A porta da mansão Moretti abriu-se com um rangido profundo e solene, um som que parecia vir não das dobradiças, mas das próprias entranhas da casa. O ruído ecoou pelo saguão vazio, um lamento que se perdeu nas sombras alongadas do entardecer. Ian atravessou o limiar, e o silêncio o atingiu como um golpe físico.
Era um silêncio pesado, absoluto. O tipo de quietude que só existe em lugares onde a vida já não habita.
Sem o avô para preenchê-lo com sua presença imponente e suas histórias de outro tempo.
Sem Olívia para iluminar os cantos com seu riso contido e seu olhar perspicaz.
Sem Léo para trazer o caos alegre de brinquedos espalhados e passos correndo pela escadaria de mármore.
Aquele luga parecia agora um mausoléu. O lar da família Moretti, outrora um símbolo de poder e legado, estava reduzido a paredes frias e memórias quebradas, um casulo vazio de seu significado.
Seus passos ecoaram no mármore polido enquanto se aproximava da mesa de entrada de carvalho maciço. Ele passou os dedos pela superfície, sentindo as marcas desbotadas de copos, os pequenos arranhões deixados por gerações.
"Casa viva tem cicatriz, menino. É isso que conta nossa história", a voz de Nicolau ecoou em sua mente, nítida como se ele estivesse ali. Agora, aquelas cicatrizes pareciam não mais testemunhas de uma vida plena, mas inscrições funerárias.
Ian fechou os olhos, engolindo em seco uma dor ácida e familiar que insistia em subir pela garganta, ameaçando estrangulá-lo.
"Como é que tudo foi parar aqui? Em que curva errada da estrada eu virei, para acabar soberano deste reino de poeira e ecos?"
Ele estava prestes a subir a escadari quando um ruído sutil fez seu corpo inteiro enrijecer.
Um barulho vindo da cozinha.
Passos.
Não eram os passos pesados e decididos de um servo. Nem os leves e ansiosos de um intruso. Eram passos tranquilos, deliberados, familiarizados demais.
Ian congelou no lugar. Cada músculo, cada nervo, entrou em alerta máximo, um instinto ancestral de um animal defendendo seu território violado.
E quando ele se virou e percorreu o corredor escuro, a silhueta que emergiu da penumbra fez seu sangue gelar instantaneamente nas veias.
— Você? — a palavra saiu de sua garganta como um rosnado animal, seus olhos se estreitando em fendas perigosas. — O que diabos você está fazendo na minha casa?
Alexander Moretti, o homem que tão arrogantemente odiava aquele sobrenome, saiu das sombras. A luz fraca acentuou o sorriso indolente e provocador que Ian desejava arrancar a socos de seu rosto.
— Que recepção calorosa, querido irmão — disse ele, a voz um fio de seda envenenada. — Também sinto sua falta. A casa ficava tão… vazia sem suas crises dramáticas.
— Não brinque comigo, Alexander. — Ian avançou um passo, seu corpo uma mola comprimida prestes a ser liberada. A distância entre eles agora era de apenas alguns metros. — Fale. Agora.
— Vim visitar alguém.
Ian sentiu um frio percorrer sua espinha.
—Aqui? — sua voz cortou o ar, transformando-se em aço temperado. — Na mansão Moretti? Quem?
Alexander deu um de ombros, um gesto estudadamente casual.
—Alguém que sempre esteve do meu lado. Alguém que você, em toda a sua arrogância, nunca teve a capacidade de ver. Estava sempre muito ocupado sendo o herdeiro perfeito, não é?
Uma onda gelada de puro pavor subiu pela espinha de Ian.
— Quem? — Ian repetiu, a voz mais baixa agora, mas infinitamente mais perigosa, o tom que fazia CEOs tremerem em suas poltronas de couro.
A resposta não veio em palavras. Alexander apenas manteve aquele sorriso enigmático, um gato diante de um rato atordoado.
— Que diferença faz, Ian? Você não está em posição de exigir absolutamente nada. O grande Ian Moretti, o herdeiro… um rei sem coroa, um filho sem pai, um homem sem família.
Ian deu outro passo em direção a ele, os punhos se cerrando, os músculos dos braços tensionados, quando, com um movimento fluido, Alexander ergueu algo entre os dedos.
Uma folha de papel. Uma fotografia.
Amarelada nas bordas pelo tempo, carregando o peso do passado em sua superfície.
— Achei que você gostaria de ver isso — disse ele, estendendo o papel como um carrasco apresentando a lâmina. — Um pedaço da história que nosso querido avô esqueceu de incluir na lenda familiar.
Ian arrancou a foto de seus dedos, seu próprio toque áspero e precipitado.
Quando seus olhos se focaram na imagem, o mundo parou. O ar foi sugado de seus pulmões, o som do seu próprio coração batendo tornou-se um tambor ensurdecedor em seus ouvidos.
Era uma mulher. Caída em um beco escuro, o vestido claro manchado de algo escuro. Um corpo inerte, coberto por um lençol fino. E acima da cena, um carimbo oficial, as letras dançando diante de seus olhos como demônios:
“Caso Moretti – Conexão confirmada”
“Referência: N. M.”
Nicolau Moretti.
O coração de Ian despencou em um abismo sem fundo.
— Não… — a palavra saiu um sopro sufocado, um desespero infantil. — Isso… Isso é falso. Uma manipulação.
— É? — Alexander inclinou a cabeça, uma expressão de falsa pena em seu rosto. — Então procure pelo arquivo original. Está no cofre velho, atrás do quadro do seu bisavô no escritório do avô. Ele guardou bem escondido. Bem longe de seus olhos tão perspicazes.
Ian respirou fundo, mas o ar não chegava aos seus pulmões. Ele não conseguia. Não queria acreditar. Sua mente se recusava a aceitar a traição monumental que aquela imagem implicava.
— O meu avô… — ele sussurrou, sentindo o chão de mármore se afastar sob seus pés, a vertigem tomando conta. — Nicolau não faria isso. Ele não… não esconderia…
Alexander riu; um som baixo, sombrio, que não tinha alegria, apenas veneno.
Ele precisava dela.
Não por amor,não pelo desejo que ainda queimava como brasas sob as cinzas.
Mas porque ela era a única pessoa que nunca se curvara a Nicolau,que sempre encarara o legado Moretti com um ceticismo saudável.
E a única que,em seus momentos mais raros e vulneráveis, olhara para Ian e visto não o herdeiro, mas o homem. Apenas o homem.
E se havia alguém neste mundo que poderia ajudá-lo a navegar por esse labirinto de traição e descobrir a verdade por trás do sangue…
Era ela.
Ian levantou-se num movimento tenso e brusco, a decisão solidificando-se em seu peito como aço gelado. Ele iria até Olívia. Agora. Ele se virou, determinado a sair dali, quando um novo som o fez congelar no lugar.
Um barulho vindo do andar de cima.
Passos leves descendo a escadaria.
Um perfume conhecido pairou no ar, envolvendo-o.
Suave.
Doce.
Feminino.
Um perfume que não era de Olívia.
E então, uma voz, melodiosa e carregada de uma intimidade que o fez estremecer:
— Ian? É você, querido?
Ele congelou, seu sangue tornando-se gelo em suas veias.
Não era Olívia.
E pela primeira vez,com um choque que lhe roubou o resto do ar, ele notou os pequenos detalhes que seu turbilhão emocional havia mascarado: um casaco fino pendurado no cabide, um livro deixado sobre a mesa lateral, o cheio de uma refeição recente.
Alguém estava morando naquela casa.
E não era alguém que ele havia convidado.
Era alguém que ele conhecia.

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