O quarto de hóspedes na casa de Carla estava mergulhado em penumbra. O abajur deixava um círculo tênue de luz sobre a cama onde Léo dormia, respirando de forma tranquila, alheio ao caos que devastava o mundo de sua mãe. Olívia estava sentada no chão, encostada na parede, as pernas recolhidas contra o peito. As lágrimas haviam parado, mas o rosto ainda estava manchado, e os olhos, vermelhos, denunciavam horas de choro contido.
Cada vez que olhava para o filho, o coração se partia mais um pouco. Ele dormia tão sereno, tão bonito, e ela só conseguia pensar que Ian, o homem que mais amou e mais a destruiu, agora sabia. Sabia de tudo.
E com isso, podia tirar tudo.
Carla apareceu à porta, silenciosa, trazendo uma xícara de chá. Parou, hesitando diante da cena: Olívia no chão, os dedos entrelaçados, o olhar perdido no menino. Colocou a xícara na mesinha e se aproximou devagar.
— Você precisa dormir um pouco.
— Não consigo — murmurou Olívia, sem erguer os olhos.
Carla se abaixou ao lado dela.
— Ele está machucado, Olívia. Está reagindo com raiva, mas não vai machucar o próprio filho.
Olívia deu um riso curto e amargo.
— Você acha que eu tenho medo de Ian machucar o Léo? — seus olhos finalmente a encararam, frios e brilhantes. — O que me apavora é ele tirar o Léo de mim. Ele tem dinheiro, poder... advogados. Eu sou só uma mãe que mentiu.
Carla tentou pegar sua mão.
— Você fez o que achou certo na época.
Olívia se soltou, balançando a cabeça.
— Eu devia ter contado quando o reencontrei. Por mais que doesse, por mais que me destruísse. Agora, ele me odeia. E vai usar cada pedaço desse ódio pra me punir.
O silêncio entre as duas foi quebrado apenas pela respiração suave do menino. Olívia se levantou e foi até a cama. Passou os dedos pelos cabelos do filho, afastando uma mecha da testa dele.
— Você é a única coisa boa que já fiz — sussurrou. — E eu juro, meu amor... ninguém vai te tirar de mim.
Ajoelhou-se ao lado da cama, pressionando os lábios contra a pequena mão dele.
— Ninguém. Nem o destino. Nem o seu pai.
Aquela promessa soou como um juramento antigo, ecoando dentro dela. Pela primeira vez, não havia mais espaço para fuga. O medo ainda estava lá, pulsando, mas algo novo nascia junto: uma força que vinha do fundo, o instinto primitivo de proteger o filho.
Ergueu-se, limpando as lágrimas com o dorso da mão.
— Eu vou enfrentá-lo.
Carla se levantou também, alarmada.
— O que você vai fazer?
— Dizer a verdade — respondeu Olívia, com a voz firme. — Toda ela. Não mais fugindo. Não mais me escondendo.
Naquela madrugada, enquanto Léo dormia e o vento balançava as cortinas, Olívia decidiu que no dia seguinte não haveria mais mentiras.
Só a verdade. Por mais dolorosa que fosse.
***
O apartamento antigo de Ian parecia menor do que ele lembrava. O ar estava pesado, abafado, cheirando a uísque e passado. Ele não vinha ali desde antes da morte do pai, mas precisava de um lugar onde pudesse pensar; longe dos olhares, longe da imprensa, longe das memórias do seu avô ao redor de toda aquela mansão. E principalmente, longe de Olívia.
Sentou-se à mesa, diante do retrato de Nicolau que havia ali. A moldura de prata refletia a luz fria que entrava pelas janelas. Ao lado, o testamento, dobrado, já amassado de tanto ser manuseado.
“Seu filho.”
Matheus apenas o observou. A frieza nos olhos do patrão era perigosa, mas havia algo mais ali, uma dor tão profunda que ameaçava despedaçá-lo.
Quando Matheus saiu para atender o telefone, Ian ficou sozinho. O apartamento, silencioso, parecia observá-lo.
Sobre a mesa, o testamento. Ao lado, o retrato do avô.
E então, como se o universo tivesse ouvido o nome dela, o celular vibrou. Era Matheus outra vez.
— Senhor... ela mandou dizer que amanhã o senhor pode ver o menino. Mas... — ele fez uma pausa — ...não será sozinho.
Ian ficou em silêncio por longos segundos.
Então respondeu, apenas:
— Diga a ela que não importa.
Desligou. E, ao fazer isso, olhou em direção à estante. Um velho carrinho de madeira, gasto, repousava ali. O brinquedo que Nicolau lhe dera quando era criança e o único que sobreviveu aos anos e às perdas.
Ele o pegou, girando as rodinhas entre os dedos. O som delas rangendo parecia o eco distante da própria infância.
— Seis anos... — murmurou. — Seis anos perdidos.
Guardou o carrinho no bolso do paletó.
No dia seguinte, ele iria conhecer o filho.
E, pela primeira vez em muito tempo, Ian Moretti não sabia se estava prestes a se vingar…
ou a se redimir.

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