelos castanhos espalhavam-se sobre o travesseiro como asas de corvo, e sua respiração era um ritmo suave e profundo. Seus olhos percorreram as curvas de seu corpo até pousarem numa pequena tatuagem de borboleta azul, delicada e inesperada, abaixo do ombro esquerdo. O inseto parecia prestes a levantar voo, eternamente preso àquela pele macia.
Algo apertou em seu peito; uma mistura de ternura e remorso. Ele queria gravar aquela imagem na memória: a mulher que, por algumas horas, fizera ele esquecer que perdeu o pai, que seu mundo desmoronava. Estendeu a mão, quase tocando seu ombro, mas recuou no último instante.
O despertador do celular vibrou silenciosamente no bolso do paletó, jogado no chão. Sete horas. Uma reunião com os advogados do pai às oito. O mundo real, com suas obrigações implacáveis, o chamava de volta.
Com movimentos cuidadosos, ele deslizou para fora da cama, vestindo-se em silêncio. As roupas amassadas cheiravam a sexo e uísque. Enquanto se vestia, escreveu num pedaço de papel do bloco de notas do hotel:
Olívia,
Preciso ir. Foi mais do que uma noite.
Ian
21 95555-0182.
Dobrou o papel ao meio, hesitou, e o colocou no travesseiro ao lado dela, pesando-o com um relógio. Por um instante, ficou parado na porta, olhando para trás. Ela havia se virado, agora de bruços, a mão estendida para o espaço vazio que ele deixara. A borboleta azul subia e descia suavemente com sua respiração. Um desejo quase irresistível de voltar para a cama, de adiar o inevitável, o assaltou. Mas o telefone vibrou novamente; seu assistente. Ele respirou fundo, abriu a porta e saiu, fechando-a com um clique suave.
Mal havia saído quando uma rajada de vento entrou pela janela que não estava completamente fechada, fazendo as cortinas dançarem. O papel voou do travesseiro, pairando no ar por um momento antes de deslizar para debaixo da cama, desaparecendo na penumbra.
Com movimentos bruscos, ela saiu da cama, evitando olhar para os lençóis amarrotados que testemunhavam sua entrega. Recolheu suas roupas do chão, vestindo-se rapidamente, como se as fibras pudessem queimar sua pele. Cada peça de roupa era um lembrete; o vestido que ele puxara, a calcinha rasgada que ele jogara para o lado.
No banheiro, ela encarou seu reflexo no espelho. Seus lábios estavam levemente inchados, seus cabelos uma bagunça, e havia um brilho selvagem em seus olhos que ela não reconhecia. Havia uma marca de amor roxa em seu pescoço. Ela cobriu-a com a mão, como se pudesse apagá-la.
Saiu do banheiro, deu uma última olhada no quarto. O relógio de Ian ainda brilhava no travesseiro. Um pagamento? Uma lembrança? Ela não queria saber. Deixou-o ali.
Ao sair do quarto, fechou a porta com um clique final, mais alto do que o dele. Desceu no elevador, o corpo dolorido, a alma mais dolorida ainda. A promessa que fez a si mesma ecoou em sua mente com a força de um juramento: Jamais. Jamais se deixaria ser tão vulnerável de novo. Jamais confiaria em um homem com seu corpo e seu coração daquela maneira. E jamais, jamais, voltaria a ver Ian Moretti.
O destino, no entanto, esboçou um sorriso irônico. Sob a cama do quarto 407, o bilhete com o número de Ian, sua última tentativa de conexão, jazia esquecido na poeira, aguardando um futuro que os trouxer exatamente até aquele momento:
ali e agora.

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