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Nosso Filho, Meu Segredo: O Contrato Proibido romance Capítulo 56

Olivia se aproximava da cozinha em passos lentos, quase arrastados, mas firmes o suficiente para que Ian percebesse sua chegada. Ele ergueu os olhos de imediato, o olhar agudo, atento demais, como se pudesse decifrar até o silêncio dela. Um segundo, apenas, e já era claro: ele estava em alerta.

Por um instante, parecia que Ian tentava calcular se ela tinha ouvido algo.

Nicolau, ainda parado perto da geladeira com a jarra de água na mão, foi quem quebrou a tensão.

O patriarca desviou o olhar de Ian para Olivia, demorou-se por um segundo em seu rosto, exausto, cansado, mas ainda firme, e, sem dizer nada, passou por ela. Apenas o arrastar elegante dos sapatos pelo mármore. Nenhuma provocação, nenhuma ameaça. Só um silêncio pesado, como se dissesse mais do que qualquer palavra.

Olivia agradeceu em silêncio, agradeceu em pensamento, mesmo que nunca o admitisse em voz alta. Talvez Nicolau tivesse visto no rosto dela a exaustão. Talvez soubesse que havia limites até para ela.

O som distante dos passos de Nicolau se dissolveu no corredor, deixando atrás de si apenas o eco frio de sua presença. A cozinha voltou a ficar em silêncio, iluminada pela luz amarelada da luminária sobre a mesa, que lançava sombras longas contra as paredes de mármore.

Quando o barulho dos passos dele desapareceu no corredor, Olívia respirou fundo, tentando processar. Seu corpo estava cansado, cada músculo clamava por descanso, mas sua mente estava em chamas. O que ouvira ainda latejava em seu peito. Ela sabia que havia algo naquela conversa entre Ian e Nicolau. Algo que a machucava sem nem mesmo compreender.

Deu alguns passos para dentro da cozinha. Ian a olhou imediatamente, como se cada movimento dela fosse uma ameaça.

Ele pousou o prato que segurava sobre a mesa, mantendo a expressão neutra, mas os olhos… os olhos denunciavam um alerta.

— Você está se sentindo melhor? — perguntou primeiro com a voz baixa, quase calma. Carregava um quê de preocupação que parecia deslocada naquele homem.

Olívia riu, mas foi um riso curto, amargo, que não chegou aos olhos.

— Melhor? — repetiu. — Depois de ver meu filho entrar em uma cirurgia de risco… depois de estar nessa casa que parece me devorar a cada segundo? Não, Ian. Eu não estou melhor.

Ele a observou por alguns segundos, quieto, como se cada palavra dela fosse um golpe que ele preferia suportar em silêncio. O livia ignorou, endurecendo a expressão e virou-se para ele.

— Sobre o que você e Nicolau estavam falando? — ela foi direta, sem rodeios.

Ian desviou o olhar, voltou-se lentamente para a panela que havia deixado no fogão e mexeu nela como se aquele gesto simples pudesse disfarçar o peso da pergunta.

— Mais um teste dele. Só isso. — respondeu, em tom seco.

— Ele já descobriu que tudo isso é uma farsa, não é? — insistiu, aproximando-se. — Não adianta tentar esconder de mim.

O silêncio foi a resposta inicial. A tensão veio em seguida. Ian apenas levou o prato até a mesa, mas seus movimentos estavam duros demais, como se cada passo fosse calculado para não revelar a verdade, um movimento ensaiado.

— É só mais um teste de Nicolau. — repetiu, desta vez sem olhá-la nos olhos.

Olívia sentiu o coração disparar. Apertou os dedos contra a mesa, os olhos queimando.

— Eu ouvi, Ian. — sua voz saiu rouca, quase um sussurro, apertando os punhos contra a mesa, os olhos queimando. — Ouvi quando ele disse que, se você assumisse que era uma farsa, ainda poderia conseguir a herança. Não é isso que você sempre quis? Então por que ainda está insistindo nisso?

As palavras pairaram no ar, letais como um tiro.

Ian parou. Literalmente parou no meio do gesto. A mão que levava o prato à mesa ficou suspensa, imóvel. O silêncio que se seguiu era mais eloquente que qualquer resposta.

Por um instante, Olívia viu. Ele travou. As muralhas dele, tão bem construídas, tinham rachado. Dessa vez, não conseguiu esconder.

E, ainda assim, quando finalmente voltou a falar, a voz era fria, a máscara estava de volta, mas o olhar o traía:

— É só mais um teste de Nicolau. Agora coma.

