O ar pareceu cristalizar-se entre eles quando as palavras de Ian ecoaram na sala, carregadas de uma intimidade crua que perfurou todas as defesas que Olívia cuidadosamente construíra. Um soluço mudo escapou de seus lábios, meio choque, meio reconhecimento doloroso de uma verdade que ela mesma se recusava a admitir. Olívia recuou um passo instintivamente, não movida pelo medo, mas por uma tempestade interior de confusão emocional, pela dor aguda das memórias que suas palavras desencadearam, pela vertigem de reconhecer que parte dela ainda respondia ao chamado que sua voz representava.
— Você não me conhece mais — ela sussurrou, as palavras saindo como um sopro frágil, uma tentativa desesperada de erguer uma barreira onde já não existiam mais muros.
— Eu nunca deixei de conhecer cada pedaço de você — ele respondeu, fechando a distância entre eles com mais um passo determinado. — Conheço o modo como você franze a testa quando está tentando parecer brava, mas está apenas assustada. Conheço a maneira como seus olhos escurecem quando está prestes a chorar, mas se recusa a deixar as lágrimas caírem.
Mas o olhar que ela agora lhe dirigia era fundamentalmente diferente; endurecido pela dor, decidido pela sobrevivência, o olhar de uma mulher que já havia perdido tanto que aprendera a temer mais a esperança do que o desespero.
— Pois deveria começar a desaprender. — Sua voz soou estranhamente calma, contrastando com o turbilhão em seus olhos. — Porque a mulher que você um dia conheceu morreu no dia em que você escolheu duvidar dela em vez de amá-la.
— Duvidar? — a pergunta saiu em um tom grave, controlado com esforço visível para esconder a dor que a acusação carregava. — Eu não tinha razões mais do que suficientes para isso, Olívia?
Ela se virou lentamente, como se movendo através de um sonho pesado, seus olhos faiscando com uma mistura de fúria e mágoa acumulada.
—Razões? — repetiu, a palavra saindo trêmula, carregada de indignações. — As únicas razões que você tinha eram as que inventou para justificar sua própria covardia emocional!
Ele avançou mais um passo, seu corpo agora a apenas centímetros do dela.
—Covardia? Você me enganou conscientemente durante seis anos! Seis anos da vida do meu filho!
— E você acha que isso foi fácil pra mim? — ela retrucou, as lágrimas que teimava em conter finalmente rompendo as barreiras e escorrendo silenciosamente por seu rosto. — Você acha que eu acordei um dia e decidi casualmente esconder a existência do nosso filho? Que foi uma escolha fácil?
— Você tomou essa decisão sozinha! — ele gritou, o eco de sua própria voz no escritório silencioso parecendo assustá-lo tanto quanto a ela. — Me tirou tudo, Olívia. O direito de saber, de estar presente, de ver ele nascer, dar o primeiro passo, falar a primeira palavra…
Ela o interrompeu com um tom mais baixo, mas infinitamente mais cortante.
—E você teria ficado?
Ian piscou, claramente surpreso pela pergunta e sua simplicidade devastadora.
—O quê?
— Se soubesse. Se soubesse sobre Léo desde o início. Você teria ficado? — a voz dela vacilou ligeiramente, mas seus olhos permaneceram fixos nos dele, desafiadores. — Ou teria me deixado como deixou todas as outras mulheres que passaram pela sua vida? Como deixou até mesmo sua própria mãe?
O golpe atingiu com uma precisão cruel. Ian ficou paralisado por um instante que pareceu se estender além do tempo, seu rosto uma máscara de choque e dor não processada. Quando finalmente recuperou a voz, ela era uma mistura visceral de fúria e ferida aberta.
—Você não sabe nada sobre a minha mãe!
— Eu sei o suficiente para reconhecer os padrões de um homem que foge quando as coisas ficam difíceis demais — ela respondeu, sua firmeza inabalável. — Você fugiu de mim, Ian. E agora quer me culpar por todas as consequências dessa fuga.
Ele fechou a distância final entre eles, e o espaço que os separava pareceu encolher até quase desaparecer.
—Eu não fugi. Eu apenas finalmente descobri quem você realmente era.
— Jura? — ela riu, um som amargo e sem humor que ecoou no escritório. — E quem eu sou para você agora? A mulher que mentiu? Ou a mulher que você ainda deseja, mas tem muito medo de admitir?
Ian ficou em silêncio, sua respiração pesada. O olhar dele oscilou entre raiva pura e algo mais profundo, mais vulnerável, algo que ele claramente não queria reconhecer ou admitir.
Mas foi Olívia quem finalmente rompeu a tensão insustentável com palavras que cortariam mais profundamente que qualquer acusação.
—Você quer saber a verdade, Ian? A verdade que machuca mais do que qualquer mentira? Eu nunca te traí.
Ele piscou, genuinamente confuso pela declaração repentina.
—O que você está dizendo?
— Eu não caí na cama de nenhum outro homem — ela disse, sua voz embargada pela emoção contida. — Certamente não apenas dois dias depois de você me dizer que ainda me amava.
— Do que você está falando? — Ian perguntou, sua expressão de completa perplexidade deixando claro que ele estava genuinamente perdido.
Ela o encarou, sentindo seu coração bater com tanta força que quase a sufocava.
—Você precisa parar com isso, Ian.
— Parar com o quê, exatamente? — Ian perguntou, um sarcasmo vazio colorindo suas palavras.
— De lutar contra ela — respondeu Matheus, sua voz surpreendentemente suave. — E de lutar contra o que ainda sente por ela. Você está se destruindo no processo, e levando todo mundo junto.
Ian deu uma risada curta e amarga que não alcançou seus olhos.
—Já estou destruído, Matheus. Ela só... confirmou o que eu já suspeitava.
O silêncio que se instalou entre eles foi pesado e significativo. Matheus respirou fundo, como se se preparando para dizer algo que sabia que não seria bem recebido.
—Então faça a única coisa que resta a ser feita. Faça o que é certo, não o que é fácil.
Ian o olhou, seu cansaço evidente em cada linha de seu rosto.
—O que é "certo" pra você, Matheus?
— Encarar o que realmente aconteceu, não o que você acha que aconteceu — respondeu Matheus, sua voz firme. — E decidir, de uma vez por todas, se você quer ser o pai do Léo… ou apenas o homem que herdou o sobrenome e as responsabilidades.
Ian ficou imóvel, absorvendo o peso daquelas palavras. Por um instante fugaz, seu olhar vagou para a janela, onde seu reflexo na vidraça mostrava não o poderoso empresário, mas o homem por trás da fachada; quebrado, profundamente confuso e, inegavelmente, ainda apaixonado.
Mas a voz suave de Matheus o trouxe de volta à realidade:
—Você vai deixá-la ir embora assim? De verdade desta vez?
Ian não respondeu imediatamente. Seus olhos permaneceram fixos no vazio por um longo momento antes que ele finalmente sussurrasse, mais para si mesmo do que para o amigo:
— Eu já deixei uma vez. E olha onde isso nos trouxe.

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