O silêncio que se seguiu ao telefonema do assessor não era de surpresa, mas de uma compreensão nauseante. O ar no salão, antes quente com amor e música, esfriou instantaneamente. Olívia olhou para Ian, sua expressão um misto de confusão e alarme.
— Fraude em laudos? Desvio de materiais? O que isso tem a ver com a gente? E com a Carla? — Olívia perguntou, sua voz um fio acima de um sussurro.
Foi então que Carla, pálida como a cera, explodiu do corredor para dentro da sala. Seus olhos estavam arregalados, as mãos tremendo visivelmente.
— Olívia, por favor, você tem que acreditar em mim! — A voz de Carla saiu em um turbilhão de palavras, cortadas pela ansiedade. — Nada daquilo é verdade! Eu não tenho nada a ver com desvio de material, eu não… ele está inventando, ele está tentando me queimar!
Olívia imediatamente se levantou e foi até a amiga, envolvendo-a em um abraço.
— Cala a boca, claro que eu acredito em você. Respira. — Seu olhar, no entanto, foi para Ian, buscando apoio, mas encontrou cautela.
Ian observava a cena, seus olhos analíticos passando de Carla para a porta, onde Matheus agora entrava, seu rosto uma máscara de fúria contida tão intensa que parecia distorcer o ar ao seu redor. A postura de Ian mudou. Não era mais o noivo relaxado. Era o CEO, o estrategista, aquele que já vira mentiras demais para não desconfiar.
— Carla — Ian começou, sua voz calma, mas firme. — Precisamos de contexto. Quem é 'ele'? O que está acontecendo?
Matheus não esperou. Avançou alguns passos, seu corpo largo bloqueando parte da luz da janela. A raiva nele era um animal preso, e cada palavra que saía era um rosnado controlado.
— Rafael Tavares. Cirurgião. Um lixo humano que se acha um deus. — Ele cuspiu o nome. — O hospital onde ele opera, o São Lucas, tinha Nicolau na presidência do conselho por décadas. Era um poço de corrupção e acordos por baixo dos panos. Rafael era um dos que prosperavam naquele esgoto.
Ian cruzou os braços, seu olhar fixo em Matheus.
— Continue.
Matheus lançou um olhar rápido para Carla, um misto de proteção e uma pergunta silenciosa. Ela, ainda agarrada a Olívia, fechou os olhos e assentiu, uma lágrima escapando.
— Ele teve um caso com a Carla. Mentiu, disse que era solteiro. Ela descobriu que ele era casado, tinha filhos. Ele virou o jogo, a manipulou, a assediou depois que ela cortou relações. — A voz de Matheus estava carregada de um desprezo visceral. — E ontem, no hotel, ele apareceu. Enfiou a mão suja dele no nosso momento. Ameaçou. E hoje, ameaçou de novo por telefone. Disse que se eu não parasse, ele contava 'tudo' para a imprensa. Sobre Carla, sobre os Moretti.
Carla engasgou, limpando o rosto.
— Ele disse… disse que ia me destruir. Que ia me deixar sozinha. E que para isso, não se importava se todos aqui caíssem junto. Ele quer me isolar. Me fazer voltar para ele, quebrada.
Ian processou a informação. Seu olhar, que estava cauteloso, endureceu. A peça do tabuleiro que ele não enxergava agora se encaixava. Era um inimigo pequeno, mas venenoso, e que, em seu pânico, decidira atacar o território errado.
— Parar? — Ian perguntou, voltando-se para Matheus. — Parar o quê?
Sem uma palavra, Matheus tirou de dentro de seu casaco a pasta marrom fina que recebera de K. Estendeu-a para Ian.
Ian pegou-a, abriu. Seus olhos, ágeis e acostumados a analisar contratos complexos, percorreram as páginas. Fotos, extratos, laudos forjados, o caso abafado de negligência. Cada página era um degrau na escada da ruína de Rafael. Um plano meticuloso de aniquilação profissional e social.

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