Olívia fechou os olhos por um segundo, a exaustão transbordando. Não tinha forças para empurrar a discussão até o fim. Sua mente estava longe dali. A cabeça latejava, e o coração em outro lugar: com Léo, no hospital, em cada medo que latejava dentro da sua alma.

Mas a dúvida ficou plantada dentro dela como uma faca enfiada e deixada ali.

Sentou-se devagar. O cheiro da comida era agradável, mas o estômago estava revirado. Ela não queria comer. Mas Ian, do outro lado da mesa, observava com aquela expressão firme, quase uma ordem.

Ele apoiou-se na mesa.

— Não precisa comer tudo. — disse firme, puxando a cadeira. — Só tenta.

— Não tenho fome… — ela murmurou.

— Então coma porque precisa, não porque tem vontade. — rebateu, sem mudar o tom. — Quando Léo acordar, ele vai precisar de você forte.

Ela ergueu os olhos para ele, ainda tocada com aquela frase. O modo como ele dizia… não parecia estratégia. Parecia fé.

Ela suspirou, assentiu com a cabeça e perguntou:

— O que você fez?

— Risoto de cogumelos. — respondeu sem olhar para ela, simplesmente, como se fosse óbvio. — Lembra que você não comeu nada desde o jantar.

Ela o encarou, surpresa.

— Você cozinha... bem?

Ele deu de ombros.

— Eu fazia quando era garoto.

Ela pegou o garfo e experimentou. O sabor a surpreendeu: delicado, bem temperado, quase acolhedor. Por alguns segundos, esqueceu que estava na cozinha da mansão, que a comida tinha vindo das mãos de Ian Moretti.

— Está… muito bom. — disse, quase contrariada.

Ele apenas a observou, sem dizer nada. Como se aquele reconhecimento fosse mais do que ele esperava. Ele não reagiu com orgulho, não sorriu. Apenas a olhou em silêncio, e nesse olhar havia algo que a desarmava.

Ficaram ali por alguns minutos assim, em meio à meia-luz da cozinha, o silêncio preenchido pelo som dos talheres. Cada um perdido em pensamentos, até que Olívia, sedenta para distrair a mente de suas próprias inseguranças, lançou uma pergunta que vinha guardando há um tempo.

— Você sempre fala da sua mãe… mas nunca falou do seu pai. Onde ele está? Ele não mora aqui?

Quando voltou a falar, a frase foi baixa, quase para si mesmo, enigmática, e carregada de um peso que fez Olivia estremecer.

— Ou talvez eu seja o culpado. Ou a razão delas.

Olívia arfou, assustada. Em seguida o encarou, incrédula.

— O que você quer dizer com isso?

Mas Ian não respondeu. Ficou imóvel, uma sombra viva dentro daquela cozinha, prisioneiro de memórias que ela ainda não conhecia.

O silêncio entre eles se tornou sufocante. Carregado. Como se ali, naquele instante, a verdade estivesse tão perto… mas fosse perigosa demais para ser dita.

Olívia não ousou insistir. Tinha medo da resposta, medo do que poderia vir. Ainda assim, a garganta dela queimava com perguntas não feitas. O peito subia e descia rápido, mas o corpo estava paralisado.

Então, de repente, o som quebrou o ar.

Trriiim… trriiim…

O celular de Olívia vibrou sobre a mesa, iluminando-se com a tela acesa. O nome no visor fez seu coração despencar: Helena.

O mundo pareceu encolher de repente. A cozinha, Ian, as paredes, tudo ficou pequeno diante daquele nome piscando na tela.

Ela sentiu as mãos suarem, o corpo travar. O estômago se revirava, o ar preso no peito.

— É do hospital. — murmurou, a voz embargada, quase sem som.

Ian virou-se de imediato, o olhar afiado, atento a cada detalhe.

Mas Olívia… não conseguia. A mão pairava sobre o aparelho, tremendo. Ela sabia que precisava atender, mas parte dela gritava que não queria ouvir. Porque atender significava encarar a verdade.

O celular continuava a vibrar, insistente, cada segundo soando como uma martelada no coração dela.

Olívia fechou os olhos, os lábios trêmulos.

— Eu… não consigo.

Ian se aproximou, devagar, como se o silêncio fosse vidro prestes a se quebrar. Estendeu a mão até a mesa, puxou o celular para mais perto dela, e com a voz grave, firme, sussurrou:

— Você consegue, Olívia.

Ela abriu os olhos, encarou o aparelho piscando. O nome de Helena brilhava como uma sentença.

E então, antes que ele parasse de tocar, ela inspirou fundo, os dedos finalmente tocando a tela.

Atendeu.

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