O céu pré-amanhecer era uma massa cinzenta e ameaçadora sobre os velhos estaleiros. O ar frio do rio carregava o cheiro de ferrugem, água parada e desespero. Olívia caminhava sozinha pela rua de paralelepípedos quebrados, seus passos ecoando na escuridão silenciosa. Cada batida do seu coração era um grito: Léo, Léo, Léo.
Ela estava destroçada por dentro. O mundo que conhecera havia se desintegrado em menos de 24 horas. Mas em meio aos escombros, havia uma única bússola: o instinto materno, feroz e cego. Ela faria qualquer coisa. Assinaria qualquer confissão. Entregaria sua própria alma. Tudo para ter seu filho de volta nos braços.
O armazém 7, como indicado no endereço, era um monstro de concreto e ferro retorcido, com portas de correr enferrujadas parcialmente abertas. Um convite para o abismo.
Olívia parou na entrada, sua respiração formando nuvens brancas no ar frio. Ela olhou para trás, para as sombras onde Ian e Matheus deveriam estar se posicionando. Não os via. Só confiava que estavam lá. E então, engolindo o medo que subia como bile em sua garganta, ela entrou.
A escuridão interior era cortada por uma única fonte de luz: um holofote portátil no centro do vasto espaço vazio, iluminando uma pequena ilha de realidade no mar de escuridão. E lá, sentado em um banco de madeira, envolto em seu cobertor, estava Léo.
— Léo! — o nome saiu de seus lábios como um suspiro roubado.
O menino ergueu a cabeça. Seu rosto iluminou-se por um segundo ao ver a mãe, antes que o medo o cobrisse novamente. Ele saltou do banco e correu em sua direção, seus pequenos pés ecoando no concreto.
— Mamãe!
Olívia correu ao encontro dele, caindo de joelhos no chão sujo para envolvê-lo em um abraço tão forte que temia machucá-lo. Ela enterrou o rosto em seu cabelo, inalando seu cheiro, sentindo o calor dele, a prova viva de que ele estava ali, inteiro.
— Está tudo bem, meu amor, está tudo bem — ela chorou, beijando seu rosto, suas mãos passando por sobre ele procurando por ferimentos. — Mamãe está aqui. Nós vamos embora agora. Já vamos.
— Não tão fácil assim, querida.
A voz veio das sombras além do círculo de luz. Doce. Familiar. Uma faca embalada em veludo.
Olívia se levantou rapidamente, puxando Léo para trás de si, protegendo-o com seu corpo. Helena emergiu da escuridão, sua figura maternal e tranquila um contraste brutal com o ambiente hostil. Ela usava um casaco simples, seu rosto estava sereno, mas seus olhos… seus olhos tinham uma profundidade que Olívia nunca percebera. Eram os olhos de uma estrategista, não de uma cuidadora.
— Dê-me meu filho, Helena — Olívia disse, sua voz trêmula, mas firme. — Você já fez o que veio fazer. Me machucou. Me enganou. Agora, deixe-nos ir.
Helena sorriu, um gesto triste.
— Se fosse apenas sobre machucar, querida, você já estaria morta. E ele também.
Outras figuras começaram a se mover nas sombras, entrando na borda da luz. Olívia sentiu o sangue gelar em suas veias.
Alexander, o irmão de Ian, com seu sorriso afiado e olhos famintos.
Alberta, a empregada antiga e silenciosa da mansão, com seu rosto normalmente impassível agora carregado de uma mágoa antiga.
E Clara, pálida e com os olhos arregalados de medo, como se também fosse uma refém naquele teatro.
Olívia recuou um passo, apertando Léo contra suas pernas. Era um covil. Um covil de traidores e fantasmas.
— O que diabos… — ela sussurrou.
Ninguém falou. Todos olhavam para Helena, aguardando. Ela era a maestrina.

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