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Nosso Filho, Meu Segredo: O Contrato Proibido romance Capítulo 213

Matheus observou o amigo de canto, seu corpo uma linha tensa de apreensão. Conhecia Ian há uma década. Vira-o enfrentar conglomerados e engolir concorrentes no café da manhã, mas aquele homem, aquele casco rachado de dor silenciosa, era uma figura nova e assustadora.

— Ian… — a voz de Matheus foi um fio de som, cuidadoso, tentando não romper o frágil equilíbrio.

— Não. — a resposta de Ian saiu áspera, um sussurro gasto. Ele esfregou o rosto com as duas mãos, como se pudesse apagar a fadiga e a névoa de desespero. — Por favor, não agora. Não suporto mais palavras.

Matheus respirou fundo, o peito apertado. Sabia que era um precipício, mas a lealdade falou mais alto.

— É sobre a Olívia.

O nome dela agiu como um choque. Ian ergueu a cabeça devagar, suas íris escuras, geralmente tão calculistas, agora faiscavam com uma luz perigosa e vulnerável.

— O quê? — a palavra saiu entre os dentes cerrados.

A hesitação de Matheus foi palpável. Ele olhou para as mãos, para a parede, para qualquer lugar que não o rosto devastado do amigo.

— A Carla me contou. Ela… Olívia recebeu uma foto. — Ele fez uma pausa, sentindo o peso da traição contra a confidência de Carla, mas seguindo em frente. — Uma foto de você. E da Carolina. Na… na cama.

O mundo parou. O ruído distante do tráfego lá fora, o tique-taque do relógio de parede, tudo se dissolveu em um zumbido surdo. Ian sentiu o chão ceder sob seus pés. Ele piscou, tentando processar. Uma foto. Na cama. Impossível.

— O… quê? — a voz de Ian não passou de um sopro rouco, a descrença dilacerando a raiva. — Isso é um delírio. Uma mentira.

— Eu pensei o mesmo, — Matheus disse, avançando um passo, as mãos abertas em um gesto de placagem. — Mas ela viu, Ian. A foto era… nítida. E tinha uma legenda. Algo provocativo. Ela disse que parecia horrivelmente real.

Fragmentos da noite anterior invadiram a mente de Ian como cacos de vidro: a porta do apartamento de Carolina, sua raiva contida, a garrafa de vinho tinto sobre a mesa de centro, seu gosto amargo e enjoativo, e então… o vazio. Um buraco negro em sua memória onde horas deveriam estar.

— Eu fui até lá, — Ian admitiu, a voz agora quebrada, como se confessasse um crime. — Fui cobrar uma dívida antiga, um assunto que precisava ficar no passado. Havia vinho… eu bebi. E depois… escuridão. Um apagão total.

O rosto de Matheus se contraiu em uma máscara de preocupação.

— Ian, isso… isso não soa bem. Soa como uma armadilha.

A fúria, então, explodiu. Não a fúria controlada do executivo, mas a fúria cega e assustada do animal acuado. Com um golpe seco, Ian bateu a mão contra a pesada mesa de madeira, fazendo os objetos tremerem.

— É porque FOI uma armadilha! — seu grito ecoou na sala silenciosa. Os ombros subiam e desciam em ritmo acelerado. — E eu caí como um idoso ingênuo!

Ele se virou, andando até a janela. A cidade pulsava lá embaixo, indiferente à sua agonia.

— Eu tenho que ir lá. Agora.

— A reunião com os investidores da Moretti… — Matheus tentou, sabendo que era inútil. — É em vinte minutos. É crucial.

Ian soltou uma risada seca, um som sem qualquer vestígio de humor.

— Perfeito. Porque administrar um império e descobrir que talvez tenham te drogado e arruinado a única coisa boa na sua vida são tarefas perfeitamente compatíveis.

A reunião foi um exercício de tortura moderna. Ian sentou-se à cabeceira da mesa, seu corpo presente, sua alma ausente. As vozes dos investidores ecoavam como ruídos distantes, palavras como "lucro líquido" e "projeção de mercado" batendo em seus ouvidos e se esvaindo. Tudo o que ele conseguia ver era o rosto de Olívia, a dor crua em seus olhos, e a imagem fantasma de uma foto que ele nem sequer lembrava de ter sido tirada.

Mal o relógio marcou o tempo mínimo, ele levantou-se sem uma palavra, deixando para trás um silêncio consternado.

Dentro do carro, a quietude era opressiva. O motorista, perceptível, manteve-se em silêncio.

— Para o apartamento da Carolina, — Ian ordenou, sua voz um tom mais baixo, carregada de uma fadiga que ia até os ossos.

Quando o carro finalmente parou diante do prédio elegante, Ian quase voou do veículo. O porteiro, com um aceno reconhecedor e um pouco alarmado com a expressão de Ian, o deixou passar.

Ele não bateu. Golpeou a porta com os nós dos dedos, a madeira tremendo sob a força.

Ele acreditou nela. Naquela versão triste e desesperada. E isso, de alguma forma, era pior. Não havia um vilão grandioso, apenas uma tragédia banal e estúpida, arquitetada pela miséria emocional dela.

— Então me deixe ver se entendi, — ele disse, sua voz um sussurro rouco. — Você me drogou por acidente, deitou meu corpo inconsciente em uma cama, tirou uma foto… e depois usou essa mentira para destruir a única coisa verdadeira que me restava.

Ela tentou se aproximar, uma mão trêmula estendida.

— Ian, por favor… eu só queria que você me visse. Que você olhasse para mim da maneira como costumava fazer.

Ele se afastou do seu toque como se fosse fogo. Seu olhar, quando encontrou o dela, estava vazio de qualquer calor.

— Eu vejo você agora, Carolina. E tudo o que consigo enxergar é o vazio que você ajudou a criar.

Ele se virou e saiu, deixando-a sozinha na entrada, envolta no silêncio e dos sonhos despedaçados.

Dentro do carro, a quietude era absoluta. O motorista nem mesmo ousou perguntar. Ian encostou a cabeça no vidro frio da janela, fechando os olhos. O peso da verdade não era um alívio; era uma lápide. Ele não era um herói traído, era um tolo que havia andado de olhos abertos para a própria ruína.

Em seu apartamento, a escuridão era acolhedora. Ele jogou o paletó sobre um sofá, o tecido caro agora lhe parecendo um disfarce. Seus pés o levaram até o bar. E lá, brilhando sob a luz fraca, estava uma garrafa de um vinho tinto. Seu reflexo estava distorcido no vidro escuro; um homem com o rosto marcado pela fadiga e os olhos de um estranho.

Ele pegou a garrafa. Sentiu o peso gelado do vidro em sua mão. Por um momento insano, pensou em despejar aquele veneno memórico goela abaixo. Em vez disso, seus dedos se abriram.

A garrafa caiu no chão em câmera lenta, estilhaçando-se com um estrondo visceral que ecoou pelo apartamento vazio. Pedaços de vidro e um líquido rubro escuro se espalharam como uma ferida aberta no chão de madeira clara.

Ian olhou para a destruição, sua respiração ofegante. E então, no silêncio que se seguiu ao estrondo, uma verdade mais profunda e dolorosa do que qualquer outra emergiu, e ele a sussurrou para o vazio que o cercava, suas palavras um epitáfio para seu amor:

— Ela me odiou por um fantasma… por uma sombra que nunca existiu. E eu a perdi… não por um ato que cometi, mas pelo vazio de um que nunca aconteceu.

A única resposta foi o cheiro agridoce do vinho evaporando, preenchendo a casa com o perfume de um funeral.

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