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Nosso Filho, Meu Segredo: O Contrato Proibido romance Capítulo 221

O pequeno café de esquina era uma ilha de normalidade em meio ao turbilhão que sua vida se tornara. Naquela manhã fria, envolta numa penumbra cinzenta que prometia chuva, o local estava particularmente silencioso.

Olívia estava sentada em uma mesa no canto, com o celular aberto na tela de um currículo que parecia pertencer a outra pessoa, de outra vida. "Experiência em gestão de projetos... fluente em três idiomas..." As palavras dançavam em sua visão, mas sua mente, traiçoeira, insistia em vagar para longe dali, para mansões sombrias, olhares gelados e segredos enterrados sob alicerces de mentiras.

Ela respirou fundo, o ar morno e doce do café enchendo seus pulmões. Concentre-se, ordenou a si mesma. Reconstruir. Um tijolo de cada vez. Uma vaga de emprego, um salário próprio, uma vida longe do veneno dos Moretti.

Ela estava tentando. Com cada fibra de seu ser cansado, ela tentava.

Até que a campainha da porta tilintou, suave e inocente, e o mundo que ela lutava para erguer desabou mais uma vez.

Clara entrou.

Ela era um espetáculo de contradições dolorosas. Seu corpo, marcado pela gravidez, deveria emanar uma aura de vida e promessa. Em vez disso, ela parecia uma flor cortada, murchando em um vaso venenoso. Seu rosto estava pálido, com olheiras roxas sob os olhos, mas neles brilhava um fogo frio e vitorioso que Olívia reconheceu com uma pontada de náusea.

— Não — a palavra escapou dos lábios de Olívia em um sussurro aterrorizado, um mantra de negação. Ela se levantou tão rápido que sua cadeira raspou no piso de cerâmica, um som que cortou a tranquilidade do café. — Eu não vou fazer isso. Não hoje.

Mas Clara já estava em movimento, seus passos firmes e silenciosos a colocando diretamente no caminho de Olívia, bloqueando qualquer rota de fuga. Seu sorriso era uma fina linha de crueldade.

— Também senti sua falta, querida. A cidade fica tão... sem graça quando não temos nossas conversinhas.

— O que você quer, Clara? — a voz de Olívia saiu mais áspera do que ela pretendia, carregada de um cansaço profundo. — Não me arraste para o seu teatro do absurdo. Ou para o seu... — seu olhar desceu involuntariamente para a barriga redonda de Clara, um gesto que sentiu como uma traição — ... novo projeto de poder.

O riso de Clara foi baixo.

— Não é um projeto, Olívia. É um herdeiro. Sangue Moretti correndo em suas veias. Assim como no seu Léo.

Olívia fechou os olhos, pressionando os dedos contra as pálpebras, tentando se ancorar. O cheiro doce e enjoativo do perfume de Clara invadia seu espaço e a deixava enjoada.

— Não vou ouvir isso. Saia da minha frente.

— Léo não vai levar tudo sozinho, você sabe — Clara continuou, ignorando completamente a rejeição de Olívia. — O mundo não gira em torno do seu filho. O meu também é um Moretti. Quer você cubra os ouvidos e finja que não, quer você aceite. O sangue é o mesmo.

— O seu filho é do Alexander — Olívia cuspiu as palavras com um desprezo que queimava sua própria garganta. — E isso te coloca bem no centro do esgoto dessa família. Parabéns.

Algo perigoso cruzou o rosto de Clara; um lampejo de orgulho distorcido, de posse doentia. Ela se orgulhava daquela sujeira.

— Se você soubesse nem a metade do que está acontecendo por trás dessas paredes douradas, entenderia que a sujeira, minha cara, começa muito, muito antes do Alexander. E certamente muito antes de mim. O poço é bem mais fundo.

Olívia tentou se esquivar, um movimento lateral e desesperado, mas a mão de Clara disparou, seus dedos finos, mas surpreendentemente fortes, fechando-se como uma garra em torno do braço de Olívia.

— Tem algo maior acontecendo — ela sussurrou, puxando Olívia para perto, seu hálito quente e doce atingindo o rosto dela como um sopro vindo do submundo. — Algo que envolve o império Moretti inteiro. Os alicerces estão rachando.

Olívia arregalou os olhos, seu coração batendo como um tambor ensurdecedor em seus ouvidos. Ela se recusava a admitir, mesmo para si mesma, que estava ouvindo, que aquelas palavras encontravam solo fértil em seu próprio medo.

Clara se inclinou ainda mais, sua voz reduzida a um sussurro quase íntimo, assassino.

— Alexander descobriu... quem realmente matou a mãe do Ian.

O café ao redor de Olívia pareceu desvanecer, as cores e os sons se dissolvendo em um borrão cinzento. O tilintar das xícaras tornou-se o som de correntes se arrastando. O cheiro de pão, o cheiro da terra de uma cova.

— O acidente... — a voz de Olívia saiu um frágil fio de som, a memória da história oficial, da culpa que Ian carregava, desmoronando em sua mente. — Não foi um acidente?

Ele surgiu como um fantasma, seus olhos escuros e vazios escaneando o rosto de Clara com a frieza de um analista.

— Fez um bom trabalho — ele comentou, sua voz um sussurro liso e sem emoção. — A semente foi plantada.

Ela ergueu o queixo, um gesto de orgulho arrogante.

— Essa parte é fácil. A Olívia é sentimental. Fraca. Ela sempre foi. Acredita no bem das pessoas. É sua maior falha.

Alexander encostou a mão na curva de sua barriga, um gesto que deveria ser de carinho, mas que tinha a frieza tátil de um lagarto. Seus olhos não refletiam nenhum afeto pelo filho que carregava ou pela mulher que o carregava.

— Continue assim, Clara... — ele sussurrou, seu olhar penetrante. — Continue sendo minha rainha do caos... e você terá tudo o que deseja. Tudo.

Clara sorriu, uma expressão de ambição pura e inclemente.

— Eu vou ter — ela sussurrou de volta, sua voz carregada de convicção férrea. — Agora é só uma questão de tempo até usarmos essa verdade para derrubar Ian de vez. A casa dele já está em chamas. Só precisamos soprar as brasas.

Alexander sorriu devagar, uma curvatura quase imperceptível de seus lábios finos. Era o sorriso de um homem que admira a beleza destrutiva de um incêndio florestal que ele mesmo começou.

— O império Moretti — ele murmurou, olhando para a rua movimentada como se visse além do concreto e do vidro — nunca esteve tão perto de ruir. E o melhor de tudo... eles estão cavando a própria cova.

E, como duas sombras condenadas, eles se afastaram juntos, fundindo-se com a multidão, deixando para trás o café, a normalidade e a mulher trêmula no banheiro.

Enquanto isso, encostada na fria porcelana da pia, Olívia ainda tremia, o sabor amargo da bile e da verdade envenenada em sua língua.

... sem saber que a revelação que a obrigaram a engolir naquela manhã era apenas o primeiro e mais suave dos golpes que estavam por vir.

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