O silêncio na sala de armazenamento era agora carregado de um eco diferente. O som da respiração ofegante dos dois se acalmou, substituído por uma quietude densa, preenchida pelo calor dos corpos ainda entrelaçados e pelo cheiro do sexo no ar abafado.
Matheus estava recostado na parede, com Carla entre seus braços, o rosto dele enterrado na curva de seu ombro e pescoço. Seus lábios, agora macios, traçavam padrões aleatórios em sua pele, beijando cada centímetro que podiam alcançar. Um arrepio percorreu a espinha de Carla, seguido por um riso baixo e involuntário que escapou de seus lábios. Era um som leve, quase deslocado naquele mar de intensidade recente.
— Para — ela murmurou, sem força real na voz, sua cabeça recostada no peito dele.
Ele não parou. Apenas sussurrou contra sua pele:
— Nunca.
O riso dela morreu. A realidade, com todas as suas perguntas incômodas, começou a infiltrar-se novamente na névoa quente do desejo. Ela deixou o pensamento escapar antes que pudesse detê-lo.
— O que será agora, Matheus? O que isso... significa?
Ele parou seus beijos e levantou a cabeça. Na penumbra, seus olhos verdes captavam a fraca luz que vinha da fresta da porta, brilhando com uma seriedade intensa. Ele a encarou, sua mão subindo para afastar um fio de cabelo suado de seu rosto.
— Agora somos nós — ele disse, a voz grave, mas surpreendentemente clara. — Os dois. Vou lutar por isso, Carla. Não vou errar de novo.
Ela sentiu um nó se formar em sua garganta. Queria acreditar. Desesperadamente. Mas o medo era um velho conhecido.
— Eu quero acreditar nisso. Mas... não aceito mais decepção. Não sobreviveria a outra.
Ele fez que sim com a cabeça, seu rosto sombrio.
— Eu sei. E por isso não vou fazer promessas vazias. Não acredito nelas. — Ele fez uma pausa, procurando as palavras certas. — Vou... permanecer. Porque não quero perder a única coisa verdadeiramente boa que apareceu na minha vida depois de anos e anos. Só que... — A palavra saiu carregada de um vazio profundo.
Carla sentiu um aperto no peito.
— Só que o quê, Matheus?
Ele suspirou, e seu corpo parecia tensionar-se ao seu redor. Ele se afastou um pouco, o suficiente para poder olhar em seus olhos.
— Só que, antes de qualquer coisa... antes de nós podermos construir algo que realmente funcione, eu preciso ajudar a organizar toda a bagunça que se formou. Preciso esperar o Ian se recuperar cem por cento.
Ela ficou imóvel. Não era a resposta que esperava. Um fio frio de desapontamento passou por ela.
— Então a prioridade ainda é ele.
— Não — a negação dele foi rápida e cortante. Ele agarrou seu rosto com as duas mãos, forçando-a a mantê-lo no olhar. — Não tem nada a ver com prioridade, Carla. Tem a ver com... dívida. Tem a ver com a vida.
Carla observou a sombra que passou por seus olhos. Havia uma história ali. Muito mais do que ela jamais imaginou.
— O Ian... ele já te salvou de algo, não é?
A expressão de Matheus se fechou por um segundo, como se estivesse lutando para manter os demônios na baía.
— Você não sabe quase nada sobre mim — ele afirmou, não como uma acusação, mas como um fato triste.
— Então me conta.
Ele pareceu hesitar, engolindo em seco. Quando falou, sua voz estava mais baixa, rouca de memórias.
— Eu não vim de um lugar bom, Carla. A vida... me tratou mal desde cedo, minha família ainda mais. Fiz escolhas ruins, me envolvi com gente pior. Cheguei a um ponto onde a única saída que eu via era... sumir ou ser morto. De verdade. — Ele fechou os olhos por um breve momento. — Foi o Ian quem me encontrou quando estava sendo fechado em uma rua sem saída. Ele me encontrou, não com julgamento, não com pena. Com uma mão estendida. Ele me tirou daquele buraco. Não me deu um emprego. Me deu um propósito. Uma chance de ser alguém que não tinha vergonha de ver no espelho. Ele é... o melhor e único amigo que eu já tive.
Carla ficou sem palavras. A história era mais sombria e mais profunda do que qualquer coisa que ela pudesse ter concebido. A lealdade feroz de Matheus, sua devoção quase fanática a Ian, de repente fazia todo o sentido. Não era apenas profissionalismo. Era gratidão pela própria vida.
Ela colocou sua mão sobre a dele, que ainda estava em seu rosto.
— Eu entendo — ela sussurrou, a voz embargada. — E você está certo. Este não é o momento para... para nós. A Olívia precisa de mim. O Ian precisa de você. Tudo está desmoronando.

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