Ian saiu do quarto como quem atravessa fogo.
A porta se fechou atrás dele, mas não fechou o que queimava dentro do peito.
O beijo ainda ardia na boca, nos músculos, no pensamento. Ele odiava isso. Odiava perder o controle. Odiava sentir-se refém de algo que não sabia nomear.
Por que reagira assim?
Nunca fora homem de impulsos. Sua vida sempre fora feita de cálculos, frieza, precisão cirúrgica nas emoções. Nada o desestabilizava. Até agora.
Mas aquele beijo…
Não era só desejo. Não era só proximidade forçada.
Era familiar. Reconhecido.
O encaixe dela no corpo dele parecia antigo, quase como se já tivesse acontecido antes, como se o mundo apenas tivesse esquecido de registrar.
Ele respirou fundo, travando os punhos.
Pare. Não vá por aí.
Forçou-se a silenciar a mente, a enterrar a lembrança quente de Olívia contra ele.
Mas cada passo no corredor parecia carregar o gosto dela ainda na boca.
Quando se aproximava da recepção, ouviu seu nome.
— Ian!
Ele parou, virando-se devagar.
Carolina.
O cansaço caiu sobre ele como chumbo. Estava exausto demais para reagir com as provocações habituais. Limitou-se a observá-la se aproximar, o sorriso dela suave, como se nada tivesse acontecido entre eles.
— Você soube do Léo? — perguntou ela, sem fôlego, mas com brilho nos olhos.
Ian manteve a voz firme, dura.
— Ele está bem.
Carolina sorriu como se já esperasse.
— Eu sei. Já tinha ouvido. — E se aproximou mais, inclinando-se levemente. — Consegui que ele ficasse na sala de vidro da UTI. Ninguém pode entrar. Mas Olívia vai poder vê-lo se quiser.
Ian piscou, surpreso. Aquilo o interessou apesar da pessoa que o falava. Sabia o quanto aquilo significaria para Olívia, vê-lo, ainda que de longe, poderia ser sua única força agora.
Mas desconfiou. Sempre desconfiava.
— Por que você está fazendo isso? — a voz dele saiu mais baixa, carregada de peso. — A última vez que viu Olívia, você desejou matá-la.
Carolina enrubesceu, desviando o rosto, mas não recuou.
— Eu sei separar uma criança da minha raiva. — Respondeu rápido, ríspida. — E, de qualquer forma, eu nem tinha razão para ciúmes, não é? Você nunca amou Olívia. Isso tudo é só um acordo.
Ian não respondeu. O silêncio dele pesou mais que qualquer palavra.
Dentro de si, algo latejou. Um acordo? Ele não queria pensar no que aquilo significava agora.
Carolina inclinou o corpo, os olhos fixos nele.
— Não é?
Ele perdeu a paciência. Virou-se, começando a se afastar.
Mas então ela falou:
— E o seu avô?
Ian travou no ato. O corpo inteiro congelou.
Não queria falar dela, não queria ouvir dela. Queria ir embora.
Mas a pergunta… a pergunta o prendeu.
Lentamente, virou-se. Carolina já caminhava para uma das cadeiras da recepção, sentando-se com calma. Não parecia provocação. Parecia seriedade.
Ele foi até lá, contra a própria vontade, e sentou ao lado.
— Falei com ele. — disse Ian, seco. — Decidiu não se tratar. Aceitou a morte.
Carolina respirou fundo, os dedos cruzados no colo.
— Não é que não haja tratamento. — murmurou, os olhos fixos no chão. — É que ele não aceita as condições. Seu avô… prefere morrer do que se render ao que seria necessário.
Ian franziu o cenho, virando-se para encarar o perfil dela.
— Você ainda guarda ressentimento.
— Claro que guardo. — admitiu, firme. — Mas às vezes… eu também guardo lembranças boas.
O silêncio que se seguiu não foi confortável, mas tampouco foi hostil. Era uma trégua estranha, como se, por alguns minutos, ambos pudessem respirar sem lutar.
Ian fechou os olhos por um instante. Ainda sentia o gosto de Olívia nos lábios. Ainda carregava o peso de Nicolau nos ombros. E agora, tinha Carolina ao lado, lembrando-o de que nada em sua vida era simples.
Enquanto isso, Carla ainda falava, os olhos faiscando de curiosidade, quando Olívia saiu do quarto. O soro já havia terminado, e a vontade de ver o filho pulsava como ordem em suas veias.
No entanto, mal chegou ao corredor da recepção, travou.
Ali, sentados lado a lado, estavam Ian e Carolina.
E não era a cena de ódio e desprezo que Olívia lembrava. Não eram dois inimigos trocando farpas. Ian estava inclinado para frente, atento, ouvindo cada palavra de Carolina. Ela sorria, confiante, como quem compartilhava segredos antigos.
O coração de Olívia apertou no peito com força quase física.
Atrás dela, Carla surgiu devagar, o olhar imediatamente capturando a cena.
— Quem é ela? — perguntou, a voz baixa mas afiada.
Olívia demorou um instante para responder, como se as palavras fossem pedras na boca.
— A ex dele. — murmurou, engolindo em seco. — A mulher que ele dizia odiar.
Carla arqueou as sobrancelhas, estudando Ian e Carolina como se fosse um espetáculo particular.
— Odiar? — repetiu, soltando uma risada curta. — A última coisa que ele parece sentir agora é ódio.
A frase bateu em Olívia como punhal. O sangue subiu ao rosto, quente, ardente, não de vergonha, mas de um sentimento tão brutal que quase a fez perder o ar.
Sem pensar, sem medir, sem planejar, ela deu o primeiro passo à frente.
E depois outro.
O som dos próprios passos ecoou no chão polido do hospital, carregado de fúria contida.
Carla a observou de lado, com um sorriso que mesclava provocação e prazer.
Olívia, no entanto, não viu.
Toda a sua atenção estava cravada no homem que minutos atrás a beijara como se já a conhecesse de outra vida e que agora parecia completamente entregue à presença de outra mulher.

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