A porta da mansão Moretti abriu-se com um estalo suave e solene, como um suspiro de resignação. O cheiro familiar — uma mistura de madeira polida de séculos passados, flores frescas trocadas diariamente e o fantasma do perfume caro que sempre pairou no ar — envolveu Olívia como um abraço opressivo. Era o aroma do poder, do legado, de tudo que ela jurara deixar para trás.
Ela mal conseguia respirar.
Saiu do carro de Ian cambaleando, seu corpo ainda um eco vivo da tempestade que haviam compartilhado. As pernas tremiam, não de fraqueza, mas da descarga adrenalítica que percorrera seu ser. Seus lábios estavam levemente inchados, e ela ainda podia sentir o gosto dele — uma mistura de sal, desejo e uma vulnerabilidade tão rara que doía mais que qualquer beijo possessivo. Aquele ato de união selvagem e desesperada no carro queimara todas as fronteiras que ela tentara, por meses, erguer entre eles. Fora uma conflagração, não um reencontro. Agora, as cinzas ainda quentes cobriam sua pele e sua alma.
Eles não trocaram muitas palavras depois. O silêncio entre eles era espesso, carregado do peso do que fizeram. Olívia pedira, em um sussurro rouco, que ele a levasse até a mansão. Apenas para ver Léo. Apenas para se certificar de que aquela âncora, a única que ainda a mantinha ligada a esse mundo, estava segura. Mas ao cruzar aquele limiar, ela soube: não era apenas mãe. Era uma mulher dividida ao meio, com uma parte de si ainda grudada na pele de Ian.
Ela atravessou o hall principal, seus passos ecoando no mármore como batidas de um coração ansioso. Subiu a escadaria curva, sua mão deslizando pelo corrimão de carvalho escuro.
Ao empurrar a porta do quarto, um suspiro preso finalmente escapou de seus lábios.
Léo.
Ele dormia profundamente, envolto na penumbra suave de um abajur. Seus cabelos escuros, tão parecidos com os do pai, formavam um auréola desalinhada sobre o travesseiro de algodão egípcio. Ao lado da cama, na poltrona de veludo, Helena dormia sentada, a postura outrora perfeita agora abandonada ao cansaço. Seus óculos estavam tortos e um livro repousava aberto em seu colo. Os dois pareciam uma pintura de paz doméstica, um refúgio de inocência em meio ao caos adulto.
Olívia levou a mão à boca, abafando um soluço que ameaçou se transformar em pranto. Estar ali, naquele epicentro do poder Moretti, depois de todo o ódio trocado, das palavras cortantes, do amor que se transformou em veneno... parecia uma profanação. Uma quebra de um juramento silencioso que fizera a si mesma. E, no entanto, lá estava ela, atraída pelo ímã mais forte que conhecia: o amor de mãe.
Ela sentiu a presença dele antes mesmo de ouvir qualquer som. Era uma mudança na pressão do ar, uma sombra que se alongava no corredor. Virou-se devagar, seu corpo ainda alerta.
Ian estava parado na porta, sua silhueta imponente preenchendo o vão. A luz suave do quarto banhava seu rosto, suavizando as linhas de tensão, apagando temporariamente as marcas da guerra que travavam. Sua expressão era... aberta. Vulnerável. Humana de uma forma que ela não via desde os primórdios de seu relacionamento, antes que o peso do sobrenome Moretti os esmagasse.
— Podemos conversar? — a pergunta saiu baixa, quase um pedido, e não uma demanda. Era um tom que ela raramente ouvira dele.
Olívia engoliu em seco, o nó na garganta apertando. Um "não" morreu em seus lábios. Ela apenas assentiu, silenciosamente.
Os dois desceram a escadaria em um silêncio pesado, mas não hostil. Ele a levou até a biblioteca, a sala mais imponente e, paradoxalmente, a mais vazia da mansão. Estantes que iam do chão ao teto abrigavam livros encadernados em couro que ninguém lia. Era um lugar de aparência, não de aconchego. Talvez o único espaço verdadeiramente neutro que restava entre eles.
Assim que a pesada porta de madeira se fechou com um clique suave, isolando-os do mundo exterior, Ian respirou fundo.
— Eu soube que você ia embora — ele começou, sem rodeios. Sua voz era plana, mas os olhos não conseguiam disfarçar a tormenta por trás daquela calma.
Olívia fechou os olhos por um instante, como se pudesse se proteger da verdade daquela afirmação.
— Eu… eu não queria — a admissão saiu em um sussurro, uma confissão arrancada da parte mais assustada de sua alma. — Mas eu preciso, Ian. Ninguém me contrata. O sobrenome Moretti é uma maldição para o meu currículo. A hipoteca venceu... não tenho como pagar. Não tenho como recomeçar aqui. Este lugar... você... me sufoca.
Ele deu um passo à frente, e o espaço entre eles pareceu diminuir não em centímetros, mas em anos-luz.
O coração de Olívia bateu com tanta força que ela quase levou a mão ao peito. As palavras dele eram como chaves tentando abrir fechaduras enferrujadas.
Ian deu outro passo. Agora, ele estava perto o suficiente para que ela sentisse o calor irradiando de seu corpo, para que o cheiro único dele — sabão caro e algo inerentemente Ian — invadisse seus sentidos, trazendo consigo uma enxurrada de memórias.
— Eu tive medo, Olívia. Medo real de perder você. De verdade — ele continuou, sua voz um fio de som carregado de emoção. — Não o medo de perder uma posse. O medo de nunca mais entrar em uma sala e sentir... isso. — Ele não especificou o que era "isso", mas ela sabia. Era a eletricidade, o reconhecimento, a sensação de que, independentemente de tudo, eles eram duas partes de um todo despedaçado.
Sua mão se ergueu, lentamente, e seus dedos roçaram os dela, que pendiam inertes ao lado do corpo.
O toque foi breve, quase acidental.
Mas foi como um choque.Um choque que percorreu seu braço, seu peito, seu estômago. Um choque que derreteu o gelo ao redor de seu coração.
— Olívia… — o nome saiu de seus lábios como uma oração secular. — Eu quero recomeçar. — Ele disse as palavras com uma clareza que não admitia interpretações. — Eu quero você de volta. Quero você e o Léo. Aqui. Comigo. Ou em qualquer lugar do mundo. Desde que seja... nós três.
Ele fez uma pausa, e suas próximas palavras foram as mais frágeis, as mais vulneráveis que ela já lhe ouvira:
— Você me aceita de volta?

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