O beijo explodiu como um incêndio que ambos fingiam que não existia. Ardia como fogo roubado. Mágoa, raiva, dor, desejo: tudo veio junto, como uma onda devastadora. Misturado em um choque brutal.
Olívia resistiu por um instante, mas logo reagiu compensando o seu atraso, o corpo traiu a mente, cedendo ao calor dos lábios dele, cedendo a entrega e à urgência das mãos que a seguravam. Era errado, era imprudente, era inevitável. Sentia seu corpo se mover ainda mais próximo dela, a sensação era como sonhar acordada.
Até que a realidade caiu sobre ela.
Como se tivesse despertado, apenas disse a si mesma que não era verdade. Nada daquilo. Não podia ser.
Sabia que se existe desejo, é porque há uma chama.
Se existe uma chama, alguém está fadado a se queimar.
E Olívia não queria ser aquela que queimaria. Até a morte.
Por isso, precisou reagir.
O instinto a fez empurrá-lo com força.
— Não! — gritou, o peito arfando, e antes que pudesse medir o gesto, a sua mão voou, estalando contra o rosto dele.
O som seco e duro ecoou pela biblioteca, e os dois ficaram imóveis.
O rosto de Ian virou ligeiramente com o impacto, mas ele não recuou. Ficou parado, os olhos escuros cerrados e faiscando ao mesmo tempo. A pele marcada pelo tapa ardia, mas ele permanecia imóvel. Apenas ficou ali, firme, a respiração pesada.
Olívia, por sua vez, levou as mãos à boca, horrorizada.
— Eu... meu Deus… eu… eu não sei por que fiz isso. — a voz tremia. — Eu… desculpa.
A respiração dela vinha em soluços, as lágrimas ardiam nos olhos.
Ian demorou alguns segundos para falar. Quando abriu a boca, a voz veio baixa, grave, carregada de tensão:
— Você estava certa. Eu não deveria ter feito isso. Não de novo.
Ele respirou fundo, as mãos fechadas em punhos ao lado do corpo, a mandíbula travada, como se realmente tentar resistir a isso fosse uma batalha.
— Mas você simplesmente não calava a boca. — acrescentou.
A frase foi um suco. Olívia recuou um passo, sentiu o chão sumir sob seus pés. O peito apertado, a raiva e o desespero se atropelando dentro dela. Depois, caiu pesadamente no sofá de couro, afundando as mãos no rosto.
— Eu não aguento mais… — murmurou, os ombros tremendo. — Eu estou exausta, Ian. Faz mais dias que não durmo, que não consigo sequer comer. Minha mente pode colapsar a qualquer segundo. Eu… eu sinto como se tivesse o peso do mundo nos ombros.
Todas essas lágrimas que havia chorado, a fizera se afogar num maremoto. Queria sair correndo por aí, sem ter pressa pra voltar, pois já estaria longe de tudo. Se perguntou se já estava completamente arruinada. Se iria conseguir continuar apenas sobrevivendo.
O silêncio caiu, espesso, tomando conta da sala.
Ian não respondeu de imediato. Apenas permaneceu imóvel, apenas a observando, parado, como se cada palavra dela atravessasse sua própria pele, arrancando também algo dele.
O olhar dele não era frio agora. Era algo mais fundo, um reconhecimento silencioso de que entendia aquela dor.
Depois de um longo instante, ele disse apenas:
— Eu entendo.
Olívia ergueu os olhos, surpresa com a calma na voz dele. Não esperava compreensão. Esperava julgamento, mais frieza. Mas aquelas duas palavras, ditas daquele jeito, a atingiram mais do que se tivesse gritado.
— Não era isso que você queria?
Ele demorou a responder. O silêncio dele foi quase insuportável. Quando respondeu, a voz veio carregada de algo que ele tentava sufocar, em uma firmeza dolorosa.
— Nem por um momento.
O coração dela acelerou como uma corrida desgovernada, disparado, a respiração curta. Queria rir, gritar, chorar, tudo ao mesmo tempo. Cada fibra do corpo gritava que deveria fugir, mas os pés permaneceram fincados no chão.
Sentia que ainda tinha tantas coisas a dizer, mas só conseguiu perguntar uma coisa.
— Então me diga… — a voz dela saiu baixa, trêmula, mas carregada de coragem. — O que você quer de mim, Ian?
O silêncio se arrastou, e cada segundo parecia um século. O ar ficou mais denso, pesado dos gritos que não cabiam em palavras.
E pela primeira vez, Ian não tinha resposta imediata. Apenas o olhar profundo, como se buscasse a dele em busca de ar.
Ian a olhava como se buscasse nela algo que nem ele sabia explicar. Os olhos dele, escuros, estavam despidos de máscaras. Ali não havia o herdeiro frio dos Moretti, nem o homem pragmático. Havia apenas Ian. E ele parecia tão perdido quanto ela.
Olívia sentiu o estômago revirar. Parte dela queria que ele dissesse. Parte dela temia ouvir.
Ele abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu.
Apenas o som do relógio antigo da biblioteca, marcando os segundos, preenchia o espaço entre eles.
Fazendo a contagem da regressiva da decisão que mudaria a vida deles.
Para sempre.

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