A consciência voltou a Ian em camadas, como um mergulhador subindo lentamente das profundezas de um mar escuro e silencioso. Primeiro, a dor. Uma dor maçante e latejante que parecia emanar de seu ombro esquerdo e se espalhar por todo o torso, um peso de chumbo e fogo. Depois, os sons. O bip… bip… bip… regular e insistente. O sibilo ritmado de uma máquina. O murmúrio distante de vozes.
Ele tentou abrir os olhos. As pálpebras pesavam toneladas. A luz branca e difusa do ambiente da UTI o fez piscar, ofuscado. A desorientação foi total. Onde estava? O último fragmento de memória… o palco. As luzes. O som seco. A sensação de ter sido atingido por um taco de baseball em chamas. Olívia gritando seu nome.
Olívia.
O nome explodiu em sua mente como um farol no nevoeiro. O pânico, mais agudo que a dor física, lhe deu força. Ele tentou se mover, sentar, mas um braço gentil mas firme o impediu.
— Ian. Está tudo bem. Está tudo bem, você está no hospital.
A voz dela. Raspada pelo cansaço, mas ali, real, tangível. Ele virou a cabeça com um esforço hercúleo, os músculos do pescoço fracos como gelatina.
Ela estava ali. Sentada na mesma cadeira rígida, seu rosto marcado pela exaustão, olheiras profundas sob olhos que pareciam ter chorado oceanos. Seu cabelo estava preso de qualquer jeito, as roupas ainda eram as mesmas do dia anterior, agora ainda mais amarrotadas. Mas para Ian, naquele momento, ela era a visão mais linda e vital que já vira. Um ponto de ancoragem no mar da dor e da confusão.
Seus lábios secos se separaram. A voz que saiu foi um ruído áspero, quase inaudível.
— Olívia…Léo…?
O sorriso que ela deu foi pequeno, frágil, mas inundou seu rosto de um alívio tão profundo que fez os olhos dela brilharem novamente.
— Estamos bem. Os dois. Léo está dormindo na salinha. Está seguro. — Ela se inclinou para frente, sua mão encontrando a dele sobre os lençóis. Seu toque foi quente, firme, um fio de vida. — Você está no hospital. Você foi baleado, Ian. Mas está estável. Está vivo.
Aperto de mãos. Olhar. Não havia necessidade de palavras grandiosas naquele momento. A comunicação passou pelo entrelaçar de seus dedos, pela forma como os olhos de Olívia escaneavam seu rosto, buscando sinais de sofrimento, e pela forma como Ian fechou os olhos por um segundo, concentrando toda a sua força existente em simplesmente sentir aquele contato. Ela estava ali. Eles estavam a salvo. O resto era ruído.
Horas mais tarde, ou talvez minutos — o tempo na UTI era elástico —, o cirurgião-chefe entrou. Sua explicação foi clínica, direta. Trauma balístico grave. Clavícula fraturada. Pulmão perfurado, reparado. Perda sanguínea significativa. A bala por um triz. Ian ouviu, impassível, mas cada termo técnico era um martelo batendo na realidade de sua nova condição. Recuperação longa. Múltiplas cirurgias de reconstrução possíveis. Fisioterapia intensa. Dependência total, por semanas.
Dependência. A palavra ecoou dentro dele mais forte que qualquer outra. Ian Moretti, o homem que construía e desfazia impérios com um aceno, que nunca precisou de ninguém para nada, estava reduzido a um corpo frágil preso a tubos, incapaz de se sentar sozinho. A impotência era um veneno novo e amargo.
Olívia viu a tempestade passando por seus olhos. Viu o queixo se firmar, a frustração se instalar. Quando o médico saiu, ela se aproximou novamente.
— Vai passar — ela disse, sua voz suave mas inquestionável. — É só uma fase. Você vai se recuperar.

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