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Nosso Filho, Meu Segredo: O Contrato Proibido romance Capítulo 200

Sobre os vidros do alto prédio do hotel, a cidade se estendia como um tapete de luzes cintilantes, completamente alheia ao turbilhão emocional que consumia Ian.

Ele mantinha o vidro do carro bem fechado, mas criando uma fenda perfeita para observar sem ser visto. Como um espectro em seu próprio drama, ele assistia à cena que se desenrolava no saguão em frente.

Lá estavam eles. Olívia, com seu cabelo escuro preso de qualquer maneira, falava com Helena enquanto tentava manter um sorriso no rosto. Mas Ian conhecia aquele sorriso; era o mesmo que ela usava quando estava prestes a desmoronar, quando as paredes que erguia para proteger os outros começavam a rachar. Um sorriso trêmulo, cheio de fendas por onde a dor escapava.

E Léo. Seu filho. O menino balançava as pernas despreocupadamente na cadeira do saguão, seus olhos curiosos seguindo o movimento constante do hotel. Cada gesto, cada expressão, era uma revelação dolorosa e maravilhosa.

Foi quando Léo riu de algo que Helena disse que algo fundamental se deslocou dentro de Ian. O som daquela risada; tão pura, tão desimpedida, atravessou os vidros à prova de som, as janelas fechadas, as paredes que ele construíra em torno de seu próprio coração. E nos traços do menino, ele via ecos de si mesmo: a maneira particular como suas sobrancelhas se arqueavam quando estava interessado, o jeito como seu nariz franzia levemente em risadas mais contagiantes.

Meu filho.

As palavras, embora não pronunciadas, ecoaram em sua mente com a força de um trovão. Elas carregavam o peso de seis anos perdidos, de noites de febre não curadas, de primeiros passos não testemunhados, de palavras não ouvidas. Cada sílaba era uma acusação e uma benção ao mesmo tempo.

Ele odiava Olívia com uma intensidade que o assustava; por cada mentira, cada omissão, cada dia que ela roubara deles. Mas ao observar Léo, esse ódio se transformava em algo mais complexo, mais profundo; uma necessidade visceral de proteger, de se conectar, de recuperar cada momento que lhe fora negado.

Através do vidro, ele assistiu quando chegou o momento da despedida. Olívia ajoelhou-se, envolvendo Léo em um abraço que parecia querer congelar o tempo. Seus dedos tremiam visivelmente enquanto ela sussurrava algo em seu ouvido. Ian não precisava ouvir para saber; eram promessas, avisos, desculpas. Helena tomou a mão pequena do menino, guiando-o em direção à saída.

Ian abriu a porta do carro em silêncio, seu coração batendo em um ritmo que deixava seus ouvidos zumbirem.

***

O carro deslizava suavemente pela estrada costeira, o som do vento dançando com as risadas de Léo que preenchiam o interior do veículo. Ian dirigia sem destino específico, guiado apenas pelo desejo primordial de prolongar aquele momento, de armazenar cada segundo como um tesouro contra a escuridão que sabia que ainda o aguardava.

— Esse carro é muito rápido, tio Ian! — a voz animada de Léo ecoou do banco traseiro. — Meu carrinho vermelho também é rápido assim!

Ian sentiu um sorriso genuíno, o primeiro em dias, formar-se em seus lábios.

— Seu carrinho vermelho?

— Sim. Você quem me deu. — o menino respondeu, seus pés balançando animadamente. — E eu cuidei bem, porque a mamãe disse que era de alguém muito especial.

As mãos de Ian se apertaram involuntariamente no volante. O carrinho vermelho. Lembrou de ter dado a ela enquanto estavam enfrentando aquelas longas noites com Léo no hotel. Ele a entregou, porque o carrinho servia como a prova de que Léo voltaria a ficar bem e que brincaria e sorriria novamente.

— E... você gosta dele? — Ian perguntou, lutando para manter sua voz estável.

— Muito! — a risada de Léo era como música. — Ele é meu favorito! Às vezes eu finjo que ele é um carro de corrida e faço ele correr pela mesa toda!

O silêncio que se seguiu foi carregado de emoções não expressas. Ian observou o menino pelo retrovisor, seu rosto curioso, seus olhos brilhantes com a inocência que apenas as crianças possuem e, pela primeira vez, desejou com toda sua alma que o tempo pudesse ser rebobinado. Que ele pudesse refazer cada escolha, estar presente em cada momento que perdera.

O resto da tarde desenrolou-se em uma sucessão de momentos preciosos. Ian levou Léo para tomar sorvete naquela sorveteria que Olívia sempre mencionava, observando com um nó na garganta como o menino escolheu meticulosamente entre os sabores. Andaram de bicicleta no calçadão, as rodinhas de apoio batendo ritmicamente no concreto, as risadas de Léo se perdendo na brisa marinha.

— Acho que não é o momento ideal. — Helena respondeu, sua voz mantendo uma gentileza profissional. — Por que não vai para casa, descansa um pouco? Eu levo o Léo até você em breve.

Olívia desligou sem responder, as palavras "vá para casa" ecoando ironemente em sua mente. Para qual casa? A mansão dos Moretti não era mais seu lar, o apartamento que compartilhara com Benjamin estava vendido, a sua pequena casa parecia solitária demais, e a casa de Carla... bem, a casa de Carla era temporária, como tudo em sua vida parecia ser agora.

Com um suspiro pesado, ela decidiu retornar ao apartamento de Carla, onde suas malas semi-desfeitas testemunhavam a transitoriedade de sua existência atual. Seu coração estava um peso morto em seu peito, seus olhos ardiam da combinação de lágrimas e falta de sono.

A viagem de táxi foi um borrão de luzes de trânsito e pensamentos sombrios. Ela apoiou a testa contra o vidro frio da janela, tentando convencer-se de que tudo se resolveria, de que Ian não a machucaria dessa maneira, de que Léo estaria a salvo.

Mas o universo, aparentemente, tinha outros planos.

Quando ela girou a chave na fechadura e empurrou a porta do apartamento de Carla, o som que a atingiu fez seu estômago contrair violentamente. Gemidos. Baixos, intensos, inconfundíveis em sua intimidade.

Por um momento de pura negação, ela pensou que fosse sua imaginação; um subproduto de seu estado emocional deplorável. Mas ao dar dois passos hesitantes para dentro do apartamento, a realidade se impôs com a força brutal de um soco no estômago.

Lá estavam eles. Carla, sua melhor amiga, a pessoa em quem confiara nos momentos mais sombrios de sua vida. E Matheus, o homem leal de Ian, o guardião silencioso de todos os segredos dos Moretti.

De novo.

Estavam entrelaçados no sofá, completamente absortos um no outro, seus corpos se movendo em um ritmo que falava de familiaridade, de prática, de um segredo muito bem guardado.

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