O beijo não aconteceu de repente.
Ele se formou como tempestade lenta, inevitável, crescendo entre silêncios e respirações presas. Quando os lábios de Ian tocaram os de Olívia, não foi choque, foi reconhecimento. Como se já tivessem se encontrado antes, em um tempo esquecido, em uma vida onde nada os separava.
O calor percorreu-a inteira, lento e devastador. O beijo não era apressado, não era uma faísca impensada. Era profundo, firme, cheio de peso. Ele a beijava como se tivesse esperado anos, como se guardasse aquele gesto em um cofre que agora se rompia.
E ela… ela correspondeu como quem se reencontra consigo mesma.
O gosto dele, ferro, café e silêncio, misturava-se ao dela, sal, medo e entrega. A respiração se confundia, os corpos se inclinavam sem que percebessem. O mundo desapareceu.
Por instantes, não havia hospital, nem cirurgia, nem Morettis, nem contratos ou dores antigas. Só havia aquela familiaridade inexplicável.
Quando finalmente se afastaram o suficiente para respirar, os olhos ficaram próximos, conectados. Ian parecia tão atônito quanto ela, mas não havia arrependimento no olhar dele, só intensidade. O peito dele subia pesado, e o dela tentava acompanhar, ofegante.
Foi nesse instante que a porta se abriu.
Um som simples, um ranger metálico suave. Mas cortou o momento com precisão.
Eles se afastaram de imediato, como se fossem dois culpados flagrados. Olívia recuou tão rápido que quase tropeçou no soro. Ian endireitou a postura, tentando recuperar a rigidez.
E, no vão da porta, surgiu Carla.
Ela não entrou de imediato. Ficou parada, observando. O olhar percorreu Ian, depois Olívia, depois voltou ao espaço entre os dois, ainda carregado de algo palpável. Um sorriso curto, enviesado, ergueu-se em seus lábios, mais ironia do que alegria.
— Atrapalho—? — perguntou, a voz suave, mas carregada de malícia.
Olívia sentiu o rosto queimar, o sangue subir até as orelhas. Não conseguiu sustentar o olhar.
— Pode parar, Carla… — murmurou, quase num pedido, quase numa ordem.
Ian virou-se devagar, ainda ofegante. A voz dele saiu grave, rouca do beijo que ainda queimava.
— Você… a conhece?
Olívia levantou os olhos apenas o suficiente.
— Sim. É… minha amiga.
Carla ergueu as sobrancelhas, satisfeita. Avançou alguns passos, o salto ecoando suave no chão.
— Carla. — disse, estendendo a mão para Ian, o sorriso controlado. — Muito prazer.
Ian olhou a mão estendida, depois Olívia, sem mover um músculo. Não pegou. O silêncio pesou.
Foi Olívia quem quebrou.
— Ian… pode ir. Estou bem.
Ele demorou a obedecer. Os olhos negros cravados nela, como se não confiasse em deixá-la. Por fim, assentiu e saiu, deixando o ar ainda mais denso atrás de si.
Assim que a porta se fechou, Carla se virou de vez para a amiga. O brilho nos olhos dela não era só curiosidade; era deleite.
— Então… o que foi isso? — a pergunta saiu com uma risada curta, quase musical, mas carregada de provocação.
Olívia levou a mão ao rosto, tentando esfriar o rubor.
— Não foi nada. — respondeu rápido, defensiva. — Eu não quero falar sobre isso.
Carla se aproximou mais, inclinando-se como quem não acredita em uma só palavra.
— Nada? — repetiu. — Olívia, eu acabei de ver. Vocês pareciam dois amantes reencontrados depois de anos. Você vai mesmo me dizer que não foi nada?
— Eu também não sei o que foi… — admitiu, a voz mais baixa, quase um sussurro.
Carla a observou por um instante, os olhos brilhando de excitação.
— Sabe, sempre achei que Ian Moretti era frio demais, inacessível. Mas hoje… eu vi ele tremer. Ele não parecia o Moretti que todos descrevem. Ele parecia… um homem.
Olívia desviou o olhar, o coração acelerado.
— Carla, por favor…
— Não, me conta. — insistiu, sentando-se ao lado dela, os cotovelos apoiados nos joelhos, o rosto próximo. — Desde quando isso acontece? Vocês estão juntos agora? Isso é sério?
— Não! — Olívia explodiu, mais alto do que pretendia. Logo baixou o tom, temendo que alguém ouvisse. — Eu… eu não sei. Foi um beijo, só isso.
Carla riu baixinho.
— Então eu digo o que significa. — Carla inclinou-se mais, os olhos fixos. — Significa que você não é mais a mesma. E ele também não.
Olívia sentiu o peso da frase. Ficou em silêncio.
E pela primeira vez, percebeu que talvez fosse verdade.
A conversa se arrastou por mais alguns minutos, Carla insistindo em especulações, Olívia desviando, tentando se proteger de algo que nem ela compreendia. Até que o apito suave da bomba de infusão soou, indicando o fim do soro.
Olívia retirou o acesso com calma, movida por um automatismo mecânico, e ajeitou o casaco sobre os ombros.
— Preciso ver o Léo. — disse, mais para si mesma do que para Carla.
Carla apenas assentiu, com aquele sorriso enigmático ainda preso nos lábios.
Olívia saiu do quarto. O corredor do hospital cheirava a desinfetante e silêncio tenso. Cada passo parecia arrastar uma dúvida, um peso. Seguiu até a recepção, o coração disparado de ansiedade por notícias.
Mas quando dobrou a esquina… parou.
Travou no lugar.
Ali, diante dela, estavam Ian e Carolina.
Os dois sentados próximos, como se o tempo tivesse retrocedido para um lugar onde ela não existia.
Ian inclinava-se para frente, o corpo quase tocando o dela, os olhos fixos, atentos. Ele parecia… interessado. Não era o olhar frio de conveniência, não era máscara de obrigação. Era interesse real.
Carolina sorria, e havia familiaridade no sorriso. Algo íntimo, compartilhado.
A cena caiu sobre Olívia como gelo.
O coração, que ainda batia no ritmo quente do beijo, se partiu em silêncio. O que ela vira minutos antes no quarto, promessas silenciosas, o primeiro sorriso dele, a sensação de reconhecimento, parecia agora uma ilusão frágil, desfeita diante da proximidade de Ian e Carolina.
O ar faltou. As mãos tremeram.
Ela não avançou. Não chamou. Não interrompeu.
Ficou parada, escondida pela coluna do corredor, apenas observando. E sentindo o mundo dentro dela ruir mais uma vez.

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