Aquela noite não acabava nunca.
Olivia sorria porque precisava, não porque conseguia. Cada passo ao lado de Ian parecia ensaiado, como uma peça mal dirigida.
O salão ainda estava cheio demais. Luzes refletindo no mármore, taças tilintando, risadas misturadas com música de fundo. Mas tudo que ela sentia era o peso quente do olhar de Benjamin queimando sua nuca.
Ela não olhava. Não podia. Se olhasse, cairia ali mesmo. Sentia o ar carregado, grudando na garganta como fumaça. E a sensação de que estava correndo de um passado que comprou ingresso para o seu presente fazia tudo latejar.
Benjamin. Ali. De novo. Como um vulto saído das ruínas. Como um erro que não morreu. Um fantasma que ela jurava ter enterrado.
— Você está bem? — Ian quebrou o barulho todo com a voz baixa, rente ao ouvido dela.
Olivia piscou, ajeitou o rosto num sorriso rápido.
— Cansada, só isso. A noite foi longa.
Ian assentiu devagar. Mas os olhos... aqueles olhos não largavam o rosto dela. Olhar dele nunca era olhar. Era análise. Exame clínico. Perspicácia.
— Parece mais do que cansaço — murmurou.
Olivia desviou, mexendo na pulseira, fingindo interesse no brilho falso. Não podia deixar transparecer, não podia perder o controle ali.
— Talvez eu só não esteja acostumada a esse tipo de ambiente. Gente rica me dá dor de cabeça.
— Achei que estivesse aqui por dinheiro — ele rebateu, um sarcasmo leve na voz.
Ela quase respondeu à altura, mas mordeu a língua. Agora não. Precisava manter a farsa. Precisava do foco no Leo.
Olivia aceitou uma taça d’água de um garçom e bebeu num gole só. O estômago se revirava.
Ian ainda a observava quando Benjamin apareceu no canto do salão, encostado na pilastra como se o salão fosse dele. Uísque na mão. Olhos fixos nela.
Olivia travou. Ian seguiu o olhar dela, mas Benjamin já tinha se virado para outro grupo, rindo de alguma piada idiota, como se nada estivesse acontecendo.
— Você sabe quem é ele? — Ian perguntou casualmente, seguindo o olhar dela.
Ela respirou, ajustando a postura, fingindo indiferença.
— Benjamin. Seu... sobrinho, certo? — Olivia arriscou, tentando soar neutra.
— Filho do meu irmão. Sumiu do mapa por anos, voltou cheio de ideias. Meu avô parece... receptivo. Eu não gosto disso.
Ela só assentiu, sem voz. Um garçom passou oferecendo champagne. Olivia negou com um gesto curto.
— Vou ao banheiro — disse, antes que Ian perguntasse mais.
Ele franziu o cenho.
— Quer que eu vá com você?
— Não. — Sorriu rápido. — É só um minuto.
Do outro lado do salão, Benjamin surgiu de novo. Mais perto agora. Andava devagar, como quem mede território. Quando cruzou por ela, não olhou diretamente, mas sussurrou:
— Ainda lembra como eu gosto do café? Sem açúcar. Mas com você por perto.
Olivia estremeceu. Apertou a bolsa como se fosse um escudo e seguiu. Não deu a ele nem o prazer de um olhar.
Entrou no banheiro de mármore, fechou a porta e apoiou as mãos na pia. Respirou fundo, uma, duas, três vezes. A imagem no espelho parecia de outra mulher: maquiagem intacta, mas alma aos pedaços.
Fechou os olhos e então, os flashes vieram.
Benjamin em casa, jogando a chave na mesa com força. O copo quebrando na parede. A voz dele dizendo: "É tudo culpa sua". Olivia encolhida no sofá, chorando baixo, depois de um dia difícil no trabalho.
Ele gritando que ela era fraca, inútil. Que nem esposa sabia ser. E ao lado dele... Ela.
A amante dele observando tudo. Sorrindo. Como se tudo aquilo fosse um espetáculo e ela estivesse na primeira fila.
A verdade era que Ian ainda não sabia de nada da sua vida. Ainda não fazia ideia de quem era Benjamin para ela. E ela precisava manter assim. Até que todo aquele espetáculo acabasse.
Ela só precisava tirar Leo daquele lugar. Não podia deixa-lo no meio de uma confusão iminente. Ela precisava de um plano.
Ian ainda o observava, atento. Frio como sempre, mas agora... Curioso. E então, quando ela menos esperava, ele soltou?
— Você conhecia Benjamin antes?
O mundo parou por um segundo. Olivia engoliu em seco.
Ela não sabia o que responder.
— Com licença... preciso de ar.
Se afastou, atravessando o salão. Precisava pensar. Precisava sair, respirar. Lembrar de quem era ela antes de tudo aquilo.
Mas o destino, como sempre, não tinha freio e já tinha feito outros planos.
Quando olhou para a entrada, viu.
Uma mulher.
Vestido longo, salto firme, cabelo no lugar. E aqueles olhos, vasculhando cada canto como quem procura palco.
Olivia gelou.
Clara.
Não havia como confundir. A cicatriz da memória estava viva: o perfume doce, o sorriso de desprezo enquanto ajustava a alça do sutiã, nua, na cama dela. Com Benjamin.
Ela não podia estar ali.

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