O corredor do hospital pareceu esvaziar depois que Rafael sumiu de vista, deixando para trás apenas o eco da tensão que ele trouxera. Carla respirou fundo, tentando recuperar o controle sobre seus nervos vibrantes. A intervenção de Matheus foi uma ação de força pura, mas trouxe consigo um novo tipo de desorientação.
Ela se virou para ir embora, para encontrar Olívia, para fugir daquele corredor e de tudo que ele representava, mas os passos pesados de Matheus a alcançaram antes que pudesse dar dois metros.
— Quem é ele?
A pergunta veio de cima, uma batida baixa e carregada de um ciúme que ele nem tentou disfarçar. A possessividade no ar era tão densa que podia ser cortada com uma faca.
Carla parou, mas não se virou. A raiva, sempre à flor da pele quando ele estava perto, acendeu como um pavio curto.
— Não é ninguém — ela respondeu, a voz gelada. — Assim como você.
Ela continuou a andar, tentando ignorar o tremor que percorria suas pernas. A rejeição era uma faca, e ela a usou com precisão cirúrgica.
Mas Matheus não aceitou. Em dois passos largos, ele estava ao seu lado. Sua mão grande e quente envolveu seu braço com uma firmeza que não era violenta, mas inescapável.
— Carla — o nome saiu como um aviso.
Ela tentou se soltar.
— Me solta, Matheus.
Ele não soltou. Em vez disso, com uma decisão que deixou claro quem controlava aquele espaço, ele a guiou — ou puxou — para uma sala de armazenamento de equipamentos limpos, ao lado. A porta fechou-se com um clique baixo, mergulhando-os em uma semi-escuridão, iluminada apenas pela luz que passava pelas frestas da porta. O cheiro era de roupa limpa e desinfetante.
Antes que Carla pudesse protestar, ele a virou e a prensou contra a parede fria de azulejo. Seu corpo, grande e sólido, bloqueava qualquer saída. Seus olhos, agora adaptados ao escuro, faiscavam com uma emoção crua.
— Você não faz ideia do que está fazendo comigo — a voz dele saiu rouca, quase um rosnado. — Do que está me fazendo sentir. E quando eu vi aquele merda se aproximando de você… quando eu vi você encolhida, com medo… Eu… — Ele não terminou, como se as palavras fossem insuficientes.
O coração de Carla batia tão forte que ela temia que ele pudesse ouvir. O medo se misturava a uma atração avassaladora, a uma fúria antiga.
— Você se sentiu impotente? — ela cuspiu as palavras, seus olhos queimando no escuro. — Se sentiu descartado? Invisível? Bem-vindo ao clube, Matheus. Agora você sabe exatamente como eu me senti quando você me deixou esperando sozinha naquele restaurante, como uma idiota, com meu vinho e minhas esperanças esfriando.
Ele soltou um bufado de incredulidade.
— Você vai mesmo trazer isso à tona agora?”
— Vou, sim! — a voz dela quebrou, toda a mágoa acumulada transbordando. — Aquela noite… aquela foi a noite que você implorou. A sua ‘chance’. O seu pedido de desculpas oficial por ser um monstro emocional. Você disse que estava pronto. Que íamos fazer dar certo. E eu, como uma otária, acreditei. E você simplesmente… não apareceu. Nem um telefonema. Apenas uma mensagem de texto de merda horas depois!
O rosto de Matheus se contorceu. A raiva nele era agora misturada com algo mais profundo, mais sombrio: culpa, vergonha.
— Eu não pude ir, Carla! Eu não pude.
— Porque o trabalho do Ian sempre vem primeiro! — ela gritou, baixo, mas com intensidade. — Sempre!
— Não foi pelo Ian! — ele explodiu, seus punhos se fechando ao lado da cabeça dela, batendo levemente na parede. — Foi pela Valentina! A minha maldita ex-mulher. Ela estava ameaçando Olívia e eu precisei contê-la, mas ela sempre soube como mexer com a minha cabeça dele. E enquanto eu lidava com aquele drama, olhando para aquela mulher que destruía tudo que tocava… eu comecei a pensar. Eu comecei a me perguntar se eu… se eu não era igual a ela. Se eu não ia destruir você. Se uma pessoa como eu, com o passado que eu carrego, com o trabalho que eu faço… se eu realmente merecia alguém como você. E a resposta que eu encontrei foi não. Eu não merecia. Por isso eu não fui.

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