Seis anos atrás (continuação)
A chuva engrossara.
Cada gota parecia ecoar o que restava dentro de Olívia: um som oco, cansado, como se o mundo tivesse decidido chorar junto com ela.
Eles saíram do bar cambaleando entre risos nervosos e silêncios pesados. O neon refletia na poça d’água da calçada, tingindo o asfalto com um vermelho febril. Ian segurou o guarda-chuva de qualquer jeito, inclinando-o mais sobre ela do que sobre si.
— Você está tremendo — ele observou, a voz rouca pelo álcool e por algo que ainda não tinha nome.
— Faz frio — ela respondeu.
— É mais do que frio. — O olhar dele a percorreu, como se tentasse decifrá-la. — É vazio.
Olívia soltou uma risada curta, dolorida.
— E o que você sabe sobre isso?
— Tudo. — Ele parou de andar. — O enterro do meu pai foi hoje.
O mundo pareceu parar por um instante depois daquela revelação tão casual.
Olívia encarou aquele estranho, e nos olhos dele viu o mesmo abismo que a consumia. A perda. A decepção. O cansaço.
— E a mulher que devia estar comigo ali… — ele continuou, desviando o olhar — estava com outro. Bem na minha frente.
Ela engoliu em seco.
— Então você foi outro dia onde você também perdeu tudo.
— Acho que é isso que nos une.
— Isso é uma loucura — ela murmurou.
— Talvez — ele respondeu. — Mas é a primeira coisa que faz sentido em dias.
Sem saber quem deu o primeiro passo, começaram a andar até o ponto do táxi ao lado. A cidade ao redor parecia distante, dissolvida em néon e chuva.
O táxi parou diante de um hotel discreto no centro da cidade, suas luzes fracas refletindo-se nas poças da calçada. Ian pagou o motorista com notas que tirou sem contar do bolso, sua mão tremendo ligeiramente quando tocou nas de Olívia para ajudá-la a sair do carro.
Quando chegaram ao hotel barato, não houve palavras. Apenas olhares.
O saguão era silencioso, iluminado por lustres baços que projetavam sombras dançantes nas paredes de mármore. O ar cheirava a flores murchas e um leve mofo, um aroma que parecia combinar com a decadência que ambos sentiam por dentro.
— Quarto para casal. — Ian disse à recepcionista noturna, sua voz mais rouca do que pretendia.
Ele pagou o quarto em silêncio. Olívia manteve o olhar fixo no chão, sentindo o rubor subir por seu pescoço. Quando ele colocou a mão na sua cintura para guiá-la até o elevador, um calafrio percorreu sua espinha. A porta de metal fechou-se com um som suave, isolando-os do mundo.
Ela o seguiu.
O corredor parecia infinito, iluminado por luzes mornas. O corredor do quarto andar era interminável, o carpete vermelho escuro engolindo seus passos. Quando a chave eletrônica emitiu um bipe verde e a porta se abriu, Olívia sentiu seu estômago embrulhar-se de antecipação e medo.
Quando a porta se fechou atrás deles, o mundo deixou de existir.
O quarto era exatamente como ela imaginara; impessoal, com uma cama king-size dominando o espaço. Mas quando a porta se fechou atrás deles com um clique final, a energia no ar mudou.
O que aconteceu ali não foi pressa, nem paixão: foi refúgio.
Ele a tocou como quem procura consolo. Ela o recebeu como quem tenta lembrar o que é sentir. Nenhum dos dois perguntou sobre o amanhã. Nenhum dos dois queria lembranças. Só o esquecimento, ainda que por algumas horas.
A chuva batia na janela do quarto como um coração descompassado.
Suas pernas tremeram quando ele as abriu, sua boca encontrando seu clitóris com uma precisão devastadora. Olívia gritou, seus dedos se enterrando em seus cabelos, puxando-os enquanto ondas de prazer a atingia. Ele não parou, mesmo quando ela começou a tremer, bebendo cada tremor como se fosse sua última refeição.
—Chega. — ela suplicou, puxando seu rosto para o dela. — Preciso de você dentro de mim.
Ele a penetrou num único movimento, fazendo com que ambos gritassem. O sexo que se seguiu foi uma batalha; de mordidas, de arranhões, de suor e gemidos abafados. Ele a virou de quatro, entrando nela por trás enquanto sua mão a puxava pelos cabelos.
— Diga meu nome. — ele ordenou, suas batidas ficando mais profundas.
— Ian. — ela gemeu, seus dedos brancos nas laterais da cama.
— De novo.
— Ian! — seu grito ecoou pelo quarto quando o orgasmo a atingiu.
Ele a segurou pelos quadris, seu próprio corpo tremendo enquanto encontrava a liberação. Quando ele desabou sobre suas costas, ambos estavam cobertos de suor e respiravam como se tivessem corrido por suas vidas.
Por um longo momento, o único som foi a respiração ofegante deles se acalmando. Então ele se moveu, deitando-se ao seu lado. Seus olhos se encontraram no escuro, e algo mudou; a fúria havia passado, deixando para trás uma vulnerabilidade crua.
Ele estendeu a mão, seu polegar acariciando suavemente seu lábio inchado.
— Você está bem?
Ela inclinou-se em seu toque, fechando os olhos.
— Estou viva.
Era a única verdade que importava naquele momento. Tudo o mais; os parceiros traidores, as vidas despedaçadas, as consequências, poderia esperar até amanhã. Por esta noite, eles haviam encontrado refúgio um no outro, e isso era o suficiente.
Quando o sono finalmente os levou, seus corpos ainda entrelaçados, a primeira luz do amanhecer começava a colorir o céu. Mas dentro daquele quarto de hotel, a noite ainda os protegia, mantendo o mundo real à distância por um pouco mais de tempo.

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