O celular vibrava na mão de Olívia como se fosse um presságio. Ela olhou para a tela e sentiu o coração parar. O nome de Helena piscando ali. O coração dela disparou de imediato.
Por um instante, não conseguiu atender. A respiração falhava. O suor frio escorria pela nuca.
Ela já sabia que não podia ser nada bom.
Com as mãos trêmulas, deslizou o dedo na tela.
— H-Helena? — a voz saiu falha, quase um sussurro quebrado;
Do outro lado, a enfermeira soava séria, o tom firme, embora carregado de tensão, mas sem espaço para rodeios:
— Senhora… o quadro do Léo se agravou. Os médicos informaram que, pela fragilidade dele, será necessária uma transfusão de sangue durante a cirurgia urgente. Precisamos de doadores, agora.
O mundo pareceu se inclinar. O chão sumiu sob os pés de Olívia. Ela levou a mão ao peito, tentando segurar o coração que batia em desespero, como se assim pudesse controlar a respiração que falhava.
— Eu… eu posso doar! — a resposta veio automática, sem pensar, as palavras se atropelando, desesperadas. — Eu dou tudo, todo o sangue que ele precisar, Helena! O sangue é meu, é do meu filho!
Um breve silêncio. Helena respirou fundo, tentando manter calma. Depois sua voz surgiu suave:
— Senhora, vamos precisar de mais pessoas. Não só por causa da quantidade, mas da compatibilidade. Cada minuto conta. É um procedimento delicado e precisamos de reservas. Todos os possíveis doadores terão de passar por testes de compatibilidade. Quanto mais candidatos, melhor.
Olívia assentiu, mesmo que Helena não pudesse vê-la. Seus joelhos vacilaram. Encostou-se na parede da cozinha, respirando rápido.
— Eu vou agora. Eu vou, Helena.
Ela desligou com mãos trêmulas.
Sem pensar, saiu quase correndo da cozinha, empurrando a cadeira para trás. Ian a seguiu de imediato, preocupado.
— O que aconteceu?
Ela girou para ele, os olhos marejados.
— Léo… — a voz dela quebrou, os olhos marejando. — Ele precisa de sangue. Uma transfusão. Agora! — falava rápido, em choque, as palavras se atropelando. — Ian, eu… eu não sei o que isso significa, eu não sei se ele piorou, eu não sei se ele vai… — a voz quebrou, e ela levou as mãos ao rosto, sem conseguir terminar.
Ian segurou seus braços com força suficiente para que ela parasse de tremer, tentando ancorá-la.
— Olivia. — chamou, firme. — Olha pra mim.
Ela levantou os olhos, perdida.
— Respira. Ele vai ficar bem. Nós vamos resolver isso.
Mas antes que ela pudesse responder, perceberam que não estavam sozinhos. Uma voz grave atravessou o espaço.
— Uma transfusão?
Olívia congelou. Queria correr, fugir daquele olhar que parecia atravessar pele e ossos.
Só naquele momento percebeu: Nicolau estava sentado em sua poltrona na sala, como um rei observando seu reino em silêncio. Ao lado dele, Benjamin, os olhos atentos.
Os dois os encaravam.
Benjamin se adiantou, quase teatral, inflando o peito. Clara não estava ali, mas o veneno dela parecia pairar no ar, como se Benjamin falasse também por ela.
— Eu vou. Faço os exames agora mesmo. Se sou o pai dele, é claro que vou doar.
Olivia estava prestes a gritar, quando Nicolau ergueu a mão devagar, sem pressa, mas com autoridade absoluta.
— É isto. Apenas os Moretti primeiro. O sangue de fora não tem lugar aqui.
Ian se virou para ele de imediato, os olhos faiscando.
— Isso é um ridículo! — a voz subiu, pela primeira vez mais alta que a do avô. — Se o menino precisa, qualquer pessoa pode ajudar. Isso não tem nada a ver com sobrenome. Tem a ver com salvar a vida do garoto.
— Não é culpa sua. Mas agora, precisamos testar outros doadores.
Ian deu um passo em direção a Olivia, mas se conteve, porque o seu sobrinho havia acabado de entrar naquela sala. Ian percebeu que ele os seguiu e chegou bem depois deles.
Benjamin então se adiantou:
— Então testem o meu! — quase gritou, como se fosse uma ordem.
O médico assentiu. Mais minutos que pareceram horas.
Silêncio. O resultado saiu rápido.
— Incompatível. — anunciou o médico.
Benjamin fechou os punhos, frustrado. Recuou, o rosto vermelho de raiva.
— Isso é ridículo, não faz sentido! Eu sou o pai dele! — cuspiu as palavras, carregado de raiva e encarou Olivia com rancor.
Olívia sentiu o peso daquelas palavras, o peito apertando. Mas não conseguiu responder. Apenas fechou os olhos, tentando não desmoronar. Ela realmente não tinha tempo para Benjamin agora.
Ian, imóvel até então, caminhou devagar até a mesa do médico.
— Teste o meu.
Silêncio.
Mais alguns minutos. Cada segundo uma eternidade. O tempo pareceu se arrastar até que o médico retornou com os papéis nas mãos.
E então veio a frase que mudara tudo:
— Senhor Moretti... o senhor é compatível.

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