O silêncio pairou entre eles como uma sentença, pesado e absoluto. Por um instante desorientador, Olívia questionou se seus ouvidos a traíam, se o sangue pulsando em suas têmporas havia inventado aquelas palavras. Até o vento noturno pareceu conter a respiração, deixando apenas o som fantasma de suas batidas cardíacas aceleradas.
— O quê? — Ela se virou lentamente, como se movendo através de um sonho pesado. — Matheus, repete o que você acabou de dizer.
Ele a encarou, as mãos cravadas nos bolsos do casaco, a postura rígida. Seu rosto mantinha a impassibilidade profissional de sempre, mas Olívia, que aprendera a ler as nuances mínimas de sua expressão, captou um brilho de desconforto nos olhos dele, uma sombra de culpa que ele rapidamente suprimiu.
— Você ouviu perfeitamente, Olívia — ele respondeu, a voz baixa, mas incrivelmente clara na quietude da noite. — Ian quer ver o Léo. Sozinho.
O mundo pareceu inclinar sob seus pés.
— Não — a palavra saiu como um reflexo, um instinto visceral de proteção. — Não desse jeito. Não como uma exigência.
Carla, que observava a cena da porta, deu um passo à frente, seu rosto marcado pela preocupação.
— Matheus, pelo amor de Deus, o que está acontecendo? Isto é uma ameaça?
— Estou apenas transmitindo um recado — ele reiterou, mantendo o tom neutro, porém firme. — Se o acesso for negado, os advogados serão acionados amanhã.
— Matheus, por favor — a voz de Olívia falhou, carregada de um apelo desesperado. — Léo é uma criança. Ele ainda se recupera de uma cirurgia, está assustado e confuso. Ele não é um trunfo numa disputa!
Matheus não cedeu, mas um lampejo de empatia cruzou seu olhar, o mais próximo de compaixão que seu treinamento permitia.
A mente de Olívia girava, tentando processar a frieza daquelas palavras. Advogados. Sozinho. Era assim que ele escolhia lidar com a revelação? Transformando seu próprio filho em um campo de batalha legal?
— Ele quer vê-lo... agora? — perguntou, a voz um fio de incredulidade.
— Ian não pretende machucá-lo — Matheus assegurou, ainda com a mesma cadência controlada. — Ele apenas busca o que é seu por direito.
— O que é dele? — A repetição saiu carregada de um escárnio amargo. — Você ouve a si mesmo? Léo não é uma posse, uma ação a ser reclamada! Ele é meu filho!
— Ele também é filho de Ian — contraiu Matheus, cruzando os braços. Seu rosto permanecia um mistério, mas o incômodo era palpável.
Olívia levou as mãos à cabeça, uma risada sem humor escapando de seus lábios.
— Ele descobre a verdade há poucas horas e já responde com ameaças? Ele não quer compreender, quer punir.
O silêncio de Matheus foi mais eloquente que qualquer admissão.
Carla se aproximou, colocando uma mão calmante no ombro da amiga.
— Olívia, talvez ele só queira... conversar. Entender a situação.
— Entender? — Ela riu, o som seco e trêmulo. — Quando Ian está ferido, Carla, ele não conversa. Ele demole. Ele vai querer respostas que eu talvez nem tenha.
Matheus respirou fundo, um suspiro quase imperceptível.
— E é por isso que o recado é um aviso, não um pedido. — Ele tirou um envelope do bolso interno do casaco e o estendeu. — A notificação formal. Se você recusar, o processo tem início na abertura do fórum amanhã.
Olívia encarou o envelope como se ele contivesse veneno.
— Então é assim... — sussurrou, a voz embargada. — Ele vai me arrastar aos tribunais pelo direito de ver um filho que ignorou por anos, porque a verdade é grande demais para caber no orgulho dele.
— Liv, acalma — tentou Carla, apertando seu braço.
Matheus a observou por um longo momento, seus olhos escaneando seu rosto como se procurasse uma fresta de hesitação. Parecia querer dizer algo, um argumento, um apelo, mas, no final, apenas assentiu.
— Eu o direi a resposta — disse, virando-se em direção ao carro.
— Matheus! — a voz de Olívia o alcançou, mais suave agora, quebrada. — Ele... está bem?
Ele parou, sem se virar, e hesitou antes de responder.
— Ele está respirando. — Uma pausa carregada. — Mas isso não é sinônimo de estar bem.
— Diga a ele... — ela engoliu seco, as palavras saindo num sussurro — que, por mais que me odeie agora, meu único crime foi tentar proteger nosso filho.
Matheus manteve o olhar fixo nela por um instante que pareceu durar uma eternidade. Então, sem uma palavra, entrou no carro e partiu.
O ruído do motor dissolveu-se na noite, deixando para trás um silêncio opressivo.
Carla se aproximou, seu rosto um retrato de preocupação.
— Liv... meu Deus. O que você vai fazer?
Olívia passou as mãos pelo rosto, sentindo o peso esmagador daquela realidade.
— O que sempre fiz, Carla — sussurrou, as lágrimas finalmente rompendo as barreiras e escorrendo livremente. — Lutar. Mesmo quando não sobram forças. — Ela se virou para as luzes da cidade, seu reflexo na vidraça mostrando uma mulha rachada, mas não quebrada. — Lutar sozinha.
A verdade, agora liberta, espalhava-se como fogo em campo seco. E, pela primeira vez, o medo que Olívia sentiu não foi por si mesma, mas pelo amor teimoso que ainda guardava por Ian e por tudo que esse amor, agora transformado em guerra, poderia lhe custar.

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