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Nosso Filho, Meu Segredo: O Contrato Proibido romance Capítulo 217

O nome IAN brilhava na tela do celular de Olivia como uma assombração digital que exigia atenção. Ela pensou em ignorar, em deixar o toque se esvair na indiferença, mas um conhecimento profundo e cansado a dominou. Ele não desistiria. O fantasma dele nunca a deixaria em paz.

Com um suspiro que parecia carregar o peso de todos os seus desencontros, ela deslizou o dedo sobre a tela, selando seu destino.

— O que você quer, Ian? — Sua voz saiu áspera, desgastada pelas lágrimas não choradas e pelas palavras não ditas. Cada sílaba pareceu rasgar-se em sua garganta.

Do outro lado da linha, um vácuo. Então, a voz dele emergiu, mais baixa e vulnerável do que ela jamais lembrava ter ouvido:

—Só… conversar. — Uma pausa carregada. — Sem brigas, sem gritos. Por favor.

Ela fechou os olhos, a imagem do parque que Léo tanto amava surgindo em sua mente. Parte de seu ser, a parte ferida e orgulhosa, bradou para ela desligar. Mas a outra parte — a que ainda guardava o eco do toque dele, a que se comovia com o olhar de seu filho, tão parecido com o do pai — sabia que a fuga havia terminado.

— Onde? — A pergunta saiu como um sussurro de rendição.

— O parque. O mesmo que Léo gosta.

E então, seguiram.

O vento da tarde sussurrava segredos através das folhas secas, carregando o som distante de risos infantis que pareciam pertencer a outro universo, um universo de inocência que ela e Ian haviam perdido para sempre. Ele estava sentado em um banco de madeira gasto pelo tempo, as costas ligeiramente curvadas, as mãos entrelaçadas e penduradas entre os joelhos. Seu olhar estava fixo em algum ponto distante e inalcançável, como se buscasse respostas no vazio.

Por um longo momento, antes que sua presença fosse percebida, Olívia permitiu-se observá-lo. O homem à sua frente era uma versão desbotada e cansada do titã imponente que ela conhecera. Os ombros, outrora largos e confiantes, agora pareciam carregar o fardo de um mundo desmoronado. Havia uma vulnerabilidade crua em sua postura que a comoveu contra a própria vontade.

Quando seus olhos se encontraram com os dela, ele se levantou com uma lentidão deliberada, sem a arrogância habitual que costumava envolvê-lo como uma armadura.

— Obrigado por vir — ele disse, e a sinceridade naquela frase simples a atingiu com mais força do que qualquer grito.

Olívia cruzou os braços, um gesto automático para se proteger da tempestade de emoções que ameaçava explodir em seu peito.

—Você disse que queria conversar. Então fale.

Ian respirou fundo, o ar saindo de seus pulmões em um sopro cansado.

—Eu… cometi erros. Tantos erros que nem sei mais por onde começar a pedir perdão. — Seus olhos buscaram os dela, implorando por compreensão. — Mas preciso que você entenda uma coisa: eu nunca quis que as coisas chegassem a esse ponto. Eu só… — Ele hesitou, lutando contra o própria orgulho. — Eu só não sabia mais em quem acreditar. Nem em você, nem em mim mesmo.

Ela o interrompeu, sua voz saindo firme, mas com um tremor sutil que traía a fachada de controle.

—Então ouve agora, Ian. Ouve com atenção, porque esta será a primeira e a última vez que conto esta história.

Ele ficou em silêncio, seu corpo inteiro um monumento de atenção.

E Olívia, pela primeira vez, deixou as barreiras caírem. Ela falou daquela noite há seis anos; não como uma confissão, mas como uma libertação. Descreveu o bar enfumaçado, o sabor amargo do uísque em seus lábios, as lágrimas que caíam silenciosas no tecido de sua blusa. Falou do estranho de olhos negros que parecia carregar uma dor tão profunda quanto a sua, e que, por algumas horas roubadas ao tempo, a fez sentir-se vista, compreendida, viva. Falou do despertar solitário, da cama vazia ao seu lado, da ausência de um bilhete, de um número, de uma promessa. E, por fim, falou dos meses de silêncio ensurdecedor, da descoberta da gravidez que a encheu de um terror avassalador e de uma esperança inexplicável.

— Eu achei que você tivesse me usado — ela confessou, suas mãos tremendo levemente, as memórias dolorosas voltando com toda a força. — Que eu não passei de uma distração passageira para a sua dor. Eu não sabia o seu nome completo, não sabia da sua vida, do seu mundo. Só descobri muito tempo depois, quando já era tarde demais. Quando o Léo já era real, e o medo de você, do que você representava, era maior do que qualquer outra coisa.

Ian permaneceu imóvel, seu rosto uma máscara de incredulidade e dor.

—Eu deixei um bilhete, Olívia. — Sua voz era um fio de som, carregado de angústia. — No travesseiro, ao lado da sua cabeça. Deixei meu número. Pedi para você me ligar. — Ele baixou o olhar, como se envergonhado. — Quando você nunca ligou, achei… achei que você tinha lido e me ignorado. Que eu não tinha passado de um erro para você.

O mundo de Olívia desabou. O chão pareceu ceder sob seus pés, o ar foi sugado de seus pulmões.

—Tudo bem.

Ele segurou seu olhar por um momento que pareceu uma eternidade, como se houvesse uma enciclopédia de palavras não ditas, de arrependimentos e desejos, pairando no ar entre eles. Mas o momento passou. Ele se virou, e suas costas, agora um pouco menos curvadas, começaram a se afastar pela trilha de terra batida.

Olívia permaneceu onde estava, uma estátra de emoções conflitantes, observando a figura dele se dissolver entre as sombras alongadas do final de tarde. Uma parte dela, a parte que ainda lembrava do sabor de seus lábios e do calor de seu abraço, gritou por dentro, suplicando para que ela o chamasse de volta.

Mas então, seu mundo se reorientou. Seus olhos encontraram Léo, correndo e rindo com outras crianças, seu rosto um raio de sol puro em meio à escuridão de seus sentimentos. O som de sua felicidade era ao mesmo tempo uma facada e um bálsamo.

Como seguir em frente quando ainda se ama tanto? A pergunta ecoou em sua mente, sem resposta.

E então, a resposta veio. Não em palavras, mas em um toque. Um aperto suave em sua mão. Léo havia corrido até ela e a abraçou pela cintura, enterrando o rosto em seu casaco.

— Mamãe, você está chorando? — sua vozinha estava cheia de preocupação.

Olívia sorriu entre lágrimas, a dor e o amor se fundindo em uma única emoção avassaladora. Ela se ajoelhou, envolvendo-o em um abraço apertado, acariciando seus cabelos macios.

— Não, meu amor. — mentiu, beijando seu topo de cabeça. — São lágrimas de felicidade.

E naquele abraço, naquele pequeno milagre que eles haviam criado juntos, ela encontrou sua resposta.

Sim.

Por ele, tudo seria possível.

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