O hospital parecia prender o ar nos corredores. As luzes brancas eram intensas demais, o chão brilhava de forma quase cruel. Tudo ali gritava urgência, mas o tempo… o tempo parecia não andar.
Quando Clara entrou, não foi apenas sua presença que preencheu o espaço, foi o veneno que trazia nos olhos.
O salto dela ressoou pelo piso como se cada passo fosse um anúncio de guerra.
Olívia congelou. Por um instante, o instinto falou mais alto que a razão. Avançou um passo, o corpo trêmulo, a fúria queimando nos olhos.
— Você… — a palavra ficou suspensa, quebrada pela raiva.
Mas antes que pudesse fazer mais, Ian a segurou, prendendo-a contra o peito dele. O calor da raiva dela contrastava com a frieza calculada dele.
As mãos dele prenderam seus braços, firmes, quase bruscas, como um grilhão que a impedia de se jogar.
— Não. — ele disse, grave, a voz baixa, mas cortante.
Os olhos dele cravados nos dela exigiam controle.
Olívia se debatia, as lágrimas subindo com a fúria. — Você ouviu o que ela disse sobre o meu filho! Você ouviu! — o tom era de dor, não apenas raiva.
Clara riu. Um som agudo, venenoso, que cortava o ar.
— Filho de porcelana. — repetiu, como se saboreasse cada sílaba. — Frágil, prestes a se quebrar. Não é minha culpa se a verdade dói.
— Cala a boca! — Olívia explodiu, tentando se soltar.
Ian a puxou contra o peito, mais forte.
— Olivia! — chamou firme, quase uma ordem. — Não dê a ela isso.
Mas os olhos de Olívia ardiam. O peito subia e descia, acelerado, como se estivesse prestes a desmoronar.
Clara, indiferente, ajeitou o cabelo e soltou com frieza:
— Relaxem. Eu não vim atrás de vocês. Vim atrás do meu marido.
O silêncio foi como um soco.
Nicolau, até então apenas observando, ergueu os olhos devagar. A bengala repousava ao lado da poltrona. O olhar dele, frio e curioso, pousou sobre Clara.
— Marido? — perguntou, como se a palavra fosse uma peça de teatro mal ensaiada.
Clara ergueu o queixo, cheia de veneno e vaidade.
— Benjamin. Em breve, serei a esposa dele.
Olívia arfou, o coração disparado. O choque parecia se misturar com nojo.
Ian, por sua vez, não deu espaço para mais espetáculo.
— Ele está no refeitório. — disse, seco, cada palavra cuspida com impaciência. — Vai até lá.
Clara sorriu. Um sorriso afiado, que mais parecia uma lâmina atravessando Olívia.
Passou pelos três com calma, como quem desfilava. O perfume dela ficou suspenso no ar mesmo depois que desapareceu no final do corredor.
Olívia tremia, a raiva a corroendo por dentro.
— Eu… eu vou matar ela. — murmurou, quase inaudível, a voz embargada.
Ian virou o rosto para ela, suavizando o tom.
— Não. Você não vai se destruir por ela. — disse, e desta vez a voz não era ordem. Era quase um pedido.
Olívia fechou os olhos, tentando controlar a respiração. Mas o coração não obedecia.
No refeitório, o espaço estava quase vazio. Apenas alguns pacientes e acompanhantes passavam de longe.
Benjamin estava sentado numa mesa afastada, uma bandeja intocada à frente. Os olhos perdidos, o corpo largado como se o peso da noite tivesse sugado toda a força dele.
Quando Clara entrou, o salto ecoou de novo. Ele não se moveu de imediato, mas os ombros enrijeceram.
— O que você está fazendo aqui? — murmurou sem olhar, a voz rouca, carregada de cansaço.
Clara sorriu, venenosa.
— Eu que pergunto. Você some no meio da noite, me deixa nua naquele estúdio, e vem correndo atrás da Olivia? — a provocação saiu como chicote.
Benjamin ergueu o rosto devagar. O olhar não tinha ódio, não tinha fogo. Apenas cansaço.
— Eu vi quando ela falou da transfusão. Do desespero. — respirou fundo. — Eu pensei que talvez fosse minha chance. A chance de provar que Léo era meu.
Clara inclinou-se sobre a mesa, os olhos brilhando com expectativa.
— Você é podre.
Clara sorriu, amarga.
— Realista.
Ela se aproximou, quase roçando os lábios dele, mas a voz veio gelada, sussurrada.
— E se o filho dela sobreviver… o que eu espero que não… eu já sei como acabar com os dois.
Benjamin recuou, olhando-a como se tivesse visto um monstro.
— Ele é apenas uma criança.
— O que diabos aconteceu em você? De repente, mudou todos nossos planos? Vamos atingi-la, Benjamim. Não importa como, onde ou com quem.
Benjamin continuou a olhando, o olhar completamente diferente do que Clara estava habituada e ela odiou aquilo. Parecia um garotinho assustado. Patético!
— Você é doente.
Clara ergueu-se, ajeitou o vestido com calma.
— E é por isso que eu sempre consigo o que quero.
Virou-se, e o salto ecoou até desaparecer pelo corredor.
Benjamin ficou ali, sozinho, respirando fundo, o olhar perdido. Pela primeira vez, parecia mais derrotado do que perigoso.
Clara saiu do refeitório com os saltos estalando no piso liso do hospital. O veneno ainda borbulhava em seus olhos, mas agora havia também um brilho febril: a centelha de um plano tomando forma.
Ela se afastou do corredor principal, parando próximo a uma janela. O reflexo devolveu-lhe a própria imagem, impecável, controlada, como se nada daquilo a tivesse abalado.
Mas quando puxou o celular da bolsa, seus dedos tremiam de ansiedade.
Discou um número. Esperou apenas dois toques.
— Oi… — a voz dela saiu baixa, quase um sussurro, mas carregada de intenções.
Uma pausa. Um sorriso lento se formou em seus lábios.
— Tá disponível? Pode me encontrar agora?

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