O consultório era um santuário de silêncio. Um silêncio tão profundo que parecia absorver até o som da própria respiração, tornando-a um eco incômodo no espaço entre quatro paredes.
Ian estava sentado na poltrona de couro escuro, um móvel impessoal que já havia testemunhado inúmeras confissões, mas nunca a de um homem como ele. Suas mãos, habituadas a assinar contratos que moviam milhões, estavam entrelaçadas com tanta força que os nós dos dedos branqueavam.
À sua frente, o Dr. Pietro — um homem de olhos tranquilos e cabelos prateados — observava com uma paciência que parecia infinita. Era o olhar de quem já vira o colapso de titãs e sabia que, no fundo, todos se reduziam a meninos assustados.
— Você parece cansado, Ian — a voz do psicólogo era suave, uma pena tocando na superfície de um lago congelado.
Ian soltou uma risada baixa, um som oco e sem humor que ecoou no ambiente contido.
—O cansaço é a única coisa que me é fiel, Doutor. Não me lembro da última vez que não estive cansado. É um cansaço que vai até os ossos.
Dr. Pietro inclinou a cabeça, seus óculos refletindo a luz suave do abajur.
—E o que mudou agora? O que trouxe um homem que controla metade desta cidade para esta sala, finalmente?
Ian desviou o olhar para a janela panorâmica. Lá fora, a cidade pulsava, um organismo vivo que ele comandava com um aceno de mão.
— Porque… — ele respirou fundo, sentindo o ar como uma lâmina em seus pulmões, cada inspiração uma batalha — …pela primeira vez em toda a minha vida, eu não sei quem sou quando não estou no controle. A máscara… colou no rosto. E agora não consigo mais arrancá-la.
O psicólogo não disse nada. Seu silêncio era uma ferramenta, um vácuo que puxava a verdade para a superfície.
Ian continuou, sua voz reduzida a um sussurro áspero, como se confessasse um crime:
—E pela primeira vez… tudo o que eu tentei controlar, tudo que eu precisei controlar… me escapou pelos dedos. Meu avô, e os segredos podres que ele carregou para o túmulo. Minha família, reduzida a sombras e facas nas costas. Minha empresa, um império que sinto tremer sob meus pés. E…— a palavra travou em sua garganta, um nó de dor e arrependimento — …ela.
Imagens de Olívia invadiram sua mente com a força de uma inundação: não as memórias apaixonadas dos primeiros dias, mas os momentos cruciais da queda. O olhar devastado dela no velório de Nicolau. O desespero silencioso no jardim da mansão, quando as palavras falharam e só restou a fúria. O "acabou" final que ele cuspiu com todo o veneno de que era capaz, pensando que era uma arma, sem perceber que era a sentença de sua própria solidão.
— Você a perdeu? — a pergunta do Dr. Pietro foi direta, mas não cruel.
Ian fechou os olhos, como se pudesse bloquear a visão de sua própria ruína.
—Não. — a negação saiu carregada de um amargo autorreconhecimento. — Perder implica um acidente, um infortúnio. O que eu fiz foi pior. Eu a destruí. É diferente.
Dr. Pietro cruzou os dedos sobre a mesa, um gesto calmo que contrastava com a tempestade no peito de Ian.
—Conte-me sobre ela. Sobre Olívia.
Ian respirou fundo, deixando o nome dela pairar em sua mente como um hino profano antes de permitir que saísse de seus lábios.
—Olívia… — sua voz quase falhou, quebrada pela emoção — …foi a única pessoa em trinta e poucos anos de existência que não me olhou com medo. Ou com a ganância lamurienta dos que querem algo. Ou com a ambição fria dos que veem um degrau. — Ele fez uma pausa, buscando as palavras certas no vazio de sua alma. — Ela me olhou… como se eu fosse apenas um homem. Frágil, imperfeito, humano. Não um Moretti. Apenas… Ian.
— E o que você fez com esse olhar? — o psicólogo perguntou.
A risada de Ian foi um som amargo, uma erupção de autodesprezo.
—O que eu sempre faço quando algo é puro demais para o mundo que habito. Eu ergui muros. Cuspi veneno. Destruí tudo, antes que a beleza daquilo pudesse me destruir, me expondo como a fraude que sempre temi ser.
Ian abriu a boca, os lábios se separando para proferir uma das muitas definições que sempre usou — o CEO, o herdeiro. Mas as palavras morreram em sua garganta. Ele vasculhou os cantos mais profundos de seu ser, os lugares que ele sempre evitou, e encontrou…
Nada.
Um vazio reverberante. Um deserto onde deveria haver uma alma.
Era essa a verdade mais aterrorizante de todas.
— Eu… não sei — ele admitiu, as palavras saindo em um sopro, uma rendição solene que ecoou na sala silenciosa.
Mais tarde, na calada da noite, Ian estava sentado no chão frio do quarto de Leo que na mansão. Aquela era a noite dele com menino. A luz noturna projetava sombras suaves de estrelas e planetas no teto. O menino dormia, um carrinho de plástico ainda preso em sua mãozinha relaxada, sua respiração um ritmo suave e puro de inocência. Ele era um oásis de paz em meio ao caos que Ian chamava de vida.
Ian o observava. Cada detalhe era uma revelação: a curva do nariz, tão parecida com a dele; mas a teimosia no queixo, que era toda de Olívia, a expressão serena que ele, Ian, jamais conheceu.
Ele se inclinou para frente. Com uma reverência que não sabia possuir, estendeu a mão e tocou de leve os cabelos macios do filho.
— Se eu pudesse recomeçar… — a confissão saiu um sussurro rouco, um segredo oferecido ao anjo adormecido — …começaria com vocês. Com ela. Com você. Seria um homem diferente. Um homem digno.
A verdade daquelas palavras flutuou no ar escuro, um fardo doce e agonizante. Ser pai estava o despedaçando e, paradoxalmente, o reconstruindo ao mesmo tempo. Porque amar Léo, amar Olívia, significava abrir mão do controle. Significava vulnerabilidade. Significava a terrível, maravilhosa e aterrorizante possibilidade de perder.
E ali, no chão, diante de seu filho, Ian finalmente admitiu para si mesmo: ele queria perder. Queria se render. Queria amar, com todas as dores e glórias que viessem com isso.
Ele queria Ela.

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