O salão de eventos do hotel mais caro da cidade estava irreconhecível. Os lustres de cristal, que costumavam iluminar festas de gala, agora jogavam uma luz crua e impiedosa sobre um palco austero, uma única mesa e um microfone. O burburinho era um ser vivo, um zumbido de vozes tensas, sussurros eletrizados e o ruído incessante de câmeras fotográficas. A imprensa mundial estava lá. Era o dia do acerto de contas da dinastia Moretti.
Nos bastidores, o ar estava gelado. Ian ajustava o nó de sua gravata preta em frente a um espelho. Suas feições eram de mármore polido, mas os olhos, refletidos no vidro, eram os de um homem prestes a saltar de um precipício. A atadura sob a manga da camisa branca imaculada formava um relevo discreto.
Matheus estava ao seu lado, falando baixo no microfone de sua orelha.
— Todas as saídas estão cobertas. As autoridades estão no controle da periferia. Os arquivos estão digitalizados e prontos para serem projetados. São dois dossiês: um para a polícia, outro para a imprensa. Não há volta, Ian.
— Bom — respirou Ian, sem emoção. — A volta nunca foi uma opção.
Sua busca no espelho encontrou Olívia. Ela estava a alguns metros, ajoelhada na altura de Léo, ajustando o colarinho de sua camisa social. O menino estava pálido, sério, mas mantinha o queixo erguido. Olívia sussurrou algo em seu ouvido, e ele assentiu, um movimento pequeno e corajoso. Ela então o abraçou, um gesto rápido e forte, e o entregou a Matheus, que o levaria para um lugar seguro no meio da multidão, rodeado por seus homens mais confiáveis.
Olívia se aproximou de Ian. Vestia um tailleur cinza escuro, uma armadura de lã e cetim. Não tocou nele, mas sua presença era um campo de força.
— Estamos aqui — ela disse, simplesmente.
— Você não precisa estar no meio daquele circo — ele murmurou, pela centésima vez.
— Onde mais eu estaria? — Ela respondeu, com um sorriso triste. — É a nossa verdade também. Vamos acabar com isso.
Um assessor fez um sinal. Era a hora.
O burburinho aumentou para um clamor quando Ian emergiu sozinho no palco. As luzes das câmeras o atingiram como holofotes de um interrogatório. Ele não sorriu. Foi direto ao microfone.
— Obrigado por virem — começou, sua voz amplificada, clara e fria como vidro quebrado. — Não vim aqui hoje para defender um legado. Vim para desmontar um mito podre e enterrá-lo, de uma vez por todas.
E então, ele começou a falar.
Falou de Nicolau Moretti, seu avô. Não o magnata filantropo, mas o criminoso que sonegava, subornava, extorquia e ordenava desaparecimentos. Nomes, datas, valores. A projeção atrás dele começou a exibir páginas escaneadas do diário íntimo, com a caligrafia firme do patriarca descrevendo atrocidades como se fossem transações comerciais.
A sala, que antes fervilhava, ficou em silêncio mortal. Só se ouviam os cliques das câmeras e o respirar ofegante de repórteres anotando freneticamente.
Ian prosseguiu. Falou de seu pai, o "bastardo" que Alberta, a empregada silenciosa, deu à luz depois de uma violência. Falou da ordem de Nicolau para que a criança "desaparecesse", então, lançou a bomba.
— Essa ordem foi dada a uma jovem mulher chamada Lenora Belmonte, mais conhecida como Helena. Em vez de cumpri-la, ela desobedeceu. Ela salvou a criança. E, movida por uma vingança que consumiu sua vida, ela se infiltrou na nossa família. Tornou-se a enfermeira, a sombra, a Sentinela. Foi ela quem orquestrou a descoberta dos segredos, quem manipulou os eventos que nos trouxeram aqui hoje. Ela não é uma heroína. Sua motivação foi o ódio, não a justiça. Mas seu testemunho e suas provas são a chave que destrancou este cofre de horrores.
O burburinho voltou, agora como ondas de choque de sussurros incrédulos. Perguntas começaram a gritar da plateia, mas Ian ergueu a mão.
— E o homem que conheciam como Alexander — Ian fez uma pausa, seu olhar varrendo a plateia, como se procurasse alguém. — É o filho de Alberta. É o irmão por parte de pai que eu nunca conheci. Ele voltou, não para fazer justiça, mas para reivindicar à força uma fortuna que acredita ser sua por direito de sangue manchado. Ele sequestrou, ameaçou e tentou assassinar para isso.
Ele jogou a última pá de cal.
— As envolvidas Helena e Alberta estão sob custódia das autoridades. Alexander, no entanto, está desaparecido. Mas todas as evidências foram entregues. A partir de hoje, as indústrias Moretti deixam de existir. Seus ativos serão auditados e liquidados. Um fundo será criado para indenizar as vítimas. Esta é a única herança que este nome carregará daqui para frente.
O silêncio que se seguiu foi absoluto por um segundo. E então, explodiu.
Repórteres se levantaram, gritando perguntas, vozes se sobrepondo em um cacofonia ensurdecedora.
— Ian, você vai ser processado?

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