Por um segundo inteiro que pareceu uma eternidade, Ian ficou imóvel do lado de fora, transformado em estátua.
Não respirou.
Não pensou.
Não processou a sequência brutal de eventos:o corpo dela cedendo ao seu, o quase-beijo que prometia redenção, e depois... o recuo. A fuga. Como se ele fosse não um homem, mas um espectro que queimava sua pele.
Apenas ficou ali, olhando para a porta branca e lisa, ainda sentindo na própria pele o fantasma do calor dela, a proximidade que havia sido tão real, tão quase... e a forma abrupta e violenta como ela se arrancou dele, como se estivesse fugindo de um monstro, não em seus braços, mas dentro de seu próprio ser.
Então, veio o som.
Convulsões guturais. Engasgos roucos e agonizantes. O som úmido, inconfundível e visceral de alguém sendo fisicamente dominado pelo próprio corpo, vomitando não apenas conteúdo estomacal, mas angústia pura.
O chão de mármore pareceu ceder sob os pés de Ian. Uma vertigem cruel o atingiu.
— Olívia? — ele chamou, e sua voz saiu um sopro rouco, mais fraco e vulnerável do que jamais pretendera soar.
Nenhuma resposta, apenas outro ruído horrível de sufocamento, seguido por um gemido baixo de puro esgotamento.
Ian avançou como um sonâmbulo, parando a centímetros da porta fechada. Sua mão, grande e habituada a comandar impérios, pairou sobre a maçaneta fria de metal.
Entre. Arrombe esta maldita porta. Segure-a. Envolva-a. Impeça que ela desmorone sozinha.
Mas os dedos não se fecharam. Ele não tinha mais esse direito. Ele havia perdido o direito de invadir seus espaços, de consertar suas quedas. Ele era a causa, não a cura.
Ele soltou o ar com força, um som entre um suspiro e um gemido, e pressionou o punho cerrado contra a própria testa, como se pudesse esmagar a culpa que latejava em seu crânio.
Ele forçou a voz a sair, tentando domar o tremor.
— Olívia… — a voz dele rachou no meio do nome. — Abre a porta. Por favor. Deixa eu te ajudar.
Lá dentro, um acesso de tosse seca, dolorosa. E então, finalmente, uma resposta frágil, arrastada, atravessou a barreira de madeira:
— Não… não entra… por favor… só… espera…
Ele tocou a superfície lisa da porta com a palma da mão, fechando os olhos. Era um gesto de impotência, de uma conexão desesperada. Eu estou aqui, pensou, com a força de um mantra. Ainda estou aqui.
— Eu estou aqui — ele disse, a voz intencionalmente rouca, carregada de uma promessa solene. — Não vou sair. Não importa o que seja.
E ele não saiu.
Deslizou pelo batente até o chão frio, encostando as costas na porta, e ficou ali, imóvel, uma sentinela em vigília forçada. Ouviu cada som abafado, cada pausa ofegante, cada suspiro trêmulo, até que o silêncio pesado e absoluto finalmente substituiu o caos visceral. Um silêncio que era, de certa forma, ainda mais aterrorizante.
Mas quando a maçaneta finalmente girou, com um clique hesitante, e a porta se abriu lentamente…
…nada em sua vida de homem controlado, acostumado a prever cada movimento, o preparou para o que viu.
Ela abriu a porta como um fantasma emergindo da névoa.
O vapor residual de seu banho noturno ainda envolvia o ambiente, dando ao ar uma qualidade onírica e pesada. Seu rosto estava pálido como a lua, a pele fina e arrepiada. Seus lábios tremiam incontrolavelmente. Fios de cabelo molhados colavam-se às suas têmporas e ao pescoço, onde gotas de água ou suor misturadas escorriam. E seus olhos… seus olhos eram dois poços de escuridão assustada, enormes e inundados de uma confusão tão profunda que parecia dilacerar sua própria alma.
E a náusea, ele podia ver, ainda a assombrava em ondas fantasmais, contraindo seu estômago, fazendo-a engolir em seco com dificuldade.
Ela se apoiou com força no batente, os nós dos dedos brancos, sua respiração curta e superficial, como a de um pássaro preso.
Ian levantou-se num movimento fluido, instintivo, seu corpo se inclinando para a frente para oferecer apoio.
— Sozinha? — a palavra saiu com a força de um soco. — Depois de… disso? Olívia, você está claramente mal. Você não pode ficar sozinha!
— Eu preciso — ela insistiu, e havia um tom de desespero final em sua voz, um fundo do poço que ele não ousou desafiar. — Por favor. Apenas… vai.
Algo dentro dele desabou. Ele viu a parede erguendo-se novamente em seus olhos, mais alta e mais espessa do que nunca. Ele viu o controle, tão recentemente e tão frágilmente compartilhado, escorrer entre seus dedos como areia. Mas pela primeira vez em meses, em talvez anos, Ian Moretti não discutiu. Não tentou impor sua vontade com a força bruta de sua personalidade.
Ele simplesmente… aceitou.
Estendeu a mão lentamente, e seus dedos tocaram os dela, que ainda estavam frios e trêmulos no batente da porta. Foi um toque leve, quase uma pergunta silenciosa. Permissão? Absolvição?
— Está bem — ele sussurrou, a voz rouca da emoção contida. — Eu vou. Ficarei com ele. — Ele fez uma pausa, seu olhar perfurando o dela, carregado de uma preocupação que ia além do que ela jamais vira. — Mas Olívia… se você precisar de mim… se for qualquer coisa… você me chama. Você grita. Você não fica sozinha nisto, entendeu?
Ela não conseguiu responder, apenas um leve movimento de cabeça.
— E depois — ele continuou, a voz baixando ainda mais, tornando-se quase íntima — depois que este… momento… passar, me encontre na cozinha. Irei preparar algo para você. Algo leve. — Seus olhos a escanearam, vendo a magreza que as roupas largas não conseguiam mais esconder. — Algo me diz que você não comeu direito há dias.
Ele estava certo. A precisão da sua observação foi outra facada. Ela apenas o observou, muda, enquanto ele se afastava pelo corredor.
E então, finalmente sozinha no banheiro invadido pelo seu próprio desespero, ela pressionou a mão com força contra a boca, mas não foi suficiente.
Um soluço único, profundo e roubado, escapou de seu peito, um som de puro terror.
Era a segunda vez naquele dia que seu corpo se rebelava. A segunda vez que a náusea a dominava sem aviso.
E então, a pergunta que seu cérebro vinha evitando, que seu coração se recusava a formular, explodiu em sua mente com a força de uma bomba, silenciosa e devastadora:
“Meu Deus… e se eu estiver grávida?”

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