O despertador foi o silêncio. Não o silêncio do sono, mas o silêncio denso e vigilante que emanava da poltrona perto da porta. Carla abriu os olhos, o corpo ainda pesado e dolorido da exaustão emocional, mas a mente alerta, puxada de volta à realidade pelo mesmo instinto que sentira a ameaça de Rafael.
Ele estava lá. Matheus. Sentado ereto na poltrona de veludo, não relaxado, mas em uma postura de prontidão absoluta, como um soldado em vigília. A primeira luz do dia, forte e dourada agora, cortava a sala e iluminava seu perfil, revelando olheiras escuras e uma mandíbula tensionada. Ele não dormira. Nas mãos, segurava um tablet, a luz fria da tela refletindo em seus olhos, que se moviam rapidamente, absorvendo linha após linha de texto.
Ela sabia, com uma certeza que gelou seu estômago, o que ele estava lendo. O dossiê. As informações sobre Rafael. A máquina que ele ativara enquanto ela dormia já estava produzindo resultados.
Carla sentou-se na cama, os lençóis caindo ao seu redor. O medo que sentira no restaurante era um frio agudo. O que sentia agora era um frio mais profundo, mais insidioso. O medo do que ele era capaz. O medo de ser o rastilho que acenderia uma violência ainda maior.
— Matheus.
Ele ergueu os olhos da tela instantaneamente. Nenhum sinal de surpresa. Toda a sua atenção, que antes estava no dispositivo, convergiu para ela. O olhar era pesado, carregado de informações que ela não tinha.
— Você não dormiu — ela disse, uma afirmação, não uma pergunta.
Ele não respondeu. Apena pousou o tablet no colo, mas não o desligou.
Carla engoliu em seco, forçando as palavras que precisavam sair.
— O que você vai fazer?
Matheus a observou por um longo momento, como se medisse sua força, sua determinação. Quando falou, sua voz estava rouca pela falta de sono, mas incrivelmente clara.
— O que você quer que eu faça? — A pergunta não era retórica. Era um oferecimento. Uma transferência de poder. — Eu posso destruí-lo. Financeiramente. Até o último centavo de suas contas fantasmas e investimentos sujos. Profissionalmente. Até o último diploma na parede virar pó e sua licença médica ser um pedaço de papel queimado. Fisicamente. — Ele fez uma pausa mínima, e o ar na sala pareceu rarefazer. — Até que ele seja apenas um aviso para qualquer um que pense em chegar perto de você. A escolha é sua.
Era um teste. Um teste terrível e necessário. Ele estava entregando a ela o controle sobre sua própria vingança, sobre a própria natureza da fúria dele. Ele se colocava como uma arma, e dava a ela o dedo no gatilho.
Carla sentiu um nó se formar na garganta. A imagem de Rafael, destruído, humilhado, apagado, era tentadora. Uma parte primitiva dela sussurrava sim. Mas uma parte maior, a parte que ainda carregava as cicatrizes da violência passada — não a de Rafael, mas a de perder seus pais, a de um mundo que desabava em sangue —, se encolheu.
Ela não queria mais destruição em seu nome. Não queria ser o motivo de outro homem se afundando na escuridão, mesmo que ele merecesse. Queria que a sombra de Rafael sumisse. Que ele deixasse de ser uma ameaça, uma presença. Que se tornasse irrelevante.

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