Ian virou a cabeça, e o mundo desfocou por um instante, reduzindo-se à figura que emergia da penumbra.
Ele sabia que já havia tido demais daquele dia, daquela semana. A última coisa que precisava naquele instante era lidar com mais um novo inferno.
Outro inferno pessoal em sua vida.
Por isso, ele encara a figura em sua frente, completamente petrificado, seus sentimentos mergulhados em confusão e ódio.
Carolina.
Ela estava envolta em uma camisola de seda cor de marfim, que dançava com suas curvas em um balé familiar e obsceno. Seus cabelos loiros caíam soltos sobre os ombros, não desalinhados pelo sono, mas dispostos com uma precisão artística. E seus pés, descalços sobre o tapete persa, pareciam conhecer cada fio, cada padrão. Ela não parecia uma visitante. Parecia a dona do lugar. A herdeira de um trono que ele nunca soube estar em disputa.
— Você está brincando comigo. — A voz de Ian não foi um gritou; foi um aviso saindo das profundezas, um rosnado de um animal cujo território foi violado.
O sorriso de Carolina foi uma coisa lenta e deliberada, um botão de veneno desabrochando. Não havia remorso em seus olhos, nem o medo cauteloso que ele esperava. Havia apenas uma tranquilidade aterradora.
— Voltei para a mansão, Ian. — Sua voz era um fio de mel e ácido. — Era para ser temporário, igual era antigamente, você lembra? Mas depois do funeral de Nicolau, depois que você foi embora, descobri que você havia deixado a mansão. Não acreditei que você abriria mão de tudo isso. — Ela deu um de ombros, um gesto de leveza assassina. — Por isso, eu voltei. Assim como Nicolau me pediu tantas vezes. E agora, quando olho para essas paredes… acho que vou ficar.
Ele avançou um passo, o corpo tensionado como uma corda de arco.
—O que você está fazendo aqui? — Cada palavra foi cuspida, carregada de uma fúria gelada.
— Eu vim porque Nicolau me fez promessas, Ian. — Ela mirou-o com um brilho triunfante e doentio nos olhos, como se estivesse revirando uma faca em uma ferida que ele nem sabia ter. — Promessas escritas, assinadas. E agora que ele se foi, é minha obrigação garantir que receba o que é meu por direito. Ele me devia. Muito, muito mais do que seu orgulho de neto perfeito poderia imaginar.
Ian sentiu a raiva não como uma emoção, mas como uma substância física, subindo de suas entranhas, queimando sua garganta. O cheiro de seu perfume era o cheiro da traição.
— Você está completamente louca se acha que vai ficar um minuto a mais sob este teto. — Ele apontou para a escadaria, seu dedo um dardo de acusação. — Pegue suas tralhas. Agora. E saia da casa da minha família.
A risada de Carolina ecoou no salão vazio.
Era um som curto,seco, desprovido de alegria, que fez os pelos dos braços de Ian se eriçarem.
— Sua família? — ela repetiu, saboreando a palavra como um vinho amargo. — Que engraçado você falar isso, Ian. Principalmente agora, depois de ter descoberto a verdade. Depois de saber quantos segredos o seu santo avô, o grande Nicolau Moretti, escondeu atrás dessas paredes… inclusive os que cercam a morte da sua própria mãe.
Ian travou.
O ar foi sugado de seus pulmões.O mundo parou em seu eixo. Por um segundo, ele foi apenas um menino novamente, ouvindo o eco de um grito, sentindo o frio da culpa.
Aquele assunto novamente não... O que ela e Alexander achavam que sabiam?
— Não. — Ele balançou a cabeça, um movimento lento e negador, como se pudesse afastar as palavras dela com força bruta. — Você e Alexander… vocês cozinharam essas mentiras juntos. Dois vampiros se alimentando dos restos do mesmo cadáver. Eu não acredito numa palavra saída da sua boca.
Carolina deu dois passos lentos e calculados em sua direção, a seda sussurrando contra seu corpo como uma cobra na grama.
Ela passou por ele com uma lentidão agonizante, sua mão arrastando-se pelo corrimão de carvalho como uma aranha marcando sua teia. Cada centímetro era uma afirmação de posse.
No último degrau, ela parou e virou o rosto, seu perfil recortado contra a luz baixa do saguão.
— O passado nunca está realmente enterrado, Ian — ela sussurrou, e a voz ecoou como um profeta das trevas. — E eu prometo… o seu está prestes a se levantar do túmulo e te engolir inteiro.
E então, ela desapareceu pela porta frontal, deixando para trás não apenas o fantasma de sua presença, mas um rastro de perfume caro e a promessa palpável de destruição.
Ian permaneceu imóvel no topo da escada, um rei em seu castelo vazio. Seu coração batia com fúria contra suas costelas, sua respiração era um fio desesperado no silêncio opressivo. A raiva e o medo, dois velhos inimigos, colidiam dentro dele, criando uma tempestade que ameaçava despedaçá-lo.
Até que, finalmente, suas mãos se cerraram nos punhos e suas palavras saíram em um sussurro áspero, dirigido aos retratos ancestrais que o fitavam das paredes, ao fantasma do avô que pairava em cada canto:
— O que diabos você escondeu de mim, vô?
E pela primeira vez desde que era um menino assustado, sozinho num corredor escuro…
Ian Moretti, o titã de aço, o herdeiro de um império, sentiu uma pontada de medo puro e primitivo.
E o pior era saber que a resposta poderia ser mais aterrorizante do que a ignorância.

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