— Eu… eu realmente posso vê-lo? — a voz de Olívia saiu baixa, quase infantil, carregada de medo e esperança ao mesmo tempo.
O médico assentiu, abrindo um pequeno sorriso compreensivo.
— Sim, senhorita Belmonte. Mas apenas pela parede de vidro da UTI, por enquanto. Ele está em observação, ainda é cedo para contato direto. Precisamos evitar qualquer risco de infecção.
Olívia concordou com a cabeça de imediato. O alívio que sentiu foi tão grande que as pernas pareceram fraquejar.
— Não importa. Só de ver o meu filho… já é o suficiente.
Ela começou a caminhar, mas parou ao ouvir a voz do médico às suas costas.
— Carla? — chamou ele, num tom hesitante. — Podemos conversar um instante?
Olívia virou-se, surpresa. Carla ainda estava parada no corredor, os braços cruzados, o olhar frio.
— Não temos nada para conversar. — respondeu ela, cortante.
O médico suspirou, visivelmente desconfortável.
Olívia franziu o cenho, dando um passo em direção aos dois.
— Vocês se conhecem?
Carla lançou-lhe um olhar rápido, mas duro.
— Ele é a última pessoa que eu conheço.
Havia mágoa na frase, uma ferida não cicatrizada. Olívia percebeu a farpa imediatamente, mas não teve tempo de insistir. Carla mudou o foco como quem fecha uma porta com força.
— Você não deveria ir trabalhar? — disse, seca, encarando o médico. — Não é tudo sobre isso?
O médico respirou fundo, claramente engolindo algo que preferia dizer. Mas não insistiu. Apenas virou-se para Olívia, a voz calma de novo:
— Venha comigo.
Olívia lançou um último olhar para Carla, confusa e inquieta, mas seguiu ao lado do médico em silêncio.
Carla ficou para trás, apoiada na parede, e disse:
— Eu espero por você aqui fora.
O corredor se alongou diante dela, frio e silencioso. Cada passo parecia pesar uma tonelada, como se o coração de Olívia batesse contra os próprios ossos.
Até que pararam diante da sala de vidro.
O mundo inteiro sumiu.
Ali, deitado naquela cama imensa, estava Léo. Pequeno, frágil, cercado de fios e máquinas que apitavam em ritmos constantes. O corpo miúdo parecia ainda menor em contraste com os lençóis brancos, a pele pálida refletia a luz fria da UTI.
Olívia levou a mão à boca, tentando conter o soluço, mas falhou.
As lágrimas vieram em cascata, silenciosas, quentes. O peito dela se despedaçou ao ver o filho sozinho, perdido entre tubos e monitores.
A mão deslizou pelo vidro como se quisesse tocar a pele dele.
— Meu amor… — sussurrou, a voz embargada. — Meu pequeno… mamãe está aqui.
O médico permaneceu em silêncio, respeitando o momento.
Olívia ficou ali longos minutos, apenas chorando, apenas olhando. O coração dela se dividia entre gratidão e desespero: grata porque ele respirava, apavorada pelo quanto ainda era frágil.
Quando finalmente conseguiu recuperar um pouco da voz, voltou-se para o médico, enxugando os olhos com as costas da mão.
— E agora? — perguntou, a voz ainda trêmula. — Como será a recuperação dele? Quais cuidados? O que eu devo fazer… ou não fazer? Quanto tempo até podermos voltar para casa?
— Tem certeza?
— Claro. — Carla sorriu, mas havia algo de nervoso em seu olhar. — Vá tranquila. Eu estarei aqui quando voltar.
Olívia hesitou, sentindo um peso no peito.
— Eu volto rápido. — prometeu.
Saiu do hospital com passos arrastados, o coração dividido entre alívio e medo, esperança e desconfiança. O carro percorreu o trajeto até a mansão como se atravessasse um campo minado: cada lembrança, cada olhar de Ian, cada palavra de Nicolau vinha como estilhaço em sua mente.
Quando atravessou os portões altos, o corpo inteiro reagiu. Não sabia se era raiva, se era medo ou se era a sensação de estar entrando de novo na prisão dourada dos Moretti.
Atravessou o hall em silêncio. Na sala principal, encontrou Ian.
Ele estava sozinho, sentado, encarando fixamente uma parede, como se buscasse respostas escondidas nas sombras. Não notou a chegada dela até o ranger leve da porta.
Quando a viu, endireitou-se imediatamente, em alerta, os olhos tensos, como se tivesse sido arrancado de um pensamento profundo.
Mas antes que qualquer palavra pudesse ser dita, uma terceira voz cortou o ar.
— Soube que a cirurgia foi um sucesso.
Nicolau Moretti surgiu apoiado em sua bengala, o sorriso carregado de satisfação. Os olhos dele, no entanto, brilhavam mais de cálculo do que de ternura.
— Seu filho está bem… isso é uma ótima notícia. — disse, devagar. — E agora que temos isso resolvido…
Fez uma pausa, olhando de Ian para Olívia com um brilho predatório.
— Podemos finalmente marcar a data do casamento.
O coração de Olívia congelou. Que diabos de casamento ele falara?

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