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Nosso Filho, Meu Segredo: O Contrato Proibido romance Capítulo 193

O crepúsculo começava a se instalar sobre a propriedade dos Moretti, tingindo o céu de tons de púrpura e laranja que se refletiam nas janelas altas da mansão. Benjamin estava encostado na pesada moldura de carvalho da janela da biblioteca, seus dedos curvados em torno de um copo de uísque que já estava quase vazio. O cristal pesado sentia-se familiar em sua mão; tantas noites assim, observando o mundo de fora, mantendo as aparências.

Lá fora, sob a chuva fina que começara a cair, uma cena se desenrolava como um teatro da vida real. Dois vultos entrelaçados em um drama que ele não havia escrito, mas do qual era espectador cativo. Ian e Olívia. Como bonecos movidos por cordas de paixão e desespero, eles dançavam sua dança de destruição mútua no jardim encharcado.

Ele não conseguia ouvir as palavras; a espessa vidraça à prova de som da biblioteca isolava-o do mundo exterior, mas via a coreografia da dor. Os gestos amplos e violentos de Ian, seus braços se movendo como lâminas cortando o ar úmido. E Olívia, aquela mulher que um dia jurara amar, que compartilhara sua cama e seus sonhos, agora curvada como um salgueiro sob o temporal, seu corpo delgado tremendo não apenas do frio, mas do peso de segredos finalmente revelados.

Por um breve momento, um espasmo de prazer mórbido percorreu seu corpo. Ver Ian, o perfeito herdeiro Moretti, perdendo o controle como um homem comum. Ver Olívia, que o trocara por seu tio, sendo destruída pela mesma traição que um dia ela lhe infligira. Parte dele sussurrava que mereciam aquilo, cada grama de sofrimento.

Mas o sentimento logo se dissolveu, deixando para trás um vazio mais profundo que qualquer satisfação passageira. O uísque em seu copo já não tinha sabor, apenas o ardente familiar do álcool barato que preferia desde que tudo desmoronara.

Foi então que algo capturou sua atenção, não no jardim, mas no reflexo do vidro escuro. Uma sombra se movendo no andar superior, rápida e furtiva como um fantasma familiar. Um vulto feminino, arrastando uma mala escura que ele reconheceu imediatamente, a mesma que comprara para ela em Paris, numa época em que ainda acreditavam que o dinheiro poderia comprar felicidade.

Clara.

O copo quase escorregou de seus dedos repentinamente amortecidos.

— Não... — A palavra saiu como um suspiro, carregada de uma resignação que já habitava seu coração há muito tempo.

Ele deixou o copo sobre a lareira de mármore, o som do cristal contra a pedra ecoando na sala vazia. Suas pernas moveram-se quase por vontade própria, carregando-o para fora da biblioteca e subindo a escadaria principal. Cada degrau parecia mais pesado que o anterior, como se estivesse subindo em direção ao seu próprio patíbulo.

Quando alcançou o corredor superior, ela estava lá, exatamente como previra. Diante da porta do quarto que compartilhavam, vestida com um vestido preto que ele não reconhecia, provavelmente novo, comprado com seu dinheiro, para deixá-lo. Seu rosto estava pálido, os olhos vermelhos e inchados de choro recente, mas havia uma dureza em seu olhar que ele nunca vira antes. A dureza de quem já tomou uma decisão irrevogável.

— Clara. — Seu nome saiu mais suave do que pretendia, quase um apelo.

Ela se virou lentamente, e por um instante fugaz, ele viu a mulher que conhecera; a que ria com facilidade, que dançava na chuva, que costurava seus próprios vestidos quando era mais jovem e mais inocente. Mas o momento passou, e a máscara de determinação fria reassentou-se em seus traços.

— Estou indo embora, Benjamin.

— Indo embora? — Ele deu uma risada curta e sem humor. — Depois de tudo que causou? Depois de ajudar a despedaçar o que restava desta família, você simplesmente... vai embora?

— É exatamente isso. — A frieza em sua voz era como um golpe físico. — Não há mais nada aqui para mim.

Ele deu um passo à frente, sentindo a raiva começar a ferver em suas veias, morna e familiar. — E nosso filho?

Ela riu, um som curto, amargo, que não combinava com sua face delicada.

— Nosso filho? Você sabia o tempo todo que ele não era seu. Só nunca teve coragem de admitir, nem para si mesmo.

Benjamin sentiu as pernas fraquejarem, mas manteve-se firme.

— Não diga isso, Clara.

— Digo, sim. — Seus olhos não se desviavam dos dele, desafiadores. — Sabe qual é a parte mais triste? É que você sempre soube. Mas continuou fingindo, achando que se me comprasse com joias e carros, se me exibisse como seu troféu perfeito, eu magicamente aprenderia a amá-lo.

Ele cerrou os punhos, sentindo as unhas cavando suas palmas.

— E foi por isso? Por isso você me traiu? — Sua voz saiu mais ferida do que furiosa, para seu próprio desgosto. — Por vingança? Por prazer? Por que, Clara?

Ela ajustou a alça da mala em sua mão, um gesto desnecessário que parecia destinado a dar-lhe tempo para compor a resposta.

Mas a ameaça morreu em seus lábios quando a porta da frente se abriu violentamente no andar de baixo, batendo contra a parede com força suficiente para fazer tremer as fotografias enquadradas ao longo do corredor.

Olívia irrompeu na mansão, sua silhueta molhada e encolhida contra a luz do vestíbulo. As lágrimas misturavam-se à água da chuva em seu rosto pálido, e seus olhos estavam vazios, como se tivesse deixado sua alma lá fora, no jardim onde seu mundo desabara. Imediatamente atrás dela, Alexander surgiu como uma sombra, seu rosto uma máscara de calculismo tranquilo, seus olhos escuros varrendo a cena com a precisão de um predador.

O ar no corredor superior pareceu solidificar-se. Clara congelou, sua mala agora esquecida ao seu lado. Benjamin empalideceu, sentindo o chão ceder sob seus pés. Os quatro se encararam através do vão da escadaria.

— Olívia... — O nome saiu dos lábios de Benjamin como um suspiro de incredulidade.

Mas o olhar dela não se fixou em ninguém em particular, estava perdido em algum lugar entre o passado e o presente, como se visse todos os seus erros e consequências projetados no ar diante dela.

Alexander deu um passo à frente, sua voz baixa e controlada cortando o silêncio pesado.

— Parece que a família Moretti finalmente está completa. — Seus lábios se curvaram em um sorriso que não alcançou seus olhos.

Benjamin virou-se para ele, os punhos cerrados até os nós dos dedos ficarem brancos.

— Você não pertence a esta casa.

Alexander apenas manteve seu sorriso frio, seus olhos percorrendo cada rosto como se estivesse memorizando o momento.

— Isso é o que você pensa, Benjamin.

E o trovão que rasgou o céu naquele instante pareceu selar o destino de todos ali, cada um preso em sua própria ruína.

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