A luz da tarde entrava suavemente pelo janelão do quarto de Ian, pintando o ambiente branco com tons quentes de âmbar. Pela primeira vez desde o tiro, o ar não cheirava apenas a antisséptico e medo. Havia um frasco de água com flores do campo (colhidas por Léo no jardim do hospital) e um leve aroma de café fresco que Carla conseguira fazer na sala de visitas.
Ian estava sentado na cama, apoiado por pilhas de almofadas. A palidez ainda estava lá, assim como as sombras sob seus olhos, mas havia uma lucidez e uma serenidade em seu olhar que não existiam antes. Olívia estava ao seu lado, em uma cadeira puxada para perto, seus dedos entrelaçados com os dele sobre os lençóis. Era um quadro de paz conquistada, frágil, mas real.
Matheus mantinha sua postura vigilante perto da porta, mas sua atenção não estava apenas no corredor. Seus olhos, de maneira quase involuntária, seguiam Carla, que ajudava Léo a desembrulhar um novo quebra-cabeça no tapete. O menino estava mais calmo, concentrado nas peças coloridas.
A paz foi quebrada por um pedido inesperado. O segurança na porta do corredor anunciou pelo interfone:
— Senhor Ian, a detida Clara pede, com insistência, para falar com o senhor. Por cinco minutos. Ela está sob escolta.
Um silêncio pesado caiu sobre a sala. Olívia apertou a mão de Ian.
— Você não precisa. Eu posso mandá-la embora.
Ian pensou por um momento, seu olhar perdido na luz da janela.
— Não — ele disse, sua voz ainda um pouco fraca, mas clara. — Que venha. Preciso olhar nos olhos de todos os fantasmas antes de fechar as portas.
Clara entrou alguns minutos depois, flanqueada por dois guardas. Vestia roupas simples, suas mãos algemadas à frente descansavam sobre a barriga proeminente. Seu rosto estava marcado pelo medo e pela vergonha. Ela parou a alguns metros da cama, incapaz de erguer o olhar.
— Ian… — a voz dela saiu como um sussurro rouco. — Eu… eu não vim pedir perdão. Sei que não tenho direito. Vim para devolver algo que não é meu. — Com as mãos trêmulas, ela tirou do bolso do vestido um envelope amarelado e dobrado. Um dos guardas pegou e entregou a Ian.
— É da Alberta — Clara explicou, os olhos finalmente se erguendo, cheios de lágrimas. — Ela me deu naquela noite, antes de… de tudo. Disse que se algo acontecesse com ela, eu deveria tentar entregar a você. Ela… ela escreveu antes da loucura tomar conta de vez.
Ian abriu o envelope com cuidado. A caligrafia era trêmula, às vezes quase ilegível, mas a força do sentimento transpassava o papel.
"Ian,
Se está lendo isso, é porque meu coração parou de bater, ou minha mente finalmente desistiu de lutar. O ódio que plantaram em mim cresceu como um mato venenoso, e eu deixei. Deixei envenenar meu filho, Alexander, com a mesma raiva.
Mas quero que saiba: em algum lugar, no fundo do que ainda era são em mim, eu sempre soube. Você não era como eles. Vi a dor nos seus olhos quando era menino, a mesma dor que o seu pai carregava e transformava em frieza para não deixar demonstrar. Você tentou ser diferente. Tentou sentir. Reagir. E conseguiu.
Não tenho direito a seu perdão. Nem o peço. Só quero que saiba que o ódio que o atingiu não era só por você. Era por Nicolau, até pelo seu pai, e por todos os Moretti que me esmagaram. E você era o último que restava em pé.
Talvez, se o destino fosse mais gentil, poderíamos ter sido aliados contra o monstro que eles criaram. Em vez disso, nos tornamos inimigos.
Largue esse fardo. O ódio é um peso que só esmaga quem carrega. Eu carreguei até quebrar.
Que você consiga fazer o que eu nunca fiz: ser livre.
Alberta."

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Nosso Filho, Meu Segredo: O Contrato Proibido