O elevador parecia demorar séculos para chegar ao térreo. Ian estava com os ombros pesados, a mente ainda ecoando as palavras do avô e o gosto amargo da empresa. Mas nada pesava tanto quanto a mensagem curta que acabara de receber no celular:
“Venha agora.”
Ele não tinha mais paciência para enigmas. As pernas avançavam rápidas pelo saguão da torre Moretti, ignorando cumprimentos, olhares curiosos, até mesmo os seguranças que abriram caminho assustados com o semblante duro dele.
O motorista já esperava. Ian entrou no carro e, durante o trajeto até o hospital, não conseguiu parar de bater os dedos contra a perna. Cada farol parecia zombar da urgência.
A lembrança da mensagem martelava sem parar: venha agora.
Mas por quê? Algum bom aconteceu? A situação piorou?
Quando o carro parou, Ian saltou antes mesmo de o motorista abrir a porta. Seguiu apressado pelos corredores brancos, o coração batendo tão forte que parecia ecoar nos ouvidos.
Ian atravessou os corredores como se cada passo fosse um soco contra o chão. Os ombros em tensão, o rosto marcado pelo desgaste, mas nada disso importava. O que o fazia acelerar o passo era a mensagem urgente de Helena, aquela frase curta e cruel que martelava sem parar.
Ele atravessou a recepção como uma sombra, sem olhar para ninguém. O coração batia tão forte que parecia um aviso de explosão.
Quando encontrou Helena no fim corredor, o tom dele saiu mais áspero do que pretendia:
— O que aconteceu? — a voz grave, impaciente, mas os olhos denunciavam o medo e um possível desespero.
Helena, serena, ergueu o queixo com calma, ainda que seus olhos denunciassem preocupação.
— Não é o Léo. — respondeu primeiro, para acalmá-lo. — Ele continua sendo monitorado, mas até agora está estável.
O ar voltou aos pulmões dele, mas apenas por instante.
— Então, por que...? — ele começou, mas Helena o interrompeu com suavidade.
Só então, Helena acrescentou:
— Foi a Olivia. A pressão dela despencou. Teve um surto. Estava exausta, o estresse, o jejum há muito tempo... A ansiedade acumulada com a tensão da noite inteira… — suspirou. — O corpo não suportou. Mas agora ela está sendo medicada;
O coração de Ian voltou a acelerar, mas de outra forma. A raiva contra si mesmo por não estar ali, por ter a deixado sozinha.
Ian fechou os olhos por um segundo, como se precisasse de fôlego. Quando os abriu, havia apenas decisão.
— Onde ela está? — a voz saiu grave, firme.
— Quarto 204, mas, senhor… — Helena começou, como quem queria impedir. — Talvez seja melhor esperar a equipe sair. Ela precisa descansar. Talvez não seja o momento…
Ele não esperou. Não ouviu. Apenas caminhou. A porta já estava sendo aberta com a força de sua decisão.
A penumbra da sala o envolveu, iluminado apenas pela luz suave que vinha da lateral da cama. As janelas fechadas bloqueavam o sol nascente do lado de fora. O bip do monitor cardíaco, compassado em intervalos regulares, ecoava como se cada batida fosse um lembrete cruel da fragilidade dela. O cheiro do soro misturava-se ao da pele limpa.
E lá estava Olívia.
Deitada, Pálida. Um acesso no braço, soro pingando lentamente, marcando o tempo de sua exaustão. O rosto parecia mais frágil do que ele já vira durante toda aquela noite. Os cabelos soltos e negros contra o travesseiro, como se fossem fios quebradiços de uma boneca. A pele clara demais sob a luz artificial.
Não era a mulher altiva que enfrentava ele ou Nicolau. Não era a mãe guerreira que segurava o mundo por Léo. Era apenas… uma mulher cansada, no limite.
E aquilo quebrou Ian por dentro.
Naquele instante, algo nele despedaçou. Ele não a via apenas doente. Via o reflexo de si mesmo, porque a dor dela parecia atravessar sua pele e esmagar o seu peito.
Ele se aproximou devagar, cada passo mais pesado que o anterior, o coração apertado. Sentou-se no banco ao lado da cama, e pela primeira vez em muito tempo, hesitou. Não sabia como agir. Ele, que sempre tinha respostas, controle, domínio... agora parecia um menino perdido diante da vulnerabilidade dela.
Ficou um instante apenas olhando para ela. O peito dele ardia. Sentia que, se falasse alto demais, ela poderia se despedaçar.
A voz saiu baixa, quase um sopro:
— Como você está agora?
Os cílios dela se moveram devagar até se abrirem, pareciam pesados. Os olhos encontraram os dele por alguns segundos, sem dizer nada. Havia surpresa, havia dor… e havia um alívio silencioso em vê-lo ali.
— Sobrevivendo… acho. — murmurou, a voz fraca.
Ele soltou o ar pela primeira vez desde que entrou.
— Você me assustou. — confessou sem pensar, sem o filtro da frieza habitual.
— Ele vai sobreviver. — disse, com firmeza. — Porque ele tem você. E porque agora… — fez uma pausa, encarando-a nos olhos — ele também tem a mim.
O coração de Olívia disparou. Ela estremeceu completamente. Sentiu o ar faltar. O mundo inteiro desapareceu, restando apenas aquela frase. Não era um cálculo. Não era uma estratégia. Havia verdade demais ali.
Havia realmente algo ali. Algo que os dois fingiam não ver, mas que pulsava cada vez mais forte entre eles.
— Ian… — ela começou, mas não soube como terminar.
Porque Olivia só sabia que ali acabara de nascer mais uma coisa que a assustava completamente. Não era mais apenas a situação de Leo que a aterrorizava, mas agora, a forma como Ian a fazia se sentir.
Ele ainda segurava a mão dela. Mais forte. Mais presente do que qualquer palavra poderia ser.
Por alguns segundos, não houve hospital, nem cirurgias, nem guerra dos Moretti. Só dois corações batendo rápido demais, tentando se reconhecer no meio do caos. A quietude no quarto era tão espessa que quase se podia sentir.
As mãos entrelaçadas ainda ardiam com aquela eletricidade estranha, não só toque, mas promessa, vulnerabilidade, tudo misturado.
Olívia respirava mais devagar, tentando se agarrar àquela força que Ian, sem perceber, lhe passava. Os olhos dela buscavam os dele, como se finalmente admitisse que não conseguia mais carregar o peso sozinha.
Ian não se movia. Não soltava a mão dela. O rosto sério, mas o olhar… o olhar dizia coisas que ele não ousava colocar em palavras.
Por um instante, não havia mais avô, herança, nem máscaras. Só os dois. Só a dor dividida.
E então...
toc, toc.
A porta se abriu devagar, e o feixe de luz do corredor cortou a penumbra do quarto.
O médico entrou. O jaleco branco parecia ainda mais imponente sob a tensão que se instalou. O semblante sério, carregado, bastou para que o coração de Olívia disparasse outra vez.
— Senhorita Belmonte… senhor Moretti… — a voz dele soou grave, trazendo a realidade de volta como um soco. — Tenho notícias do Léo.
A mão de Olívia apertou a de Ian com força, quase dolorida.
Ele não se mexeu. Apenas sustentou aquele aperto, como se dissesse sem palavras: não importa o que venha agora, eu não vou soltar.

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