O corredor branco do hospital parecia esticar-se infinitamente. O brilho das lâmpadas era cruel, refletindo no piso encerado como se quisesse expor cada sombra, cada detalhe. O bip distante de máquinas, o roçar dos sapatos de enfermeiros e o eco de vozes apagadas davam ao espaço a sensação de ser menos um hospital e mais um tribunal silencioso, onde o tempo julgava os vivos. Um cenário dolorosamente irreal.
Nicolau estava ali, imponente, como se não pertencesse aquele espaço, ou como se o espaço tivesse sido moldado para ele. O velho Moretti encostava-se a bengala com uma tranquilidade quase cruel, o olhar passeando de Ian para Olivia como quem assiste um espetáculo privado em um silêncio sufocante.
Ian estreitou os olhos, rompendo a tensão com uma voz baixa, porém cortante:
— Agora não é hora para seus enigmas, avô. O que veio fazer aqui?
Nicolau arqueou uma sobrancelha, um sorriso breve e enigmático surgindo em seus lábios.
— Qual o problema em visitar o hospital que eu mesmo fundei? — disse, a voz grave reverberando pelo corredor.
Olivia girou a cabeça, atônita.
— O senhor... fundou este hospital?
— Claro. — Nicolau disse como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — Todo pilar, cada ala. Foi erguido com meu dinheiro e, principalmente, com meu nome.
Olívia ficou em silêncio, tentando absorver. O lugar que agora tentava salvar a vida do seu filho carregava as marcas da família que tanto a sufocava.
Uma enfermeira surgiu apressada na porta.
— Senhor Moretti, precisamos que o senhor venha para a coleta.
Ian respirou fundo, lançou um último olhar desconfiado ao avô e depois a Olívia.
— Eu volto já. — Sua voz soou mais como uma promessa do que uma informação.
Ele entrou na sala, deixando Nicolau e Olívia sozinhos no corredor iluminado demais.
Olívia se sentou no banco de metal frio, as pernas dobradas e presas pelos braços em um abraço desesperado. O queixo encostado nos joelhos, os olhos perdidos, marejados, como se buscassem uma saída em meio àquele branco sufocante. Seus dedos, trêmulos, arranhavam o tecido da própria roupa, tentando encontrar algum ponto de firmeza.
Foi então que ouviu aquela voz.
— Como você está, minha filha?
Olívia ergueu o rosto devagar, como se tivesse sido arrancada de um transe. E quase não acreditou no que escutara.
Nicolau estava diante dela. Não o patriarca de olhar duro, não o imperador que ditava a vida e a morte na mansão, mas um homem de voz baixa, suave. Quase… paternal.
A voz dele não tinha o tom gélido e calculista que ela aprendera a temer. Era suave, quase paternal. Doce demais para vir dele.
Ela piscou devagar, confusa, os lábios se abrindo sem que nenhuma palavra saísse. Tentava decifrar se aquilo era real. Ficou tão surpresa que não conseguiu responder.
Ele a observava com uma expressão diferente, menos esculpida em pedra e mais humana, marcada por sombras que pareciam antigas demais.
— Está surpresa, não é? — a boca dele esboçou algo que poderia ser um sorriso, mas que se perdeu em amargura. — Não acostuma-se a me ouvir falar assim.
Olívia engoliu em seco, incapaz de responder.
Nicolau então se apoiou na bengala, respirou fundo, e a voz ganhou peso, como se fosse puxada de um abismo. Ele se aproximou um pouco, os olhos suavizados por uma sombra antiga.
— Eu entendo o que você sente. Mais do que gostaria.
Seus olhos se perderam por um instante, fixando algum ponto além do corredor, além do presente. Olivia piscou, desconcertada.
— Quando meu filho Vicente adoeceu… — a voz dele falhou por um instante, mas logo retomou firme, ainda que carregada de memória. — Pensei que o mundo estava me arrancando o ar. Foram meses de luta. Longos, cruéis. Viagens, médicos, tratamentos caros. Fiz de tudo. — A voz falhou, rarefeita. — E no fim... nada adiantou. A doença levou o que eu tinha de mais precioso.
A respiração de Olívia acelerou. O nome ecoou na mente dela. Vicente.
— Vicente… era o pai do Ian? — ela perguntou, hesitante.
O olhar de Nicolau voltou para ela, lento, pesado, antes de assentir em um movimento lento, quase solene.
— Sim. — A palavra foi quase um lamento.
Um silêncio cheio de dor pairou.
— Não me surpreende que não saiba o seu nome. Ian não gosta de falar sobre ele. — Nicolau recomeçou, os olhos endurecendo de leve. — Ele foi quem mais sofreu. Quem acompanhou cada minuto. Cada agulha, cada máquina, cada sopro que o pai dava. Quem viu a vida se esvair de um homem forte, até restar só um corpo frágil demais para carregar o nome que herdava. E não pôde fazer nada.
— Já terminou? — perguntou a Ian, seco, como se nada tivesse acontecido.
Ian assentiu, mas os olhos não saíam do avô. Havia desconfiança nítida ali. Ele percebia que algo escapara, que alguma troca se dera enquanto não estava presente.
Olívia, atordoada, não conseguiu dizer nada. O contraste entre os dois Nicolau que presenciara a deixara mais confusa do que nunca.
E, ao mesmo tempo, aterrorizada.
Só conseguia pensar: qual era o verdadeiro Nicolau? O monstro calculista que destruía a todos... ou aquele homem quebrado que falara da perda do próprio filho com quem ainda carregava a ferida aberta?
O corredor pareceu ainda mais pesado, o ar denso para respirar. Olívia ainda tentava se recompor depois daquela conversa quando o som ecoou: passos firmes, compassados, certeiros e de salto alto.
Não eram de enfermeiros. Não eram de médicos.
E antes mesmo de vê-la, Olívia soube.
O coração disparou, a respiração ficou curta.
Clara surgiu na ponta do corredor como quem desfilava em um palco. O salto marcava o chão, o perfume caro preenchia o ar, e o olhar dela vinha direto, certeiro, como uma lança.
Não havia surpresa. Não havia dúvida.
Clara tinha ido até ali para ser vista. Para destruir ainda mais uma Olivia já destruída.
Os olhos dela pousaram primeiro em Ian, depois em Nicolau, mas demoraram no rosto de Olívia. E o que trouxe foi um sorriso lento, venenoso, de quem se alimentava da dor alheia.
Olívia não precisou ouvir uma palavra. O corpo reagiu antes da mente.
Deu um passo à frente, os olhos faiscando, os punhos cerrados.
Foi como se todo o cansaço, toda a dor, toda a humilhação acumulada explodisse de uma vez.
— Você… — a voz dela saiu trêmula, carregada de ódio.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Nosso Filho, Meu Segredo: O Contrato Proibido