Capítulo 21
Sofia Kim
Eu soube imediatamente que não era Richard.
Virei devagar. Meu sogro, Jones Brown estava a poucos passos de mim.
Vestia um terno cinza impecável, as mãos repousadas atrás das costas e um discreto sorriso no rosto. O mesmo sorriso tranquilo que eu me lembrava de ver quando ainda era adolescente e ele aparecia pra levar o Richard pra me ver.
— Ainda continua olhando primeiro para as sombras antes de olhar para as pessoas... — comentou com naturalidade. — Seu pai nunca conseguiu tirar esse hábito de você.
Meu corpo inteiro ficou tenso.
Fazia anos que eu não ficava frente a frente com ele. O vi no casamento, mas nem nos falamos.
— Senhor Brown.
Ele sorriu um pouco mais.
— Cresceu muito, Sofia. Realmente é uma mulher agora.
— O senhor também mudou um pouco.
A risada dele foi baixa.
— Justo. Já terminou o seu projeto do futuro? — franzi o cenho.
— Como o senhor sabe do meu projeto?
— Uma vez você me contou. Disse que criaria um pássaro espião, aos quatro anos.
Respirei fundo. Não queria que ninguém soubesse dos meus projetos. Aqueles drones ainda eram um segredo.
— Não é bem um pássaro, mas quando estiver pronto o senhor vai saber. Se puder manter segredo por enquanto...
— Claro minha nora.
Olhei rapidamente para os meus homens. Eles continuavam treinando, mas agora todos haviam parado discretamente para observar a cena.
— Está surpresa? — perguntou Jones.
Não respondi. Ele acompanhou meu olhar.
— Esperava encontrá-los acorrentados?
Continuei em silêncio.
— Ou mortos?
Minha mandíbula travou.
— Se um fio de cabelo deles tiver sido tocado, ninguém nesta família vai conseguir me impedir. Seu filho simplesmente esqueceu o que foi combinado com meus pais.
Jones caminhou lentamente até ficar ao meu lado. Não invadiu meu espaço. Apenas observou o treinamento junto comigo.
— Nem tudo é o que parece.
— Ele traiu, tirou minha empresa, meus cartões, e ainda ousou levar meus homens de confiança. Provavelmente também esqueceu que posso acabar com isso num piscar de olhos.
— Calma querida. Richard nunca superou a morte da mãe e vive num emaranhado de confusão. Só peço que tenha um pouco de paciência. E outra... Sei que gosta dele. Caso contrário já teria contado pra família Kim e ido embora. Mas você ficou Sofia. Sou muito grato.
Meu coração acelerou. Ouvi tão pouco de Jones, mas foram as frases mais sinceras vindo da família Brown até agora.
— O senhor me observa tanto assim? — Questionei.
— Apenas o suficiente.
— Não pretendo ficar senhor Brown. Até porque trouxe cinco homens e aqui só tem três. Se ele machucou Viktor e Lacoste eu não terei como perdoar e esquecer. O senhor entende, não é?
— Deixe-me cuidar disso pessoalmente. Richard carrega um peso que nem ele entende direito. Às vezes toma decisões ruins por causa disso.
— Do que o senhor está falando? — Ele soltou um sorriso forçado.
— Essa resposta só Richard pode dar.
Ficamos em silêncio por alguns segundos. Estava tentando encontrar lógica em tudo que ele dizia, mas nada aconteceu. É claro que ele não falaria mais nada.
— Richard sabe que eu estou aqui? — perguntei.
— Não.
A resposta veio imediata.
— Provavelmente acredita que você continua trabalhando na empresa.
Sorri. Richard Brown parece não saber de tudo, afinal. Em alguns dias já me perdeu de vista. Patético.
— Então o senhor vai contar?
Ele desviou o olhar para um dos instrutores, que corrigia a postura de um dos meus soldados.
— Se eu pretendesse contar... você já teria encontrado meu filho aqui, não eu.
Aquilo me deixou ainda mais desconfiada. Porque ele me protegeria do próprio filho?
— O que o senhor quer?
Jones permaneceu alguns segundos em silêncio antes de responder.
— Só seja um pouco mais paciente com meu filho. Quanto aos seus soldados... deixe isso comigo.
Meu estômago apertou.

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