O volante do BMW sedã cheirava a limpador de couro caro e ao suor ácido das mãos de Rafael Tavares. Ele não conseguia parar de apertá-lo, os dedos brancos de tensão, enquanto dirigia em velocidades irregulares pelas ruas ainda adormecidas da cidade. O ar-condicionado soprava frio, mas uma onda de calor vergonhoso e raivoso subia de seu peito até seu rosto, deixando suas orelhas ardentes.
Aquele desgraçado. Aquele animal.
A imagem do homem — Matheus, ele ouvira Carla murmurar — invadia seus pensamentos como um vírus. A estatura, os olhos frios, a voz que não pedia, ordenava. E o pior: o toque. A mão no peito de Rafael não tinha sido um empurrão, tinha sido uma declaração de soberania. Uma demonstração de força tão casual, tão desdenhosa, que doía mais que um soco.
E Carla. Sua Carla. Escondida atrás daquele brutamontes como uma criança assustada. O olhar dela… não era de medo do homem, era de vergonha. De ver Rafael ali. Como se ele fosse a obscenidade.
"A conquista que fugiu.” Era assim que ele a catalogava em seu íntimo. Carla representava uma rara derrota em sua coleção de troféus femininos. Ela não apenas descobrira a verdade, como teve a audácia de sumir, de se fechar para ele, de agir como se fosse melhor que ele. E agora, aparecia com um guarda-costas da alta sociedade, um cão de guarda dos Moretti, vestindo ares de dono.
A aparição não foi coincidência. Ele a seguira. Há semanas, desde que a vira no hospital acompanhando a amiga, a obsessão adormecida reacendera. Ele a observara, descobrira que estava sempre perto daquela mulher, Olívia, no centro do furacão Moretti. E hoje, quando a vira entrar no hotel chique com o segurança, algo dentro dele rachou. A inveja foi um suco verde e venenoso escorrendo garganta abaixo.
Rafael não era apenas um canalha charmoso. Era um produto de um sistema podre, e aprendera a jogar sujo. Cirurgião de sucesso para a elite, sim, mas seu verdadeiro talento estava nas sombras. Sabia como desviar materiais de grau hospitalar para clínicas ilegais através de fornecedores duvidosos — homens com antecedentes e contas em paraísos fiscais. Sabia como redigir relatórios pós-operatórios que transformavam negligência em “complicações infelizes, porém raras”. Tinha um advogado caro e discreto para acordos extrajudiciais e um débito de favores com pessoas que não frequentavam as mesmas festas de gala que ele.
Estacionou em um ponto escuro perto de seu apartamento de solteiro (um apartamento que a esposa não conhecia), mas não saiu do carro. Em vez disso, pegou seu telefone particular, não o do consultório.
— Preciso de informação — disse quando a ligação atendeu, sem saudação. — Um homem. Matheus. Segurança chefe dos Moretti. Ex-militar, provavelmente. Tudo o que puderem encontrar. Histórico, antecedentes, pontos fracos. Discretamente. O orçamento é o de sempre.
Do outro lado, um homem de voz rouca anuiu. Eram conexões de seu fornecedor mais duvidoso, homens que tinham acesso a informações que não estavam em registros públicos.
Desligou e começou a pesquisar por conta própria no celular.
“Moretti escândalo.” “Ian Moretti segurança.” As notícias eram uma mina de ouro. O império em frangalhos, o herdeiro baleado, a teia de corrupção e vingança. E em várias fotos, ao fundo ou na borda do frame, lá estava ele. Matheus. O rosto impassível, os olhos sempre alertas, o corpo sempre posicionado como uma barreira.

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