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Nosso Filho, Meu Segredo: O Contrato Proibido romance Capítulo 192

O ar no jardim da mansão Moretti tinha se tornado espesso, pesado como um véu úmido que se recusava a ser respirado. Cada partícula de chuva dançando nos raios de luz que atravessavam as nuvens pesadas parecia carregar o peso das palavras não ditas, dos segredos enterrados e das promessas quebradas. Olívia sentiu o mundo desacelerar à sua volta, como se o tempo mesmo hesitasse em testemunhar o que estava prestes a se desenrolar.

As palavras de Ian ecoaram na vastidão do jardim, cada sílaba uma lâmina afiada que encontrou seu alvo no centro de seu peito. Ela pôde sentir fisicamente a dor, uma pontada aguda que fez sua mão voar instintivamente para o esterno, como se pudesse conter o sangramento emocional.

— A herança... — As palavras saíram como um sussurro quebrado, tão suaves que quase se perderam no ar pesado. Seus olhos percorreram o rosto dele, procurando algum vestígio do homem que conhecera, do homem cujo toque a fizera se sentir em casa pela primeira vez em anos. — Você realmente acredita que eu... que tudo isso foi calculado por dinheiro?

A risada que escapou dos lábios de Ian era um som estranho e vazio, sem qualquer traço de alegria. Soou como o ruído que uma máquina faria ao tentar imitar o riso humano; mecânico e desprovido de alma.

— Não estou mais no negócio de acreditar, Olívia. — Suas mãos subiram para pentear os cabelos em um gesto de pura frustração, e ela notou como seus dedos tremiam levemente. — Estou apenas conectando os pontos que você mesma desenhou na minha vida. — Ele fez uma pausa, seus olhos queimando com uma intensidade que quase a fez recuar. — O contrato que você insistiu em revisar tantas vezes, a forma como você sempre se colocava entre meu avô e qualquer decisão importante... até a maneira como você protegia Léo de mim desde o início, como se eu fosse algum tipo de ameaça.

— Pare, por favor. — Ela implorou, sua voz um fio de som no jardim imenso. As lágrimas já formavam um véu aquoso sobre sua visão, tornando sua imagem borrada, como um reflexo em água turva.

— E Léo... — ele continuou, ignorando seu pedido, sua risada agora carregada de uma amargura tão profunda que parecia envenenar o ar ao seu redor. — Claro. O bisneto perdido que Nicolau nunca conheceu. A peça que faltava no quebra-cabeça da herança dos Moretti. — Ele balançou a cabeça lentamente, uma expressão de desgosto profundo em seu rosto. — Até meu avô teria admirado a precisão cirúrgica disso tudo. Ele sempre apreciou um bom jogo de xadrez. Ou talvez ele também formasse isso tudo.

- Você está sendo cruel de propósito. — ela disse, as lágrimas finalmente rompendo as barreiras que tentara manter. Ela podia senti-las escorrendo por seu rosto, quentes e salgadas, cada uma carregando um fragmento de sua dor. — Essa pessoa cínica e amarga não é o homem que eu conheci, que eu amei.

— E quem eu sou, então? — sua voz explodiu, fazendo com que os cristais do lustre tilintassem suavemente, como se até a própria mansão estremecesse com sua fúria. — O tolo que acreditou que finalmente encontrara alguém genuíno no meio de toda essa podridão? O homem que pensou ter encontrado amor onde só havia cálculo?

Ela deu um passo em sua direção, estendendo a mão em um gesto de apelo, mas ele recuou como se seu toque fosse veneno. O movimento foi tão abrupto que fez seu coração se contrair de dor.

— Eu nunca planejei nada disso, Ian! Naquela primeira noite, eu nem sabia seu sobrenome! Você era apenas um estranho em um bar, tão perdido e machucado quanto eu!

— Ah, mas você descobriu depois, não descobriu? — ele contra-atacou, seus olhos queimando com intensidade. — E mesmo assim continuou me encarando todas as manhãs, dormindo em minha cama, sussurrando meu nome no escuro, mentindo para mim a cada respiração. — Ele balançou a cabeça, uma expressão de desgosto profundo em seu rosto. — Você devia ter sido atriz. Teria ganhado todos os prêmios.

Olívia sentiu cada palavra como um golpe físico, mas foi a última que a fez quebrar completamente.

— Eu te amei — ela confessou, as palavras saindo entre lágrimas silenciosas que agora manchavam o vestido que usava. — E mesmo agora, com tudo isso... eu ainda te amo, Ian.

Ele congelou. Por um breve momento, ela viu algo familiar em seus olhos; o homem que a salvara do mar tempestuoso, que segurara sua mão no hospital quando Leo estava frágil, que a beijara como se fosse a única coisa que importasse no mundo. Mas o momento passou, substituído por uma frieza que a fez estremecer.

— Amor? — ele repetiu, a palavra saindo como um cuspe. — Se isso é amor, então eu prefiro o ódio. Pelo menos o ódio é honesto. Não se esconde atrás de carícias e palavras doces.

Quando ele se virou para sair, Olívia correu em sua direção, agarrando seu braço com uma força que surpreendeu a ambos. Seus dedos se fecharam em torno do tecido de sua camisa, sentindo os músculos tensos sob o pano.

Foi então que sentiu; braços fortes envolvendo-a, puxando-a para perto de um peito sólido. O toque era firme, mas não reconfortante; possessivo, mas não protetor. Por um momento, ela simplesmente cedeu ao consolo, sua face pressionada contra o tecido áspero de um paletó caro que não cheirava como o de Ian. O aroma era diferente; mais amadeirado, mais picante, mais calculado.

Então, lentamente, como se se movendo através de um sonho pesado, ela ergueu o rosto.

E o mundo parou.

Seus olhos encontraram os de Alexander, e o sorriso que ele lhe dirigiu era tudo menos amigável. Era a expressão de um homem que finalmente viu suas peças se alinharem perfeitamente no tabuleiro, de um jogador que sabe que o xeque-mate é inevitável.

— Eu te avisei, Olívia. — ele sussurrou, sua voz suave como seda envenenada, cada palavra cuidadosamente medida para causar o máximo impacto. — A verdade sempre vem à tona, não importa quanto tempo leve.

Seus dedos se fecharam em torno de seu braço com uma pressão que beirava a dor, um lembrete sutil de sua posição vulnerável.

— E agora... — Seus olhos escuros brilharam com uma luz triunfante. — ...ela é tudo que te resta. E eu sou a única pessoa que pode te ajudar a navegar por essas águas perigosas que você mesma agitou.

Os olhos de Olívia se arregalaram enquanto a realidade da situação se instalava como uma pedra gelada em seu estômago. Ela estava sozinha na mansão Moretti, com o homem que se tornou sua sombra, seu oponente silencioso. E pela primeira vez, ela entendeu verdadeiramente o que significava ser uma Moretti: você nunca sabia quem era seu aliado até que não restasse ninguém mais, e até mesmo os abraços podiam ser armadilhas disfarçadas de consolo.

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