Capítulo 6
Sofia Kim
O afastei ligeiramente com a mão, mas ele só me afastou novamente e cruzou os braços me olhando de cima a baixo.
— Faça o meu café da manhã.
Olhei para a faca, depois para ele. Então era isso?
— Eu não sei cozinhar.
Richard cruzou os braços.
— Então vai aprender....
Empurrou a faca alguns centímetros na minha direção.
— E, se eu ficar sem café...
Um sorriso quase imperceptível apareceu em seu rosto.
— Você também fica. Quero um café da manhã completo — ordenou, frio. — Ovos, bacon, blinis, suco fresco, café forte. Tudo.
— E se eu adulterar isso ou estragar? — perguntei, inclinando levemente a cabeça.
Ele sustentou meu olhar.
— Então vai ter que assumir as consequências.
Sorri de canto.
— Não me assusta tanto quanto deveria, Richard.
Ele avançou um passo, sem pressa.
— Você tem o hábito de se colocar à prova.
— E você, de controlar tudo ao redor.
Por um instante, o silêncio pesou entre nós. Então o telefone dele começou a tocar. Richard desviou o olhar para a tela, soltou um suspiro contido.
— Quando eu voltar... — Indicou a bancada com um gesto breve. — Quero isso resolvido.
— Eu não cozinho, Richard. Nunca cozinhei na vida.
— Então aprenda. — Ele deu um passo mais perto, invadindo meu espaço.
— Vai morrer de fome — respondi, sarcástica.
Ele não sorriu. Apenas me encarou por mais um instante, como se estivesse decidindo se valia a pena me esganar ali mesmo. Depois virou as costas e saiu da cozinha.
Assim que ele desapareceu pelo corredor, ouvi sua voz ao telefone, urgente, falando sobre algum problema na empresa. A porta da frente bateu. Eu estava sozinha.
Suspirei e comecei a revirar os armários. Tudo era industrial, exagerado, feito para uma equipe de cinco cozinheiros. Encontrei ovos, bacon, farinha. Liguei o fogão — pelo menos isso eu sabia fazer. Consegui preparar um café razoável. O bacon até que não ficou ruim.
O problema começou quando decidi fazer os blinis. Vi uma batedeira profissional enorme no canto da bancada. Parecia um tanque de guerra. “Não deve ser tão difícil”, pensei.
Errei feio, porque a máquina travou quase imediatamente. Tentei desligar, mas o botão não respondia. O motor começou a fazer um barulho estranho, como se estivesse sufocando. Lembrei do meu treinamento: nunca force o que não entende, mas a raiva de ter sido humilhada por ele ainda queimava no peito. Respirei fundo e tentei desligar a máquina.
Nada. Apertei outro botão, mas não adiantou.
Franzi a testa.
— Você também resolveu me odiar?
Olhei ao redor procurando a tomada. Também não havia interruptor. Bufei.
Abaixei e retirei a pequena tampa metálica na lateral da máquina, os fios estavam todos escondidos ali dentro.
— Que projeto maldito... Deve existir algum destravamento.
Estiquei a mão para tentar liberar o mecanismo, só que no instante em que meus dedos tocaram uma das peças metálicas... Um clarão azul explodiu diante dos meus olhos, e o cheiro de plástico queimado tomou conta da cozinha.
O estalo foi ensurdecedor. Meu corpo reagiu antes da minha cabeça. Saltei para trás por puro reflexo, mas bati violentamente contra a quina da ilha de mármore.
A dor explodiu na parte de trás da minha cabeça, e teto começou a girar.
Depois...
...
Ouvi passos correndo, mas tão longe. Alguém se movia rápido. Depois uma voz distante me chamou.
— Sofia.
Senti dedos tocarem meu pescoço, depois meu pulso. Alguém verificava minha respiração.
— Sofia...
A voz estava mais próxima agora. Abri os olhos lentamente.
Richard estava ajoelhado ao meu lado. A gravata havia sido afrouxada às pressas. Os cabelos estavam completamente desalinhados.
Uma das mãos ainda segurava meu pulso, a outra apoiava minha nuca. Quando nossos olhos finalmente se encontraram...
Ele soltou o ar como se tivesse voltado a respirar. Eu pisquei devagar, minha cabeça latejava. Mesmo atordoada, consegui abrir um sorriso fraco.
— Então… acho que perdi essa batalha pra cozinha. Vamos ficar com fome.
Richard ignorou completamente a provocação.
Sem dizer uma palavra, passou um braço por trás das minhas costas e o outro por baixo das minhas pernas.
Quando percebi... Já estava em seus braços. Richard parecia tão forte e charmoso agora. Seus braços marcaram na camisa branca com as mangas erguidas e não teve como não reparar seus músculos perfeitos. O pior era admitir que eu me sentia estranhamente segura naqueles braços.
Só que ao olhar pra ele não vi nem vislumbre de carinho. O rosto dele continuava fechado. Era impossível saber se aquilo era preocupação...

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